Taguspark: Um milhão deixado em caixotes
Auditoria revela que projecto custou quase um milhão de euros mas os sinais continuam num armazém no Prior Velho.
O projecto da sinalização do Taguspark, destinado a identificar a localização das empresas instaladas no interior do parque tecnológico, poderá originar uma nova investigação do Ministério Público ao complexo empresarial situado em Oeiras.
Segundo apurou o CM, uma auditoria externa às contas da anterior administração, presidida por Américo Thomati, detectou irregularidades naquele projecto, e os resultados já foram remetidos ao Ministério Público. Em causa está uma sinalização que terá custado quase um milhão de euros, mas que nunca foi apresentada e que se encontra num armazém.
A administração do Taguspark, cuja comissão executiva é actualmente liderada por Nuno Crato, confirma que as irregularidades relacionadas com os pagamentos da sinalização "foram detectadas e sistematizadas pela auditoria externa promovida pela actual administração por mandato dos accionistas". E garante que "o relatório da auditoria foi entregue ao Ministério Público, a quem cabe promover as acções e os esclarecimentos necessários". Os responsáveis do Taguspark, confrontados com o custo global do projecto, de quase um milhão de euros, não fizeram qualquer comentário. Isaltino Morais, presidente da Câmara de Oeiras e da assembleia geral do Taguspark, é categórico: "Consta na auditoria um problema com a sinalização, que não lhe vou dizer qual é."
Certo, segundo fonte conhecedora do processo, é que, neste momento, "os sinais estão num armazém no Prior Velho". No início, este projecto era tutelado pelo então administrador Paulo Lage, que foi substituído por João Carlos Silva em Maio de 2009. No Taguspark, o processo terá sido acompanhado por Luís Serpa, arquitecto próximo da autarquia de Oeiras, e por Vítor Castro, então administrador do Taguspark com a responsabilidade das obras. A sinalização necessitava da autorização da vereadora para as Obras da Câmara de Oeiras, Madalena Castro, mulher de Vítor Castro, que "nunca autorizou as obras, e Vítor Castro ficou sempre à espera que a mulher desse essa autorização".
O CM contactou Vítor Castro, mas este ex-gestor desligou o telefone, dizendo que estava no estrangeiro. Madalena Castro, apesar das várias tentativas de contacto, nunca atendeu o telefone.
'BOYS' DE RUI PEDRO COM AUMENTOS SALARIAIS
O Taguspark tinha vários funcionários com ligações familiares ou de amizade a Rui Pedro Soares: além de Paulo Bernardino e Sandra Ayres, já revelados pelo ‘CM', trabalhava também no parque tecnológico Miguel Luís, cunhado de Rui Pedro, que recebeu um aumento salarial de 33% (para 3979 euros por mês) em 2010, segundo a auditoria às contas da empresa.
Miguel Luís, que integrava a ficha técnica da revista de Rui Pedro Soares (a ‘Relance'), já saiu doTaguspark, segundo a actual administração. Carla Pimenta, assessora jurídica e mulher de um colaborador de Rui Pedro Soares na PT, teve também uma subida salarial significativa: 26%, de acordo com a mesma auditoria. O seu salário, que era de 3782 euros, foi reduzido pela nova administração do Taguspark.
Já Ana Velosa, adjunta de Armando Vara no Ministério da Administração Interna e com ligações familiares à vereadora Madalena Castro, teve um aumento salarial de 20%, segundo a auditoria, e passou a ganhar 5943 euros por mês.
AUDITORIA REVELA AUMENTO DE 58 POR CENTO
O ex-chefe de gabinete de Isaltino Morais, Nuno Manalvo, garante que não teve, em 2010, um aumento salarial de 58% no Taguspark, como refere a auditoria encomendada pela actual administração.
"No meu caso, o nível de actualização visava igualar os vencimentos dos futuros directores de área do Taguspark, equiparando os vencimentos por aquilo que já era praticado", refere um memorando que Nuno Manalvo pediu a Isaltino Morais para entregar ao conselho de administração. Saiu do Taguspark em Agosto de 2010 por sua própria iniciativa.
FIGO ERA ASSUNTO SECRETO
O despacho da juíza de instrução não deixa dúvidas de que o contrato a celebrar com Luís Figo como contrapartida do apoio a Sócrates era assunto secreto e reservado aos três arguidos - os administradores Rui Pedro Soares, Américo Thomati e João Carlos Silva. O assunto foi sempre apresentado de forma genérica pelos arguidos no interior do Taguspark e como uma mera acção promocional, omitindo a sua verdadeira finalidade, ou seja, funcionar como contrapartida remunerada (750 mil euros) para que Figo desse apoio público a Sócrates. Os arguidos fizeram "tudo de acordo com o plano que previamente traçaram", ou seja, o de "subtrair ao conhecimento e aprovação prévios da Comissão Executiva ou do Conselho de Administração um contrato que envolvia um encargo global de 750 mil euros". Este contrato milionário dava a uma das empresas de Luís Figo e da mulher quase o montante do resultado líquido estimado para o ano de 2008, em que o casal facturou 800 mil euros. Por outro lado, a juíza considerou que os arguidos tinham consciência plena do estatuto público do Taguspark. A magistrada admite também que no julgamento possa ser discutida ainda a possibilidade de ser somado ao crime de que já vão indiciados, que é de corrupção para acto ilícito, o crime de corrupção para acto lícito.
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