Português preso caiu em armadilha

A insólita história de um português e de um luso-americano acusados de terem tentado assaltar um balcão do Commercial Bank of Florida, em Miami (EUA) com recurso a um telemóvel, está envolta em mistério: alguns estranham que os amigos tenham planeado um roubo de 15 mil euros – uma verba irrelevante para os riscos - em circunstâncias “tão ingénuas” e outros defendem que se tratou de uma ‘armadilha’ para evitar que o principal protagonista falasse em Portugal sobre pelo menos um processo judicial em que está envolvido.

06 de abril de 2007 às 13:00
Português preso caiu em armadilha Foto: D.R.
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Os protagonistas da história – Paulo Almeida, de 45 anos, e Allan Guedes Sharif, de 27 – viviam em duas localidades próximas no limite dos distritos de Viseu e Guarda: Casal Vasco, no concelho de Fornos de Algodres, e Torre de Tavares, no concelho de Mangualde. Ambos têm cadastro policial e o segundo, um luso-americano, filho de mãe portuguesa e de pai indonésio, é procurado desde 2003 nos Estados Unidos.

Paulo Almeida, antigo dono de um matadouro em Fornos de Algodres, que comprou ao pai e depois vendeu, enfrentou – pelo menos até há um mês – graves problemas financeiros. Ainda assim, o nível de vida da família melhorou bastante e, a meio da semana passada, foi detido em Miami, numa agência bancária, onde se preparava para receber de uma atónita funcionária 15 mil euros, exigidos por telefone pelo cúmplice, Allan Sharif. Este luso-americano, segundo as autoridades policiais dos EUA, fez o telefonema para a empregada do banco da Florida a partir de Portugal, ameaçando-a de morte se não desse o dinheiro ao cúmplice no banco em Miami.

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O plano não correu bem e Paulo Almeida foi detido, na agência bancária, cercada por 70 polícias. Está em prisão preventiva a aguardar julgamento. Allan é procurado pelas polícias portuguesas e dos EUA.

O luso-americano viveu com uns tios em Torre de Tavares, no concelho de Mangualde, até aos 12 anos, e depois partiu para a América, de onde regressou há três anos, altura em que já era procurado pelas policias locais por suspeita de envolvimento em crimes de fraude e roubo. O tio, empresário da construção civil, recusou ontem qualquer envolvimento do sobrinho, ausente de Torre de Tavares, no golpe de Miami. Alguém se quis desfazer de Paulo Almeida, para evitar que falasse no âmbito do processo judicial sobre o matadouro, que envolverá também responsáveis de uma agência bancária de Viseu. “Ele não tinha nada. Devia dinheiro a muita gente, até a mim e, de repente, aparece de bolsos cheios e faz um assalto a um banco em Miami?. É muito estranho”, afirma o empresário, que quer manter o anonimato. O processo relativo ao matadouro começou há uns quatro anos e em causa estarão crimes de burla económica e abate ilegal.

O empresário, que admite o envolvimento do sobrinho em “gangs de rua” nos Estados Unidos, não acredita que o assalto ao banco seja tão simples e ingénuo quanto parece ser roubar um banco por telemóvel – ainda por cima num país onde toda a gente tem ou consegue armas com facilidade.

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SILÊNCIO EM CASA DA FAMÍLIA

“Não sei de nada do que se está a passar!”, foi a única frase proferida ontem pela mulher de Paulo Almeida, de 45 anos, que residia em Casal Vasco, no concelho de Fornos de Algodres, e que foi de “férias” para Miami para assaltar um banco, com a ajuda de um cúmplice que ameaçou uma funcionária por telemóvel. Tem dois filhos menores de idade e um rol de dívidas. O negócio do matadouro que correu mal terá feito desmoronar a sua vida financeira, arrastando-o para o mundo do crime.

LUSO-AMERICANO COM CADASTRO

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Allan Sharif, de 27 anos, suspeito de ter feito o telefonema ameaçador para ‘Linda’, a empregada da agência bancária de Miami, estava ontem ausente de Torre de Tavares e terá fugido para Lisboa quando soube que o assalto correra mal, isto apesar de o tio – que lhe dá emprego como motorista na empresa de construção civil – jurar que o luso-americano está contactável e regressa à terra hoje. Adianta que ainda nenhum polícia foi à sua procura. Allan Sharif pode ter sido mentor do golpe. Viveu até aos 12 anos com os tios em Chãs de Tavares e fez o 12.º ano. A sua família vive quase toda nos EUA e foi aí que se iniciou no mundo do crime, sendo procurado pelas autoridades policiais pelo menos em Nova York. Também tem cadastro em Portugal e sobre ele pende um mandado de captura internacional pela prática de assaltos e uso e porte de arma ilegal. Já cumpriu pena em Portugal.

DEFENDIDO POR ADVOGADO DE NORIEGA E WALESA

O empresário de Fornos de Algodres, Guarda, terá a defendê-lo em tribunal um advogado conhecido internacionalmente por ter representado personalidades de fama mundial.

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Frank A. Rubino terá sido nomeado por um magistrado para assegurar a defesa do português.

Sendo um advogado de grande reputação, Frank Rubino cobra honorários elevados para tomar conta de um processo e litigar em tribunal.

Até agora, ninguém se dispôs a esclarecer como é que aparece neste processo, embora algumas fontes dêem como certa que a sua escolha foi determinada pelo próprio tribunal.

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No currículo, o advogado conta com uma diversificada carteira de clientes, que engloba diversos nomes conhecidos a nível internacional.

É o caso do general Manuel Noriega, ex-presidente do Panamá deposto por uma intervenção militar norte-americana. E de Lech Walesa, o primeiro presidente da Polónia, eleito na fase que seguiu ao domínio comunista.

"BATIA NOS EMPREGADOS PARA NÃO PAGAR"

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José Almeida, de 33 anos, residente em Torre de Tavares, trabalhou durante anos para o matadouro de Paulo Almeida. Admite sem grandes dúvidas o envolvimento do antigo patrão e de Allan Sharif no assalto ao banco de Miami. “Ele [Paulo Almeida] batia nos empregados quando reclamavam dívidas. A mim não me aconteceu porque ele sabia que eu tinha licença de uso e porte de arma. E ficou--me a dever 850 euros”, conta José de Almeida – que fazia o transporte de ovelhas de Inglaterra para o matadouro – , adiantando que o antigo patrão “andou envolvido em cenas de pancadaria e tinha sempre carros novos, alguns sem o devido registo”. Quanto a Allan Sharif, diz que “esteve preso em Coimbra – foi o tio que o tirou de lá – e meteu-se em assaltos, zaragatas em discotecas e uso e porte de arma ilegal e tem um mandado internacional de captura relacionado com problemas nos EUA e Inglaterra”. “Os dois [Paulo e Allan] conheciam-se bem, eram amigos, via-os juntos muitas vezes por aqui”, adianta José Almeida, que também não sabe em que circunstâncias decidiram fazer o assalto: “Quando me contaram, fui à Internet ver os jornais e foi assim que fiquei a saber do sucedido”. Entretanto, Allan Sharif é suspeito de ter feito vários telefonemas para o Tribunal de Miami, intitulando-se agente do FBI, com o objectivo de saber dados do processo. Paulo Almeida vai ser defendido pelo advogado Frank A., o mesmo que defendeu o antigo líder do Panamá, Manuel Noriega, capturado em 1989 pelos norte-americanos.

OS DOIS VIVIAM EM ALDEIAS VIZINHAS

Allan Sharif, que vive em casa dos tios, situada em frente aos estaleiros da empresa de construção civil da família, é apontado como o mentor do assalto que causou surpresa não só em Portugal, mas também em Miami, nos Estados Unidos da América, onde ocorreu. Há mesmo quem adiante a hipótese de ter “montado uma armadilha” a Paulo Almeida, por razões que as autoridades policiais estão ainda a investigar. Certo é que os dois homens viviam em aldeias próximas e eram vistos muitas vezes juntos. À excepção do empresário, que nega o envolvimento do sobrinho, outros informadores não têm dúvidas de que actuaram em conjunto.

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DINHEIRO SURGIU DE REPENTE

A ingenuidade aparente de Paulo Almeida, de 45 anos, casado, com dois filhos, é o que mais espanta em toda a história. A família “não tinha nada até há um mês e agora a mulher anda de jipe e tem um Mercedes”, disse o tio de Allan Sharif, adiantando que de repente arranjou dinheiro para viajar para Miami. “A questão é como o conseguiu.” O assalto “parece uma brincadeira de miúdos”, dizem os populares, suspeitando de que haja “mais alguma coisa” por descobrir.

1 - ENSAIO

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A 23 de Março, Paulo Almeida tenta entrar nos Estados Unidos da América (EUA) sem sucesso, através de New Jersey.

2 - ENTRADA

Três dias após a primeira tentativa, a 26 de Março, o empresário de Fornos de Algodres consegue entrar nos EUA, por Miami.

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3 - ASSALTO

O assalto dá-se a 29 de Março. Paulo entra no banco, em Miami, e o cúmplice ameaça a funcionária por telemóvel. Paulo é preso.

4 - JUSTIÇA

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A 2 de Abril, Paulo é ouvido em tribunal e determinada a sua prisão preventiva. Pode ser condenado uma pena de cadeia de 15 anos.

5 - CÚMPLICE

Allan Sharif, o alegado cúmplice do português, é identificado pelas autoridades policiais americanas, a 4 de Abril.

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6 - FUGA

O suposto autor do telefonema para a funcionária do banco ainda estará em fuga em Portugal, presumivelmente na zona de Lisboa.

FALTAVA QUASE TUDO EM CASA

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A família de Paulo Almeida viveu nos últimos anos numa situação de “carência extrema”

TIO DE ALLAN PAGOU DÍVIDAS

O tio de Allan pagou dívidas de Paulo ao advogado João Nabais e a um colégio em Coimbra

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VENDEDOR DE CÃES DA SERRA

Paulo trabalhou para o tio de Allan, até como vendedor de cães da Serra da Estrela

BRINCADEIRA DE CRIANÇAS

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O assalto “parece uma brincadeira de miúdos”, afirmam os populares de Casal Vasco

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