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Abuso de crianças no Colégio Militar

Aluno brilhante, distinguiu-se pela enorme destreza física e inteligência superior. Mas disfarçava um perigoso instinto sexual e, já advogado, voltou ao Colégio Militar para manchar a imagem da instituição com mais de dois séculos de história. Abusou sexualmente de pelo menos seis alunos nas camaratas do colégio, em Lisboa. Estas crianças, todas entre os dez e 12 anos, juntam-se às mais de 20 vítimas da colónia balnear O Século, em Cascais, onde o predador sexual de 32 anos era monitor.
24 de Julho de 2009 às 02:00
Alunos eram atacados aos fins-de-semana
Alunos eram atacados aos fins-de-semana FOTO: Natália Ferraz

Dezenas de menores que eram deixados pelos pais aos cuidados do monitor, enquanto estes iam trabalhar descansados nos meses de Verão, foram primeiro drogados com clorofórmio colocado em algodão. Depois acabaram violados pelo advogado, que muitas das vezes também aproveitava para filmar os actos e colocar as imagens à disposição de outros pedófilos na internet.

Era a forma de poder partilhar os seus crimes com predadores de todo o País, entre os quais dois colegas juristas, alguns professores, um médico, empresários e Hugo Anacleto, o tripulante de ambulâncias que anteontem à tarde foi condenado no Tribunal de São João Novo, no Porto, a doze anos de prisão por 53 crimes sexuais, tais como violar duas crianças.

Foi através de uma investigação na internet que a Judiciária chegou a esta rede (ver caixas ao lado), mas, quanto ao advogado, que está na cadeia desde finais do ano passado, utilizou o facto de pertencer à Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar para conseguir abusar ali dentro de várias crianças, levadas para as camaratas daquele colégio durante os fins-de-semana.

Há casos de abusos entre os anos de 2001 e 2007, sendo que uma das crianças violadas na colónia de férias foi também levada para o Colégio Militar pelo monitor. O antigo aluno também abusou ali do rapaz – além de pelo menos seis do próprio colégio que não iam a casa aos fins--de-semana. Estes foram molestados e filmados, já despidos, às ordens do predador sexual.

Quando o advogado foi detido à guarda do processo de Cascais, pelos abusos na colónia de férias, ninguém fazia ideia da dimensão do escândalo sexual que entretanto foi apurado pela investigação. Este caso deu origem a outro inquérito, militar.

VÍDEOS MOSTRAM IMAGENS CHOCANTES DE SOFRIMENTO

Nos vídeos que o advogado pôs à disposição de outros pedófilos na internet há imagens chocantes de crianças da colónia balnear de Cascais a vomitarem depois de drogadas com clorofórmio, antes de serem violadas pelo predador. Ainda assim, apenas três meses depois de ser posto na cadeia o pedófilo sentiu-se no direito de ir para casa.

Advogado em Carnaxide, de 32 anos, em Dezembro de 2008 decidiu recorrer da medida de prisão preventiva para o Tribunal da Relação – alegando que não havia perigo de fuga nem de continuação de actividade criminosa até ao julgamento. Mas os juízes desembargadores negaram a prisão domiciliária ao predador sexual, que vai continuar preso.

Até porque a verdadeira dimensão dos crimes deste pedófilo só foi descoberta já com ele atrás das grades, através das dezenas de crianças que entretanto confirmaram à Polícia Judiciária terem sido alvo de abusos na colónia de férias O Século, em Cascais.

De resto, também os crimes de abuso sexual dentro das instalações do Colégio Militar só foram conhecidos recentemente. E teme--se que a descoberta não fique por aqui. Muitas outras crianças, que por medo ou vergonha escondam o pesadelo que viveram às mãos deste predador, podem ainda prestar o seu depoimento à polícia.

O Ministério Público aguarda pelo final das investigações e ainda não proferiu despacho de acusação em qualquer dos dois processos, pelos crimes de Cascais e Lisboa, mas não restam dúvidas dos abusos – confirmados pelos vídeos do pedófilo. Não guardava os conteúdos no disco do seu computador, utilizando contas externas, no estrangeiro, que lhe permitiam depois aceder aos mesmos conteúdos pela internet.

VENDIA OU TROCAVA FILMES NA NET COM OUTROS PEDÓFILOS

Depois de colocar na internet as imagens das suas violações a menores, o advogado acedia a sites com uma senha de entrada e vendia ou trocava os seus conteúdos com outros pedófilos, por filmes que lhe agradassem, feitos por esses predadores. Um deles era o tripulante de ambulâncias Hugo Anacleto, que foi apanhado pela PJ, no Porto, por abuso sexual de menores.

MARIA JOSÉ MORGADO LIDERA A INVESTIGAÇÃO

A investigação em Portugal começou pela operação ‘Carrossel II’, em Setembro de 2008, levada a cabo ao mesmo tempo em vários países, com o objectivo de combater a produção e divulgação de pornografia de menores na internet com programas de distribuição P2P. No nosso país foram feitas 18 buscas e identificadas 23 pessoas, numa operação da actual Unidade Nacional Contra a Corrupção da PJ, que investiga crimes informáticos. Os inspectores chegaram então ao advogado, através de imagens chocantes dos abusos sexuais na colónia balnear O Século, e o pedófilo foi preso nesse mês. A investigação transitou para a secção de combate a crimes sexuais da PJ de Lisboa – e foi extraída uma certidão do processo de Cascais para investigar o escândalo no Colégio Militar. O inquérito é dirigido pelo Departamento de Investigação de Acção Penal, liderado por Maria José Morgado, e está entregue ao procurador João Guerra,o mesmo que coordenou toda a investigação ao caso Casa Pia.

A INSTITUIÇÃO

206 ANOS DE HISTÓRIA

O Colégio Militar, hoje no largo da Luz, em Lisboa, foi instalado inicialmente em Oeiras, em 1803, pela mão do coronel Teixeira Ribeiro. Recebeu o nome de Colégio de Educação do Regimento de Artilharia da Corte.

INSTITUIÇÃO ABERTA

Nos primeiros anos de funcionamento eram aceites tanto filhos dos militares em missão como as crianças da redondezas, que eram órfãs ou pobres.

EXCELÊNCIA NO ENSINO

A qualidade do ensino ministrado no Colégio Militar motivou atribuição da mais alta condecoração nacional em 1920, Ordem de Torre e Espada.

CINCO PRESIDENETES

Os marechais Gomes da Costa, Óscar Carmona, Craveiro Lopes, António de Spínola e Costa Gomes, que se tornaram presidentes da República, foram alunos do Colégio Militar.

VIOLADOR DE DUAS CRIANÇAS PODE SAIR EM 2017

'Quando abusou daqueles meninos roubou-lhes a infância e matou-lhes os sonhos', disse anteontem a juíza ao pedófilo Hugo Anacleto, 27 anos, cúmplice do advogado de Lisboa. O tripulante de ambulâncias foi condenado no Porto a 12 anos de cadeia por violar duas crianças, mas pode sair em 2017, cumpridos dois terços da pena.

NOTAS

CÚMPLICES NO CRIME

A investigação da PJ está longe de terminar. Além de existirem vítimas desconhecidas, outros adultos conheceriam os crimes.

AJUDA DO BRASIL

A investigação da PJ está longe de terminar. Além de existirem vítimas desconhecidas, outros adultos conheceriam os crimes.

CONTACTO DIÁRIO

O tripulante de ambulâncias do Porto aproveitava contacto diário com crianças nos hospitais para levar a cabo os abusos.

'OPERAÇÃO': PROVA APREENDIDA

As 18 buscas da ‘Operação Carrossel II’ permitiu apreender 38 computadores, quatro máquinas fotográficas, 709 discos ópticos, 23 discos rígidos externos, um PDA e cinco telemóveis

CARGOS: ACESSO ÀS CRIANÇAS

A Associação de Antigos Alunos do Colégio Militar, em Lisboa, e o cargo de monitor na colónia balnear O Século, em Cascais, permitiam ao advogado o acesso directo a dezenas de crianças

AMIGOS: PEDÓFILO DISCRETO

Amigos e colegas do advogado de Carnaxide dizem-se apanhados de surpresa com os abusos a menores. O predador era uma pessoa discreta e considerada muito inteligente

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