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A hora de todos os arguidos

‘Pedro’ vai contar hoje tudo o que sabe sobre os abusos sexuais na Casa Pia. E quer fazê-lo na cara das pessoas que acusou. O jovem, de 20 anos, é tido como uma das principais vítimas de pedofilia: aponta o dedo a todos os arguidos. Segue-se ‘André’, braço-direito de ‘Bibi’.
20 de Junho de 2005 às 13:00
Carlos Cruz não responde por qualquer crime relacionado com as duas principais vítimas
Carlos Cruz não responde por qualquer crime relacionado com as duas principais vítimas
Pedro’, de 20 anos, abre hoje no Tribunal Militar uma das fases mais importantes do julgamento do processo Casa Pia – vão começar a depor as principais vítimas da pedofilia, aquelas que acusam todos os arguidos. Dentro de oito dias, será ‘André’, de 19 anos, considerado o braço-direito de Carlos Silvino, no esquema de angariação de menores da instituição.
Esta manhã, a partir das 09h30, Carlos Cruz, Manuel Abrantes, Jorge Ritto, Hugo Marçal, Ferreira Diniz e Gertrudes Nunes vão ter oportunidade de assistir ao depoimento de um jovem que os incriminou a todos. Mas, por prescrição ou não apresentação atempada de queixa, apenas ‘Bibi’, Abrantes e Ritto (lenocínio) respondem por crimes relacionados com ‘Pedro’.
No entanto, o jovem – que estará acompanhado por elemento do Corpo de Segurança pessoal da PSP – vai reafirmar perante a juíza Ana Peres que, além de Carlos Silvino e Manuel Abrantes, foi várias vezes abusado por Carlos Cruz. E, segundo confidenciou a pessoas que lhe são próximas, quer fazê-lo olhos nos olhos. Mais: irá corroborar perante os juízes Ana Peres, Lopes Barata e Ester Santos que era um dos casapianos “preferidos” do apresentador, tal como o referiu à provedora Catalina Pestana. O arguido, de acordo com o seu advogado, Sá Fernandes, também quer assistir à audição de alguém que diz não conhecer desde a fase de inquérito. “Dele e de todos os outros assistentes”, observou o causídico.
Caso relate uma situação de abuso perpetrada por Cruz ou por qualquer outro dos arguidos que não conste no despacho de pronúncia, o Ministério Público deverá requerer ao Tribunal uma alteração substancial dos factos, o que poderá redundar na abertura de um processo autónomo, situação que já aconteceu em relação a Carlos Silvino. Se o procurador João Aibéo hesitar, o CM sabe que será José Maria Martins a solicitar ao Tribunal que avance com a extracção de certidões.
POLÉMICA COM PROVEDORA
A 62.ª audiência ficará igualmenta marcada pela presença de Catalina Pestana no local geralmente utilizado pelos advogados da Casa Pia, Miguel Matias, Joaquim Mota e António Pereira. Na qualidade de assistente, e como já acabou de prestar declarações, – embora deva voltar ao Tribunal quando for a vez de as defesas apresentarem provas que tentem sustentar a inocência dos arguidos –, a provedora deverá assistir ao depoimento de uma das vítimas. O CM apurou ser essa a vontade de Catalina, mas só hoje se saberá se isso vai mesmo acontecer. Isto porque há advogados que vão contestar a sua presença na sala de audiências. Paulo Sá e Cunha é um deles. “Não vejo motivo para a dr.ª Catalina estar presente”, disse, ontem, ao CM, o defensor de Abrantes. Sá Fernandes, questionado sobre o mesmo assunto, adiantou que só hoje irá decidir se aceita, ou não, que a provedora assista à audição das vítimas de pedofilia.
No dia 27 será a vez de ‘André’ se deslocar a Santa Clara. Por enquanto, o jovem ainda não decidiu se, tal como ‘Pedro’, vai querer enfrentar os arguidos que incriminou.
ESSENCIAL NA PRISÃO DE MIKE
O jovem que hoje vai falar no Tribunal Militar foi uma das testemunhas que ajudou à condenação de Michael Burridge, o principal arguido do chamado processo de pedofilia de Oeiras, acusado pelo Ministério Público de actos homossexuais com adolescentes.
Os factos remontam ao ano de 1996. ‘Pedro’, então com 12 anos, começou a ausentar-se frequentemente do colégio, tendo vindo a apurar-se que se encontrava com um adulto que abusava dele a troco de dinheiro.
‘Mike’ acabou por ser julgado e condenado, em Março de 2003 no Tribunal de Oeiras, a 34 meses de prisão.
PERFIS
'PEDRO' FOI ABUSADO DESDE OS 7 ANOS
Abandonado pelos pais, e depois de uma passagem pela Casa do Gaiato, ‘Pedro’ ingressou na Casa Pia em 1992, com sete anos, altura em que conheceu ‘Bibi’ e começou a ser abusado sexualmente. Segundo o Ministério Público, era uma criança com “perturbações psicológicas graves na área afectivo-emocional”, decorrentes do ambiente “violento” em que cresceu, pelo que foi logo encaminhado para a consulta de pedopsiquiatria.
‘Pedro’ implica todos os arguidos, tendo reconhecido presencialmente Gertrudes Nunes e a casa de Elvas. A perícia física concluiu que o jovem foi repetidamente abusado.
'ANDRÉ' IMPLICOU TODOS OS ARGUIDOS
A acusação revela que ‘André’, o chamado braço-direito de ‘Bibi’, era espancado pelos pais, alcoólicos, que o obrigavam a mendigar e a roubar. Foi colocado num lar, em Ermesinde, onde acabou por ser abusado por dois colegas. Em 1998, com 12 anos, ingressou na Casa Pia, beneficiando, desde então, de apoio pedopsiquiátrico.
Foi então que conheceu ‘Bibi’ por quem ficou “fascinado” por ser motorista. Segundo a acusação, Silvino terá adquirido um grande ascendente sobre o jovem, assumindo o papel de pai. ‘André’ relatou aos investigadores ter sido convidado por ‘Bibi’ para entrar no ‘esquema’, e implicou todos os arguidos.
DEFESAS QUEREM DESCREDIBILIZAR VÍTIMAS
Atacar a credibilidade das vítimas e de Carlos Silvino e desvalorizar as perícias de personalidade que atestaram a veracidade global dos depoimentos, são as principais armas da defesa dos arguidos do processo de pedofilia da Casa Pia que negam a prática de todos os factos descritos pela acusação.
Contactados ontem pelo CM, os advogados de Carlos Cruz (Sá Fernandes) e de Manuel Abrantes (Sá e Cunha) recusaram levantar a ponta do véu sobre o caminho que as defesas irão seguir nesta nova fase do julgamento. No entanto, a estratégia está minuciosamente descrita na contestação do apresentador ao despacho de pronúncia. Ricardo Sá Fernandes, secundado em julgamento pelos seus colegas, defende que as vítimas foram manipuladas e classifica os depoimentos como confusos e contraditórios. Este é, aliás, o ponto de partida para questionar a metodologia da investigação – um tema que já deu origem a acesas discussões e troca de acusações em audiência – um argumento acolhido também por todas as defesas.
Os advogados têm preparadas extensas listas de perguntas para colocar às vítimas e vão esperar por um deslize para contra-atacar. Foi, aliás, o que aconteceu durante o depoimento de Carlos Silvino. Perante algumas incongruências, Sá Fernandes não perdeu tempo em enunciar as seis contradições do ex-motorista. ‘Bibi’ é, de resto, o único arguido a assumir a prática dos crimes que lhe são imputados, e promete estar ao lado das vítimas. Já Manuel Abrantes e Carlos Cruz negam peremptoriamente os crimes de que são acusados, recorrendo o ex-provedor à tese da cabala para justificar o seu envolvimento no processo. Segundo apurou o CM, a defesa apresentar-se-á munida de prova documental, e descarta, por enquanto, pedidos de acareação.
'OS MIÚDOS VIVEM COM MUITA RAIVA'
Para alguns dos miúdos que foram vítimas de Carlos Silvino, o facto de terem ido aTribunal foi extremamente violento. Nos outros, os que foram abusados por vários arguidos, isso está a ser vivido com muita raiva, raiva essa que em alguns casos equilibra as emoções”, disse ontem Catalina Pestana ao CM.
A provedora da Casa Pia deverá exercer hoje, pela primeira vez, o direito de estar presente, como assistente, numa sessão do julgamento de pedofilia. No entanto, a estreia da provedora não se deve ao facto de o Tribunal ir ouvir o primeiro jovem que implica todos os arguidos, mas sim por só na semana passada ter terminado de prestar esclarecimentos a todos os advogados – o último foi Adelino Granja.
“Para mim, o dia de amanhã (hoje) é exactamente igual a outro dia de julgamento. As vítimas são igualmente importantes”, observou.
Embora refira que “cada miúdo é um ser diferente e único”, Catalina reafirmou que os jovens que foram abusados por mais pessoas vivem esta fase com “muita raiva”. Mas recusou revelar como é que as principais testemunhas (as que acusam todos os arguidos) têm passado os últimos dias antes da deslocação a Santa Clara.
Contudo, a provedora admitiu que a Casa Pia solicitou às autoridades o reforço do acompanhamento das vítimas.“Por tudo quanto tem acontecido, o cuidado foi triplicado”, afirmou, referindo-se às recentes ameaças de morte e assaltos às casas de dois jovens, um deles ‘André’, o chamado braço-direito de ‘Bibi’, que irá deslocar-se ao Tribunal Militar na próxima segunda-feira.
Recorde-se que Catalina Pestana, tal como a própria revelou em julgamento, teve várias conversas com a maioria das vítimas de abusos do escândalo Casa Pia e reproduziu-as na sala de audiências do Tribunal Militar.
‘Pedro’ e ‘André’, os dois próximos jovens a serem ouvidos, foram os principais interlocutores da provedora e, consequentemente, os que mais denúncias relataram.
Segundo assegurou Catalina Pestana aos juízes Ana Peres, Lopes Barata e Ester Santos, ambos lhe referenciaram os nomes de todos os arguidos do processo – e de outras pessoas que foram acusadas, mas não levadas a julgamento – e os locais onde a acusação diz que ocorreram abusos sexuais, designadamente as casas de Elvas e das Forças Armadas.
A provedora revelou ainda que ‘Pedro’, a vítima que hoje é ouvida, era o jovem ‘favorito’ de Carlos Cruz, e negou ter conhecimento que o ‘rapaz’ alguma vez se tivesse prostituído.
"SILVINO TEM PAPEL MUITO IMPORTANTE"
“Se tudo correr como pensamos, é a certeza de que Carlos Silvino tem um papel muito importante na descoberta da verdade” – José Maria Martins, advogado de ‘Bibi’, sintetizou assim o que espera da audição das duas principais vítimas do processo Casa Pia.
Martins espera, essencialmente, que ‘André’ corrobore o que o seu cliente já afirmou em Tribunal, dado tratar-se do jovem que é considerado o braço-direito do ex-motorista. Silvino, depois de reconhecer que abusou de ‘André’, afirmou que a vítima, em julgamento, confirmará que Carlos Cruz, Hugo Marçal, Jorge Ritto, Manuel Abrantes, Ferreira Diniz frequentavam a casa de Elvas, onde decorriam “festas, forrobodó com sexo à mistura”
JULGAMENTO REGRESSA A MONSANTO
Apenas cinco das 32 vítimas do processo Casa Pia vão depor através de videoconferência. Segundo apurou o CM, após várias reavaliações do actual estado de vulnerabilidade dos jovens, a Comissão de Apoio Psicológico às Vítimas reduziu para menos de metade o leque de ‘rapazes’ que não se encontram em condições de enfrentar a sala de audiências.
Um deles é ‘Jorge’, o rapaz que recentemente tentou, pela segunda vez, o suicídio. Traumas acentuados, grande persistência de ansiedade, vergonha e dificuldade em falar foram alguns dos argumentos que levaram Ana Peres a deferir a videoconferência, sistema que vai obrigar a realizar algumas sessões no Tribunal de Monsanto, ainda sem datas marcadas.
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