Violador foi filmado à porta do psicólogo
Sotero foi à consulta com o comentador da TVI e acabou traído pela presença de câmaras. <br/>
Poucos dias antes de ser preso pela Polícia Judiciária, Henrique Sotero foi normalmente a mais uma consulta com o seu psicólogo, Paulo Sargento. Sabia que a sua liberdade estava por um fio, com a investigação a apertar o cerco, e já preparava a defesa – mostrando que fora pedir ajuda. Mas alguém o filmou, a tocar à campainha do consultório e depois já a sair do número 11 da avenida de Berna, Lisboa – imagens exclusivas da TVI, que o canal ontem emitiu, por coincidência precisamente no programa ‘Você na TV’, em que estava o comentador residente Paulo Sargento.
O CM contactou o psicólogo para saber se foi ele quem chamou as câmaras de televisão para caçarem o seu cliente à saída do consultório, ao que o comentador da TVI se mostrou completamente surpreendido. 'É à porta do meu consultório? Vi as imagens quando estava no programa [de manhã] mas não fiquei com a ideia de onde aquilo era', garantiu. Isto depois de, num primeiro contacto do CM, ter afirmado desconhecer sequer quem tinha realizado as filmagens e qual o local onde aquelas tinham decorrido – num final de tarde em que o cliente Henrique Sotero lhe terá ido confidenciar os seus crimes, antes de ser preso. No entanto, o psicólogo não confirma se o violador o procurou, porque quem o consulta 'tem o direito a que a sua identidade seja preservada', e diz que nada tem a ver com as filmagens.
O CM questionou Sargento sobre quando é que um psicólogo pode ou tem obrigação de comunicar à polícia que um cliente cometeu um crime: 'Do ponto de vista do psicólogo clínico o sigilo profissional a que estamos obrigados pelo nosso código deontológico só deve ser quebrado se houver a forte suspeita de que o cliente vá cometer mais crimes', respondeu, apesar de Sotero ser apontado como um violador compulsivo, com mais de 40 casos confessados entretanto à PJ.
Também ontem, a TVI voltou a colocar no ar o testemunho de uma das vítimas do violador. 'Sem dúvida, já havia muita prática porque ele sabia bem... os pedidos que eu fizesse para parar ele sabia sempre bem o que dizer e como agir e nunca pareceu estar a pensar duas vezes no que estava a fazer'. 'A maior parte das vezes eu sofro é quando estou sozinha.'
'AGORA PERCEBO PERFEIÇÃO DO RETRATO-ROBÔ'
'Perante a gravidade dos indícios de responsabilidade criminal e disciplinar que a reportagem da TVI suscita, o meu constituinte não vai deixar de providenciar o necessário apuramento de responsabilidades', disse ao CM José Pereira da Silva, advogado de Sotero.
O advogado diz ainda que só agora entendeu o porquê da 'perfeição do retrato-robô [publicado pela PJ], que mais parece uma fotografia'.
Pereira da Silva quer ainda averiguar quem fez e em que altura as filmagens aconteceram. 'Se a autoria das imagens for da TVI importará descobrir como é que a estação teve acesso à identificação do meu constituinte em data anterior à sua detenção', refere o advogado.
O causídico começou a defender Henrique Sotero a pedido do psiquiatra – que seguiu o violador até ser detido – António José Albuquerque, de quem é amigo pessoal.
PORMENORES
RESPONSABILIDADE
Os advogados das vítimas já fizeram saber que querem que familiares, psiquiatra e outros que tinham conhecimento das violações sejam chamados à responsabilidade e não aceitam que Henrique Sotero seja tratado como um 'doente'.
AGRESSÃO NA CADEIA
Henrique Sotero foi agredido a 19 de Março na zona prisional da Polícia Judiciária por um recluso, supostamente Mário Machado, facto que motivou a mudança para o Estabelecimento Prisional de Lisboa. Desconhece-se por enquanto os motivos da agressão.
ESCAPOU À JUDICIÁRIA
Numa tarde de Outubro, Henrique Sotero foi abordado numa rua de Telheiras por inspectores da Polícia Judiciária em vigilância, mas teve sangue-frio para disfarçar e desaparecer.
'CHORAVA DESESPERADA E ELE PEDIA-ME PARA TER CALMA'
Uma das vítimas do violador de Telheiras recordou ontem em entrevista à TVI os momentos de terror que sofreu às mãos de Henrique Sotero, quando foi perseguida e forçada a fazer-lhe sexo oral, aos 17 anos. 'Lembro-me de ter ido pôr o meu irmão à escola. Ele estava num prédio, deu ideia de que estava à espera e seguiu atrás de mim. Abordou-me com uma faca', disse a jovem. A vítima explicou ainda que antes de consumado o abuso sexual foi por várias vezes ameaçada com a arma. 'Já havia muita prática porque ele sabia muito bem... Tinha um discurso decorado. Ele sabia sempre bem o que dizer e como agir e nunca pareceu estar a pensar duas vezes no que estava a fazer (...) Estava desesperada. Pedi-lhe que não fizesse aquilo e ele sempre a dizer para ter calma', continuou. Recorde-se que Henrique Sotero já confessou ter feito 40 vítimas, mas até agora apenas oito apresentaram queixa à PJ.
O violador de Telheiras era muito cuidadoso. Tinha sempre a atenção de apagar os vestígios. 'Lembro-me de ele usar um lenço para se limpar e de me oferecer um para me limpar caso me tivesse sujado', disse ainda a vítima.
Henrique Sotero apresentava-se às vítimas como sendo uma pessoa só, nunca se referindo aos pais, à namorada e muito menos ao emprego. 'Lembro-me de ele dizer que tinha problemas e que era uma pessoa só', diz a rapariga. De acordo com a vítima, após consumada a violação ele 'guardou a faca e deu-me a mão para me ajudar a levantar e a última frase dele foi: ‘isto não aconteceu’', concluiu. Depois de vários anos de violações, Henrique Sotero foi finalmente apanhado, a 6 de Março.
FAMILIARES DÃO APOIO NA CADEIA
Os familiares e a namorada de Henrique Sotero têm-no apoiado no Estabelecimento Prisional de Lisboa através das visitas. O advogado de defesa José Pereira da Silva, bem como o psiquiatra António José Albuquerque, têm também acompanhado o violador de Telheiras. Henrique está a ser medicado e o seu médico garante que poderá sair curado – facto contestado pelos advogados das vítimas, que garantem não deixar que Sotero seja considerado inimputável.
NOTAS
PRISÃO: AGUARDA JULGAMENTO
Henrique Sotero aguarda julgamento no Estabelecimento Prisional de Lisboa. É suspeito de oito crimes de violação consumada, mas confessou à Polícia Judiciária ter feito quarenta vítimas
DEFESA: FEZ CONTACTOS
O violador de Telheiras começou a preparar a defesa mal suspeitou de que estava a ser vigiado. Contactou um advogado, um psicólogo e um psiquiatra. Até mudou de visual
IDENTIFICAÇÃO: CHAMADAS
Desde que o ‘CM’ publicou o retrato do violador no jornal que surgiram várias chamadas que o identificavam. As impressões digitais e as provas de ADN não levantaram dúvidas à Judiciária
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