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À mercê do fogo

O número de incêndios, os riscos acrescidos da seca e as mortes de Mortágua vieram provar que já não há uma época oficial de fogos
3 de Março de 2005 às 13:00
Os avisos são sérios e precupantes: só em dois dias de Fevereiro, 17 e 18, deflagraram um pouco por todo o País 450 fogos florestais. A seca antecipou os perigos dos incêndios. Mas os planos oficiais de combate às chamas não passam, ainda, de meras “hipóteses de trabalho”, como garante ao Correio da Manhã fonte autorizada do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil (SNBPC).
Está legislado que a época nacional de incêndios florestais tem início a partir de Junho e se prolonga até final do Verão. O País enfrenta a maior seca dos últimos 50 anos – e o perigo recrudesce ameaçador como pólvora. Ainda assim, o SNBPC não sabia ontem precisar com o rigor que o assunto merece quais são os meios com que o País pode contar para se defender do flagelo dos fogos.
Está prevista a contratação de 27 helicópteros bombardeiros ligeiros (mais sete que no Verão passado), seis helicópteros de maior capacidade e dez aerotanques anfíbios que podem abastecer-se de água em barragens e no litoral. Estes meios, segundo as nossas fontes, apenas vão estar operacionais a partir de Junho – precisamente porque está regulamentado que é nessa época que os fogos começam. Até lá, segundo vários comandantes da zona Centro contactados pelos nossos repórteres, “estamos à mercê dos caprichos da natureza”.
A morte dos quatro bombeiros e os últimos incêndios “são avisos tão concretos que não percebo porque não se tomam medidas drásticas”, afirma Saldanha Rocha, presidente da Câmara Municipal de Mação, um dos concelhos mais martirizados pelos fogos do último Verão. “A definição de períodos estanques para os incêndios não tem qualquer enquadramento”, diz o autarca. Saldanha Rocha diz que o País “está a perder tempo” precioso nos preparativos para enfrentar os fogos.
Octávio Machado, presidente da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Palmela, garante que “as únicas estruturas sólidas” são os bombeiros.
“Caiu o mito de que os fogos florestais eram só no Verão. Vamos ter um ano muito difícil, mas as populações podem estar descansadas que os bombeiros cá estão para as defender”, diz Octávio Machado.
Se estoirar um incêndio de grandes proporções neste tempo seco, antes de Junho, não teremos cá nem os helicópetros, nem os aviões...
RIQUEZA AMEAÇADA
ÁGUA
Os planos de combate aos fogos devem prever os pontos de tomada de água onde os bombeiros e os helicópteros se podem abastecer nas zonas mais martirizadas pelos incêndios. Nas últimas semanas, muitas dessas tomadas de água secaram. Os planos têm de ser refeitos e esse trabalho está atrasado.
BRIGADAS
O curso de formação dos primeiros 30 elementos das brigadas helitransportadas foi retomado há duas semanas, após ter sido suspenso por razões “técnico-logísticas”. O enquadramento destes formandos na estrutura do SNBPC continua por definir.
INFERNO
2600 bombeiros foram mobilizados para as centenas de incêndios que deflagraram na última semana de Fevereiro.
CÉLULA
O Plano de Prevenção e Combate aos Fogos Florestais para este ano criou uma nova estrutura: chama-se Célula de Apoio à Decisão e é composta por elementos de vários organismos. O objectivo é dar apoio a uma estrutura de comando único. A célula tem agendadas reuniões semanais.
RECORDES
Na última década, o ano de 2003 foi o que mais registou de área consumida pelo fogo (425 701 hectares, o equivalente a quase 426 mil campos de futebol). Em 1995 tinham ardido 169 612 hectares e em 2000 os incêndios devastaram 159 604 ha. No ano passado, os 4517 fogos destruíram 120 503 hectares.
FALAM OS ESPECIALISTAS
O País está preparado para enfrentar os perigos dos incêndios florestais?
“Neste momento, ainda não se sabe muito bem o que existe para prevenir os fogos florestais. Mas o povo pode ficar descansado que os bombeiros não vão virar as costas a ninguém. Apesar das dificuldades, temos cada vez mais força”.Octávio Machado, Presidente Ass. Huma. B.V. Palmela
“O nosso dispositivo está preparado para incêndios de carácter de normalidade. Adversidades do tempo requerem um maior empenho. No distrito de Leiria, já tivemos mais 220 incêndios do que em igual período do ano passado.” José Manuel Moura Coordenador Operacional Distrito Leiria
“Genericamente está preparado. O País tem planos, instituições, bombeiros, equipamentos e um conjunto de instrumentos de actuação que estão definidos e trabalhados. Temos condições para responder ao problema.” Macário Correia Presidente da Junta Metroplitana do Algarve
“O País não está preparado por quatro razões: as matas não foram limpas, o tempo seco diminuiu o nível freático das plantas, o que aumenta a agressividade do fogo, a prevenção não existe e, quanto a meios, é aquilo que se vê”. António Cerqueira Comandante dos Bombeiros V. de Braga
“A minha opinião muito sincera é que por muito que se faça, nem que o orçamento do Estado fosse todo investido no combate aos fogos, e por mais meios que existissem, não haveria hipótese de acabar com os incêndios florestais. ” Irene Barata Presidente da autarquia de Vila de Rei
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