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“A opção era saltar ou morrer"

Hélder Sousa e o romeno Marius Duta, pára-quedistas sequestrados contam ao CM momentos de terror quando foram forçados a abandonar o avião face à ameaça de José Oliveira.

14 de fevereiro de 2010 às 00:30

Quando viram o ex-militar do Exército de arma em punho dentro da aeronave – que havia requisitado na tarde de anteontem no aeródromo de Évora para uma sessão fotográfica na barragem de Montargil –, os instrutores de pára-quedismo Hélder Sousa e o romeno Marius Duta perceberam que as intenções do cliente eram outras. Em poucos segundos viram a vida por um fio, sobretudo no momento em que José Francisco Valente Oliveira, de 61 anos, lhes apontou o revolver que trazia numa mochila e os obrigou a saltar do avião a baixa altitude quando se aproximavam do aeródromo de Tires, em Cascais.

'Ou saltava ou morria com um tiro', referiu ontem Marius, num hangar da empresa Get High no aeródromo de Évora. Este pára-quedista sabe que o salto foi arriscado, mas naquele momento 'não havia muito tempo para pensar'.

Hélder Sousa, que descontraía na manhã de ontem a saltar no mesmo aeródromo, não estava ainda refeito do susto. 'Para nós era um cliente normal que fretou um avião para fazer um trabalho fotográfico. Quando nos apontou a arma fomos obrigados a saltar abaixo da altura mínima, a apenas 150 metros de altura', contou.

Este instrutor acabou por cair num quintal no exterior do aeródromo de Tires e não viu o que se passou em seguida. Minutos depois, a aeronave despenhava-se junto à pista. O piloto, Mikael Anderson, que já tinha tirado a arma ao ex-militar, conseguiu fugir e atirou-se para uma vala para não ser atingido pelos tiros da carabina que o pirata do ar escondera numa caixa de viola. José Oliveira acabou por se suicidar com essa arma.

'O piloto foi um herói. Enquanto lutava pelos comandos do avião conseguiu cortar o combustível e também dar altitude ao avião na altura do nosso salto', frisou Hélder.

Mas este episódio foi apenas uma pequena parte de uma rocambolesca história que começou ao inicio da tarde, pelas 14h00, na pequena aldeia de Fortios, em Portalegre, com uma tentativa de homicídio. Por lhe ter recusado um empréstimo, José Oliveira atingiu a tiro o ex-vizinho João Garcia, de 59 anos, num braço e na face. Já atrasado para o voo que tinha requisitado, o militar reformado do Exército seguiu num monovolume Hyundai Matrix para o aeródromo de Évora. Minutos antes das 16h00 estacionou o carro e armadilhou-o com uma bomba artesanal que accionou antes de embarcar.

Apressado, José Oliveira nem olhou para trás, e enfiou-se no avião transportando uma mochila e uma caixa de viola em que escondia a carabina e a pistola. Durante o voo, disse ao piloto que queria entregar a viola a um amigo que o aguardava no aeródromo de Tires.

A queda do avião deu-se às 16h53. Segundos depois matou-se com um tiro na cabeça, deixando para trás um BI falso.

'PILOTO MERECIA MEDALHA'

Mário Pardo é dono da Get High, empresa que fretava o avião que anteontem foi desviado por José Valente de Oliveira. O primeiro contacto do ‘pirata do ar’ com a empresa ocorreu há 15 dias. 'Identificou-se como fotógrafo profissional, e disse que queria fotografar a barragem de Montargil', explicou Mário Pardo. A viagem ficou combinada para 5 de Fevereiro, mas o mau tempo adiou-a para anteontem. 'O terror começou quando o avião estava para aterrar. O piloto merecia uma medalha', reconheceu o empresário, que foi ontem ao Aeroporto de Lisboa esperar Mike Vetter. O alemão, dono do avião sinistrado, vem a Portugal resgatar a aeronave. 'O avião está em Portugal no Inverno. Vamos ver se haverá recuperação', concluiu.

MULHER DE PIRATA DO AR ISOLA-SE

Judite, como é conhecida em Fortios, Portalegre, a mulher do suicida, mal abriu ontem a porta da casa onde reside há uma década. 'Não tenho nada para comentar', disse, antes de se fechar na moradia. Tal como o era o companheiro, José Oliveira, a mulher é vista na aldeia como uma moradora simpática, de poucas falas. 'Quando passam por nós fazem um cumprimento, mas nunca param para conversar', disse um dos vizinhos, sob anonimato.

José vivia em Fortios há cerca de 12 anos com a mulher, que conheceu durante a passagem por Macau, onde esteve durante muitos anos. Quando regressou do Oriente, este homem, natural da Beira Interior, decidiu comprar um terreno em Fortios para construir uma vivenda. 'Ninguém sabe porque veio para aqui. Nunca lhe conhecemos família, mas há quem diga que tem um filho com outra mulher', contou outro vizinho. O ex-militar do Exército acabou por adquirir um lote ao homem que anteontem baleou. 'Na altura eram amigos, mas depois da compra de outro terreno as coisas nunca mais foram as mesmas.' A última discussão foi na sexta-feira. O ex-vizinho João Garcia, de 59 anos, negou-lhe um empréstimo e, sem nada o prever, José sacou da carabina que tinha no carro e alvejou-o com dois tiros num braço e na face. A vítima sofreu ferimentos graves, mas está livre de perigo.

BOMBA: CARRO EXPLODE

O alerta da explosão do carro do suicida foi registado pelos CDOS de Évora às 16h04. A bomba,fabricada com uma botija de gás e esferas metálicas, foi colada na mala do carro

INVESTIGAÇÃO: JUDICIÁRIA

A PJ esteve em força no terreno durante o dia

de ontem, em Portalegre, Tires e em Évora. Dentro do avião, com matrícula alemã, os inspectores recolheram seis invólucros de carabina

IDENTIFICAÇÃO: BI FALSO

Bombeiros, PSP e PJ encontraram anteontem junto ao cadáver um bilhete de identidade usado pelo pirata do ar com o nome Marques Carrilho. Constatou-se depois que era falso

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