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Arrependido explica prendas

Namércio Cunha, ex-director-geral da O2, confessou favorecimento da CP
8 de Fevereiro de 2011 às 00:30
Carlos Alexandre, à chegada ao tribunal, à hora de almoço
Carlos Alexandre, à chegada ao tribunal, à hora de almoço FOTO: Vasco Neves

Namércio Cunha, ex-director-geral da O2 e arrependido no processo ‘Face Oculta’, explicou ontem a Carlos Alexandre, juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal, o esquema das prendas natalícias usado pela empresa de sucata para premiar os gestores de empresas públicas com quem mantinham negócios. Disse depois que, em caso de litígio, as mesmas prendas eram suspensas e explicou que as ofertas aos administradores, como José Penedos ou Armando Vara, eram directamente determinadas por Manuel Godinho.

Namércio Cunha garantiu no entanto que desconhecia a "dimensão" do esquema, explicando ainda que só começou a desconfiar de que as pesagens nos negócios com a REFER e a CP eram manipuladas "após ter recebido queixas de clientes". "Percebi que o sr. Godinho tinha um sistema de compensação", sublinhou Namércio Cunha que acabou por confessar um caso de favorecimento à O2.

Tratava-se de um concurso envolvendo a CP, que teve outros dois concorrentes além da sucateira de Ovar. Namércio Cunha soube antecipadamente do valor da proposta de um dos rivais e apresentou uma oferta ligeiramente mais atractiva. A O2 saiu vencedora, já que a terceira empresa nem sequer apresentou proposta.

Confrontado com uma escuta onde falava com o responsável pelo negócio da CP – que lhe pedia uma contrapartida pela informação prestada –, Namércio garantiu que se tratou de uma brincadeira de mau gosto e que nunca lhe foi dada qualquer quantia.

Outro dos momentos do seu depoimento – que ocupou toda a manhã – foram os depósitos feitos na sua conta. Namércio negou, nesse caso, tratar-se de divisão de lucros e explicou que acumulava despesas durante três ou quatro meses até receber o pagamento das mesmas.

Aí, Carlos Alexandre interpelou-o: "Causa-me alguma perplexidade. Eu seria incapaz de ficar dependente de ajudas familiares e ser credor do meu patrão", afirmou o juiz, enquanto Namércio garantiu que "era poupado".

ARGUIDO EXPLICA PRENDA

"A tua proposta é 110. Está ganho. [...] A não ser que queiras reduzir aqui o valor", disse Ricardo Anjos, da CP, a Namércio Cunha, da O2. "A outra era aquilo que me tinhas dito?", perguntou por seu turno Namércio e Ricardo voltou a confirmar que a sucata de Ovar iria ganhar o concurso. Ontem, Ricardo Anjos não soube explicar a conversa. Mas garantiu que nada tinha a ver com o referido concurso.

CONVENCE TRIBUNAL

O depoimento de Chocolate Contradanças, administrador da IDD (Indústria de Desmilitarização e Defesa) convenceu o tribunal. O arguido emocionou-se em alguns momentos e Carlos Alexandre concordou com os seus argumentos. O juiz chegou mesmo a dar-lhe razão e no final deixou a insinuação de que Manuel Godinho estava interessado em fazer contratos com a IDD porque pensava que aquela poderia desmantelar blindados. "O nosso contrato era muito pequeno. No máximo 10 mil euros ano", explicou depois Contradanças, dizendo que embora fosse administrador tratava-se de uma empresa tão pequena que era ele quem fazia tudo. "Falei com todas as empresas chamadas a fazerem uma proposta. Nunca quis beneficiar ninguém, só queria encontrar um melhor contrato para a IDD", assegurou, mostrando-se verdadeiramente indignado com a acusação feita pelo Ministério Público de Aveiro. "Não cometi qualquer crime", garantiu.

JOSÉ PENEDOS QUER RESPONDER A ADVOGADOS

José Penedos, ex-secretário de Estado, vai estar hoje em tribunal. O arguido foi chamado por outros dois réus e, no final da semana passada, juntou ao processo um requerimento dando conta de que estaria disponível para responder a todas as perguntas dos restantes causídicos que o entendessem interrogar.

Ontem, Rui Patrício, um dos seus advogados, esteve na diligência a ouvir os interrogatórios dos co-arguidos e chegou a confrontar Namércio Cunha sobre as prendas oferecidas em épocas natalícias. José Penedos também arrolou várias testemunhas ao explicar ser normal receber prendas de empresas com quem a REN mantinha negócios.

 

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