Sotero é imputável e pode voltar a violar

“Em 2007, tive a ideia de fazer mal a raparigas”, disse o violador de Telheiras aos peritos.

26 de fevereiro de 2011 às 00:30
sotero, telheiras, violador, relatório, perícia, lisboa Foto: Mariline Alves
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Henrique Sotero, que a 24 de Março começa a ser julgado por 74 crimes, entre eles 14 violações, é considerado imputável pelos psicólogos clínicos do Instituto Nacional de Medicina Legal (INML) que traçaram o perfil psicológico do violador de Telheiras. No documento a que o CM teve acesso os peritos alertam ainda para o risco de Sotero poder fazer mais vítimas.

"Não pode ser excluída a possibilidade de vir a ocorrer uma repetição de comportamentos semelhantes aos de que está acusado nos autos (...). Os instrumentos de risco de violência aplicados apontam para um risco moderado, particularmente para os actos de natureza sexual, cujo nível será de moderado a alto", concluiu a psicóloga clínica.

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Nas quatro entrevistas a que foi sujeito, o violador tentou sempre justificar os crimes, não poupando a namorada Filipa. "Eu sentia que fazíamos amor quando ela deixava e não necessariamente quando ela queria. Não notava desejo da parte dela", disse à psicóloga o violador, acrescentando que "com a Filipa, sempre me deu a ideia de que ela não queria fazer amor comigo mas consentia fazê-lo. A partir de 2007 comecei a ter a ideia de fazer mal a raparigas e quando não concretizava a mesma ideia não deixava de estar presente na minha cabeça".

Sotero disse aos peritos que "queria sentir-se desejado". "Não recorria a prostitutas por causa das doenças e também porque recorri duas vezes e a situação das prostitutas era ainda mais artificial do que estando a violar alguém. Sentia-me ainda menos desejado", afirmou. Sotero foi ainda claro quanto aos momentos das violações. "De manhã não, porque gosto de dormir. Agora à tarde e à noite sim. Se o meu chefe dissesse que tinha tarde livre eu deslocava-me aos sítios para seguir alguém, fosse quem fosse", afirmou. O relatório concluiu: "A avaliação não confirma patologia obsessiva para diminuição de imputabilidade".

"DEITOU-SE AO CHÃO E GRITOU"

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Na elaboração das perícias, o violador de Telheiras recordou o momento em que confessou as violações à namorada. "Quando contei à Filipa o que andava a fazer houve um choque, tanto a nível de proximidade como a nível sexual. Ela chorou, gritou, deitou-se ao chão a bater com as mãos e teceu comentários a lamentar-se da vida que tinha, mas depois, pouco a pouco, as coisas foram-se compondo. Eu estava à espera que acabasse, mas ela surpreendeu-me e tem-me apoiado de todas as formas possíveis e imaginárias", disse. Quanto à família, Sotero disse: "O meu pai não sabia de nada, já me veio visitar, mas não disse nada e desejou-me força. Já a minha mãe ficou e ainda está devastada. Tem uma forma negativa de ver tudo o que a rodeia. O meu irmão foi obrigado a mudar de trabalho por causa disto. Ficou com a imagem queimada", considerou.

"NÃO COMENTO PORQUE AINDA NÃO LI O RELATÓRIO"

José Pereira da Silva, advogado de Henrique Sotero, não faz ainda comentários sobre o relatório do Instituto Nacional de Medicina Legal. "Não comento porque ainda não li o relatório. Só hoje [ontem] é que fui notificado", explicou. O resultado da perícia não facilita o trabalho da Defesa, que vem alegando que Sotero pode ter imputabilidade diminuída. Em Dezembro, o advogado explicou ao CM, em entrevista, que perguntaria "ao médico assistente [António Albuquerque] o que acha da perícia que vai ser apresentada. Legalmente há a possibilidade de pedir uma segunda perícia, mas não tenho qualquer razão para pôr em causa, para já, o rigor dos peritos".

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"SE FOSSE JUIZ OU DAVA 25 OU INTERNAVA"

Questionado sobre as suas expectativas face ao processo judicial, Sotero disse estar "tranquilo". " Sinceramente não tenho expectativas. Se eu fosse juiz, ou dava 25 anos, que é a pena máxima, ou no outro extremo pedia para internar. Cometi crimes, mas nem sei se sou criminoso. Acho que quem faz isto merece pelo menos 20 anos pelo impacto futuro que vai ter na vida delas [vítimas]", disse. O violador afirmou-se, porém, cumpridor da lei. "Sempre fui cumpridor de todas as restantes leis, como a reciclagem, apanhar o cocó do cão. Tentei ser o melhor namorado e também tento ser um bom filho e considero ser bom trabalhador".

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