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Bactéria mata 8 doentes

Uma bactéria associada à administração de antibióticos já levou oito pessoas à morte e infectou, pelo menos, 31 doentes no Hospital de Faro desde o início do ano. As vítimas têm mais de 65 anos. Apesar de ter alertado a Direcção-Geral da Saúde, o hospital não informou os utentes sobre a presença da bactéria na unidade.
9 de Maio de 2009 às 02:00
Hospital de Faro não avisou os utentes sobre a infecção detectada em Janeiro
Hospital de Faro não avisou os utentes sobre a infecção detectada em Janeiro

O hospital confirma a existência de oito mortes, garantindo que 'não há uma relação directa com a infecção'. Mas o CM sabe que nas últimas semanas se registou mais uma vítima mortal. Em todos estes casos está provada a presença da bactéria Clostridium difficile, que provoca fortes diarreias devido à destruição da flora intestinal do organismo humano e leva a uma forte debilitação do doente.

A infecção foi inicialmente detectada no Serviço de Urgências do hospital. Mais tarde registaram-se outros casos em vários serviços, nomeadamente na Medicina Interna, obrigando a recomendações de reforço das medidas de controlo de infecção pela Autoridade Nacional de Saúde Pública.

'Foi aconselhada uma maior atenção na lavagem das superfícies, equipamentos e mãos e, se necessário, o isolamento dos doentes infectados', explicou ao CM Francisco Mendonça, delegado regional de Saúde. Foi ainda recomendada a 'utilização criteriosa do uso de antibióticos', uma vez que a infecção ganha força quando as bactérias ‘saudáveis’ ficam sem capacidade para combater o vírus devido à presença de um antibiótico.

Questionada ontem pelo CM, a ministra da Saúde desdramatizou a situação, referindo que 'a infecção faz parte do leque de bactérias que é costume detectar nas rotinas dos hospitais em todo o Mundo'. Ana Jorge garante que 'não há, para já, caso para alarme'.

A Administração do Hospital de Faro esclareceu que 'todos os casos de doentes suspeitos ou diagnosticados são sujeitos às medidas preconizadas para este tipo de situações'. O cumprimento das recomendações da Autoridade Nacional de Saúde está a ser 'assegurado pelas chefias dos serviços'.

O hospital suspeita que 'a principal porta de entrada é o Serviço de Urgência', e em alguns dos casos registados a infecção terá sido 'adquirida fora do hospital'.

Neste momento estão a ser seguidas criteriosamente as indicações do Programa Nacional de Controlo de Infecções da Direcção Geral da Saúde.

'NÃO HÁ RAZÕES PARA ENCERRAR SERVIÇOS'

A Administração do Hospital de Faro assegura que 'não há razões para encerrar serviços', como já aconteceu com outras infecções violentas que ‘atacaram’ no passado a unidade de saúde. Apesar de admitir que os casos foram detectados em vários serviços, Ana Paula Gonçalves garantiu ao CM que 'está a ser feita uma vigilância rigoso aos doentes' através de equipas da Comissão de Controlo de Infecção, que integra profissionais de saúde que desenvolvem acções diárias de prevenção, controlo e monitorização.

'CONTROLO NOS ANTIBIÓTICOS': Meliço Silvestre, Epidemiologista

Correio da Manhã – Esta bactéria pode ser perigosa? De que maneira se desenvolve o risco para o doente?

Meliço Silvestre – Pode ser muito preocupante e causar patologias graves se a terapêutica com os antibióticos não for muito bem controlada.

– O que pode suceder?

– Se houver uma terapêutica muito intensa com antibióticos, é preciso que seja bem controlada, porque o doente pode desenvolver um quadro de septicemia [infecção generalizada], causar insuficiência renal, e pode ser fatal.

– O que deverá ser feito para prevenir a situação?

– Os hospitais têm comissões de infecção, e o recomendado é a higiene hospitalar, desinfectar as mãos e a unidade de saúde.

LABORATÓRIO DE ALTO NÍVEL

O novo Laboratório Regional de Saúde Pública do Algarve 'é um dos quatro de alta segurança a nível nacional' que estão equipados para fazer diagnósticos em caso de infecções como a Clostridium difficile ou a gripe A. Segundo Álvaro Beleza, responsável do equipamento inaugurado ontem pela ministra da Saúde, 'o laboratório está ainda a ser preparado para trabalhar com os vírus do Nilo ou da dengue'.

A BACTÉRIA

A Clostridium difficile é uma bactéria presente na flora intestinal de cerca de 3% dos adultos e 66% das crianças. As infecções, com diarreias e febre, ocorrem aquando da toma incorrecta de um antibiótico.

PERDA DE CONTROLO

A infecção ocorre quando as bactérias ‘saudáveis’ (boas) deixam de controlar a Clostridium difficile devido à presença de um antibiótico.

CONTAMINAÇÃO

A bactéria, presente no exterior do organismo através de diarreia, pode infectar outras pessoas ao entrar no organismo pela boca após circular no ar.

PORMENORES

ALGARVE AUTÓNOMO

O novo Laboratório de Saúde Pública do Algarve vai ter 'autonomia total em todas as áreas', sejam análises ao sangue, água ou alimentos.

FUNCIONAM HÁ UM ANO

Os novos serviços laboratoriais já estão a funcionar há um ano mas só agora inaugurados.

500 ANÁLISES DIÁRIAS

O laboratório vai ter capacidade para fazer 500 análises diárias, passando a armazenar todo o sangue doado na região.

NOTAS

POMBAL: SEIS IDOSOS MORRERAM

Seis idosos morreram, de um grupo de 11 contaminados por bactérias multi-resistentes, no Hospital de Pombal, em Fevereiro de 2004. A infecção mortal ocorreu entre doentes pulmonares

PORTALEGRE: FUNGO INFECTOU 20

Em Março de 2004, 20 funcionários do Hospital de Portalegre foram infectados por um fungo na sequência de uma operação. Sofreram dores musculares, inchaços e febre

CEM MIL: VÍTIMAS DE BACTÉRIAS

Cem mil pessoas são contaminadas por ano nos hospitais portugueses, valor que representa 10% dos doentes internados. Escherichia coli é o fungo responsável da maioria das infecções

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