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As conversas proibidas

As escutas do ‘Apito Dourado’, anexas ao processo em investigação, mostram Pinto da Costa a conversar com frequência com Pinto de Sousa, combinando os árbitros que iriam dirigir os jogos da Taça.

18 de abril de 2007 às 13:01

Revelam também que o dirigente portista – que ontem completou 25 anos sobre a data em que pela primeira vez foi eleito presidente do FC Porto – sabia antecipadamente os castigos dos seus atletas (nas edições de domingo e segunda-feira o CM já tinha revelado que Pinto da Costa soube antecipadamente dos castigos a aplicar a Deco e Mourinho) e mostram também o presidente portista a conversar com Pinto de Sousa sobre as classificações dos árbitros.

Nem todas as escutas que hoje revelamos deram origem a inquéritos autónomos, mas todas foram usadas por Carlos Teixeira, o magistrado de Gondomar responsável pelo inquérito, para demonstrar o poder de Pinto da Costa no mundo do futebol.

Um poder relacionado com os 45 anos que leva como dirigente do FC Porto em várias modalidades, mas desde 1976 sempre ligado ao futebol, primeiro como chefe do departamento de futebol e depois como presidente do clube, a partir de 1982.

Só entre 1980 (ano do chamado ‘Verão Quente’ portista) e 1982 Jorge Nuno de Lima Pinto da Costa, que completará 70 anos no próximo dia 28 de Dezembro, esteve afastado do clube, mas não do futebol pois nesse período continuou a ter muitos contactos com jogadores e treinadores, nomeadamente José Maria Pedroto.

José António Pinto de Sousa, que aparece nas escutas como presidente do Conselho de Arbitragem da FPF, era um dos vários amigos de juventude que também fizeram carreira no desporto. Esta é aliás uma das justificações que tem apresentado nos vários interrogatórios a que foi sujeito para justificar a aparente familiaridade com o dirigente.

VALENTIM PEDIU PARA SER OUVIDO

Valentim Loureiro foi ouvido na semana passada pelo Ministério Público do Porto, a seu pedido. O ex-presidente da Liga respondeu no âmbito da acusação relacionada com o jogo Naval 1.º de Maio-Chaves e que envolve também o árbitro Paulo Baptista, da 1.ª categoria.

A inquirição de Valentim Loureiro foi então requerida pela defesa que pretendeu demonstrar não ser verdadeira a tese do Ministério Público. Em causa está um contacto com o árbitro de Portalegre que Valentim assegura não ter como objectivo beneficiar o clube da Figueira da Foz. Recorde-se ainda que neste processo já foram arquivadas as suspeitas relativas a Aprígio Santos, presidente do Nacional, e também Júlio Mouco, ex-vogal da Comissão de Arbitragem.

Pinto da Costa recebe uma chamada de Adelino Caldeira, administrador da SAD azul-e-branca. Mais uma vez, o dirigente portista consegue saber por antecipação qual vai ser o castigo que a Comissão Disciplinar vai aplicar a um determinado atleta.

Pinto da Costa (PC) – Estou.

Adelino Caldeira (AC) – Estou! Presidente?

PC – Sim...

AC – Adelino Caldeira. Como está?

PC – Tudo bem?

AC – Tudo bem, está tudo bem. Olhe o que lhe vou dizer agora é para si mesmo!

PC – Sim, sim.

AC – Só pode dizer ao Mourinho, a mais ninguém! [...] É assim, o McCarthy vai ser despenalizado por um jogo! [...] Portanto, vai poder jogar no próximo. Mas atenção que não se pode saber porque a reunião só vai ser na terça-feira! Foi tomada a decisão hoje, de baixarem um jogo, mas a decisão formal, o acórdão, só pode ser redigido na terça-feira e formalmente é só na terça-feira que é decidido.

PC – Não, eu nem ao Mourinho digo.

AC – Pronto, é só para lhe dizer... se não eles podem voltar atrás [...] Terça-feira fica espantado, pronto!

Pinto da Costa e Pinto de Sousa conversam sobre as incidências do jogo Sporting-FC Porto (onde se verificou depois o incidente da camisola alegadamente rasgada a Rui Jorge por José Mourinho) e falam de Lucílio Baptista, o árbitro que apitou aquele jogo. Pinto da Costa não poupa críticas ao juiz do jogo.

Pinto da Costa (PC) – O sr. Lucílio Baptista acha que é um penálti, porque é um vigarista!

Pinto de Sousa (PS) – É!

PC – Aliás. Estava tão comprometido.

PS – Sim...

PC – Estava tão comprometido,que os meus jogadores chamaram-lhe tudo, de filho da puta para cima e ele ria-se deles. Estás a perceber?

PS – Também não achas que ia expulsar aquela malta toda. Estragava o jogo, não é?

PC – Não, se ele estivesse de consciência tranquila, expulsava carago! Agora, foi de filho da puta para cima. ‘És um vigarista, és um filho da puta’!

PS – Até se vê na televisão.

PC – O gajo só se ria. Chamaram-lhe de tudo, filho da puta, gatuno, ladrão, vendido e o caralho. E o gajo ria-se.

PS – Ah, ah, ah!

PC – Um dia, quando eu encontrar esse gajo, vou dizer-lhe: ‘Você é um vigarista do caralho!’. Só quero ver se ele tem jogo hoje!

PC – Olha, da Taça vai ter, pá! Mas eu já te tinha avisado pá! Já estava montado isso há muito tempo

PC – Não, digo se vai ter domingo.

PC – Ah, para domingo vamos ver.

PC – Pode ser que o fodam na Figueira. Que ele tenha lá uma surpresa.

Pinto da Costa e Pinto de Sousa comentam as incidências de um jogo Boavista-Guimarães arbitrado por Paulo Baptista. Depois, o presidente dos azuis-e--brancos pede a Pinto de Sousa para falar com Luís Guilherme, de forma a combinarem as nomeações da jornada seguinte.

[...]

PC – Agora, tudo isto nasce de uma má nomeação do imbecil...

PS – É, sem dúvida!

PC – Olha, não te esqueças mas é de comunicar ao gajo, para ele não queimar nenhum [...] Devias pedir por escrito, para ficar.

PS – É, vou-lhe mandar por escrito. Vou-lhe telefonar e dizer [...] vou-lhe mandar por escrito, os jogos.

PC – Os jogos, esses quatro vão fazer esses jogos! Diz mesmo, esses jogos!

PS – Digo.

PC – É, assim ele já não tem desculpa.

Pinto de Sousa, responsável pela arbitragem na Liga, pergunta a Pinto da Costa se ele aceita Jacinto Paixão para arbitrar um jogo da Taça. Antes disso, Pinto da Costa diz a Pinto de Sousa que deve alterar a classificação de um árbitro.

Pinto da Costa (PC) – Estou.

Pinto de Sousa (PS) – Estou, Zé!

PC – Já rectificaste a nota do homem?

PS – Eh, eh, eh!!!!! É pá, deixa lá o rapazinho em paz, coitadinho!

PC – Ah???

PS – 8... 8,4

PC – É uma boa nota!

PS – É uma boa nota!

PC – Pois foi, mas o observador tem de ser reclassificado!

PS – Olha, estou-te a telefonar pelo seguinte. Estou a pensar nomear o Jacinto Paixão para o Porto-Felgueiras. Não há inconveniente nenhum?

PC – Ah!

PS – Jacinto Paixão... Porto-Felgueiras! Não é nada de especial.

PC – Se entretanto ele não for nomeado para outro jogo [...] nomeado para a casa Pia!

PS – Eh, eh, eh!

PC – Mas não é de muito longe? [...]

PS – Não, coitado, precisa de fazer um joguito e como ainda fez poucos.

PC – Por mim, pode.

Poucas horas depois, Pinto de Sousa volta a telefonar a Pinto da Costa. Afinal, Jacinto Paixão não pode ser nomeado porque vai apitar um jogo do Estoril.

Pinto de Sousa (PS) – Olha, afinal, o Jacinto Paixão vai fazer agora o Estoril, no próximo dia 4 de Janeiro, eu não tinha reparado [...] De maneira que olha, como não é um jogo importante ia o Paulo Pereira, de Viana do Castelo.

Pinto da Costa (PC) – É fraquinho!

PS – É. Mas o jogo também não tem interesse nenhum...

PC – Sim, mas porque é que não pões um gajo do Porto?

PS – Pá, porque o Jorge Sousa vai fazer o Estoril--Setúbal [...] O Paulo Costa e o Paulo Paraty não os nomeei já porque fizeram um jogo a semana passada. E o Martins dos Santos não se justificava para este jogo [...] e em segundo lugar vai fazer um jogo importante.

PC – Qual é o jogo?

PS – Tal

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