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Alerta dez dias depois

Todo o dispositivo da GNR – inclusive os postos de Vila de Rei e Abrantes, locais onde Américo Pissarreira espalhou o terror em 1994, assassinando três pessoas, entre as quais uma criança – foi apenas avisado no dia 6 deste mês de que o recluso não tinha regressado da precária. Ou seja, dez dias após a data (27 de Dezembro, às 20h00) em que se devia ter apresentado na cadeia de Vale de Judeus.
13 de Janeiro de 2005 às 13:00
A informação foi garantida ao CM por fontes da GNR. A Direcção-Geral dos Serviços Prisionais (DGSP) afiança, contudo, que o alerta foi dado a 28 de Dezembro, o que significa que algo falhou na comunicação. Segundo fontes policiais, a prisão também só forneceu a fotografia recente do fugitivo após um pedido “pessoal” de um oficial da GNR do Centro.
O atraso na chegada da informação à GNR poderá ter prejudicado a “caça ao homem”, que assim começou dez dias atrasada. É que quando as polícias chegaram a Vila de Rei já o fugitivo por ali tinha passado (assaltando quatro casas) e seguia para o Porto.
A DGSP enjeita responsabilidades, afiançando que o alerta “foi transmitido a 28 de Janeiro ao Tribunal de Execução de Penas, Tribunal de Condenação, GNR, PJ, PSP e SEF”.
Fontes policiais asseguram que em situações semelhantes a DGSP tenta primeiro resolver o caso sozinha, indo à morada onde o recluso deveria passar a precária, neste caso a casa da tia, em Loures, e a outros locais onde se presumia que pudesse estar. A DGSP não confirma se o mesmo procedimento foi usado nesta ocasião.
Estranheza à GNR causou ainda o facto de a fotografia mais recente de Pissarreira (em que ele aparece já mais gordo e com bigode) não ter sido imediatamente remetida para os postos (especialmente de Vila de Rei e Abrantes), de forma a ser distribuída pelos militares que o procuravam com uma imagem com dez anos (a mesma publicada no CM) na mão. Na região de Lisboa, por exemplo, as esquadras apenas receberam a comunicação escrita da não comparência do recluso em Vale de Judeus.
A DGSP esclarece que a fotografia enviada com a participação da fuga “era a que existia nos serviços administrativos” de Vale de Judeus e que foi “tirada aquando da sua entrada”, em 1995. “Posteriormente foi enviada uma mais recente existente no sistema”, afirma a DGSP.
ADVOGADO ROMEU FRANCÊS ADMITE REABERTURA DO PROCESSO
Américo Pissarreira, o triplo homicida que está fugido da cadeia desde dia 27, ainda não se entregou às autoridades. Ontem, Romeu Francês, presidente indigitado do Fórum Prisões, afirmou que estará presente nesse momento. O advogado admitiu ainda reabrir o processo do triplo homicida, por existirem dúvidas sobre a sua imputabilidade.
“Ainda não tive nenhum contacto com o Pissarreira”, confirmou Romeu Francês ontem, pelas 16 horas, numa conferência de Imprensa em Setúbal. No entanto, garantiu acompanhar a “entrega” do recluso “para que não sejam cometidas ilegalidades”.
“O acto de entrega, por sua natureza e importância, emana da vontade do próprio”, declarou, esperançado de que essa “entrega seja em breve”, porque confia nos mediadores que estão com ele.
Romeu Francês vai tomar posse do cargo de presidente do Fórum Prisões no final do mês, no entanto admite que as proporções que o caso de Pissarreira tomaram levaram-no a intervir para garantir “a segurança das pessoas envolvidas”.
Por outro lado, o advogado admite reabrir o processo do recluso que está a cumprir pena por triplo homicídio cometido em Mouriscas, Abrantes.
“Há dúvidas sobre se o indivíduo é uma pessoa imputável”, e se essa questão se verificar o processo poderá ser reaberto. “Há muitos inimputáveis que cumprem penas por serem julgados como imputáveis”, acrescentou, sublinhando que “as prisões têm de deixar de ser armazéns de pessoas para serem centros de reintegração”.
VALE DAS CASAS ANSEIA POR DETENÇÃO
“Vocês não dão decreto dele lá por Lisboa?” – pergunta uma das habitantes de Vale das Casas, a aldeia do concelho de Vila de Rei que viu crescer Américo Pissarreira e agora receia o seu regresso. A aldeia conheceu nestes dias uma animação diferente, motivada pela presença de jornalistas, mas o que as pessoas queriam mesmo era receber notícia do regresso à cadeia do homicida em fuga.
“Eu ficava contente e descansada se ele voltasse para a cadeia. Isso é que era uma novidade boa para a gente”, diz a mesma habitante, que recusa “dar o nome”.
A palavra medo não sai da boca dos habitantes de Vale das Casas, pois viram crescer Américo Pissarreira e têm bem presente o seu mau comportamento.
“Ele noutro tempo era mau para a gente”, diz uma mulher.
Os pais do triplo homicida até evitam sair à rua e quando avistam jornalistas refugiam-se em casa, pois não querem “confusões”.
Na sede de concelho, há também quem se recorde de Américo Pissarreira, que quando andava na escola primária era conhecido pela alcunha de “espanhol”, devido à deficiência na fala. Na papelaria/cafetaria Tertúlia o tema domina as conversas e Germano Lourenço, proprietário do estabelecimento, lamenta que as autoridades não tenham divulgado uma foto recente do indivíduo.
PORMENORES
MEIOS NO TERRENO
Na caça ao homem realizada na última semana foram mobilizadas GNR (efectivos das Brigadas 2 e 5 – responsáveis pela zona Centro) e PJ (pelo menos uma secção do Departamento Central de Informação Criminal e Polícia Técnica (DCICPT) e elementos das directorias de Coimbra e Porto).
OPERACIONAIS
No terreno pode ainda estar o Departamento Central de Prevenção e Apoio Tecnológico da PJ, uma estrutura com cerca de uma centena de agentes que não estão adstritos a qualquer área criminal específica e podem ser enviados para reforçar investigações ou fazer seguimentos e vigilâncias em Portugal e no estrangeiro.
AJUDA DE RECLUSOS
O Fórum Prisões diz ter chegado a Américo Pissarreira através de um recluso que está em precária da Prisão de Vale de Judeus e de um ex-recluso que hoje é um “grande empresário”. Estão dois mediadores do Fórum com Pissarreira.
TRIPLO HOMICÍDIO
Américo Pissarreira está a cumprir pena de 15 anos e oito meses na Prisão de Vale de Judeus pelo triplo homicídio cometido em 1994, em Mouriscas, Abrantes. Teve uma saída precária no dia 22 de Dezembro e não voltou.
DESAPARECIDOS
Dois reclusos que saíram do estabelecimento prisional de Pinheiro da Cruz em precária para passar o Natal em casa continuam desaparecidos, avançou o Fórum Prisões, que admitiu esperar apenas até sábado pela entrega de Pissarreira.
19 PRECÁRIAS NEGADAS
A partir de 1998, Pissarreira solicitou 19 precárias, que foram negadas por falta de condições no exterior e receio de insucesso. Em 2003 foi-lhe indeferido a liberdade condicional ao meio da pena. Em Abril de 2004 foi-lhe dada a primeira precária. Teve mais uma e fugiu à terceira.
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