Barão vermelho com empresa falida

Alexandre Alves, mais conhecido como ‘barão vermelho’, ex- ‘patrão’ da FNAC - Ar Condicionado, é actualmente alvo de um nebuloso processo judicial relacionado com a empresa imobiliária da qual foi um dos gerentes. A CapitalInvest foi declarada insolvente pelo Tribunal de Comércio de Lisboa.
26.03.06
  • partilhe
  • 0
  • +
Barão vermelho com empresa falida
Alexandre Alves era sócio-gerente da CapitalInvest, empresa que acumulou dívidas com o Fundo de Investimento Foto José Carlos Campos
O caso está relacionado com o não pagamento de uma dívida de sete milhões de euros, que a empresa de Alexandre Alves se comprometeu a pagar a um fundo do Grupo Espírito Santo.
A história remonta ao ano de 2001 quando o Fundo de Investimento Imobiliário Gespatrimónio Rendimento cedeu à CapitalInvest o direito de utilização e exploração de um conjunto de imobiliário, tornado, posteriormente, no famoso ‘Leiria Retail Park’.
Esta cedência custaria a Alexandre Alves e a Irene de Conceição de Brito – sua sócia e também ela envolvida no processo – mais de 161 mil euros mensais, acrescidos de IVA de acordo com a taxa legal em vigor. O contrato estipulava, também, a actualização anual deste valor.
Todavia, segundo o que o CM conseguiu apurar, a CapitalInvest só pagou o primeiro ano. Isso não inibiu os seus gerentes de usufruírem do empreendimento comercial, para além de receberem as rendas dos lojistas do Retail.
Após continuadas promessas, que se verificaram nulas, o grupo credor, em Junho de 2005, requereu ao Tribunal de Comércio de Lisboa a declaração de insolvência da CapitalInvest. No total, a empresa imobiliária deve mais de sete milhões de euros.
A par deste incumprimento, a CapitalInvest era detentora de três propriedades, todas vendidas em 2004. Uma delas, o ‘Retail Park Aveiro’, foi vendida a uma empresa designada por ‘Largebuild - Utilidades, Equipamentos e Investimentos Imobiliários’. Ao fim de um ano, a mesma propriedade foi vendida, desta vez à ‘Bacturve - Compra e Venda de Imóveis para Revenda’. Ambas as empresas foram representadas por Irene de Brito, que, num ano, realizou a mais-valia de 26, 4 milhões de euros.
Em outros dois casos, repetiram-se episódios semelhantes. Alexandre Alves e Irene de Brito foram, simultaneamente, representantes da empresa vendedora e gerentes das compradoras, num prédio em Lisboa e outro na Moita.
Actualmente com um administrador judicial provisório, a CapitalInvest pediu recurso, a 24 de Fevereiro deste ano, da decisão de insolvência do Tribunal de Comércio de Lisboa. A 22 de Maio realizar-se-á uma reunião na assembleia, no mesmo Tribunal, a fim de dar continuidade ao processo.
PERFIL
João José Alexandre Alves ficou conhecido pelos portugueses pelo seu cargo na direcção da então cooperativa FNAC (Fábrica Nacional de Ar Condicionado). A famosa fábrica de equipamentos de ar condicionado foi alvo de um polémico processo de falência. Mas antes desse processo ganhou protagonismo na sociedade portuguesa.
Candidato à presidência do Benfica, o ‘barão vermelho’, como ficou conhecido devido à sua simpatia política pelo PCP nos anos 80, também investiu na comunicação social, lançando o diário ‘Europeu’.
Após a falência da FNAC passou por uma fase discreta e regressou posteriormente com os investimentos imobiliários. Apesar do processo da CapitalInvest, Alexandre Alves continua a anunciar megaprojectos imobiliários no País e no estrangeiro.
EMPRESÁRIO DIZ QUE TEM PROJECTOS DE 1300 MILHÕES
Alexandre Alves afirmou, em recente entrevista ao CM, que tem em desenvolvimento projectos em Portugal, Espanha e França. O antigo patrão da FNAC, que chegou a ser candidato à presidência do Benfica, garantiu que estão em causa investimentos de 1300 milhões de euros.
Para além da construção de seis ‘retail parks’, existem projectos para o Complexo Desportivo de Portimão, Parques das Cidades (nos municípios de Faro e Loulé) e Oeiras.
De acordo com Alexandre Alves, a estratégia passa por construir os equipamentos e mantê-los a funcionar durante aquilo a que chama de “período de maturação”, que normalmente vai de “um a três anos”.
“Depois vendemo-los e avançamos para a concretização de outros projectos”, explicou o empresário, adiantando que tudo funciona numa base de rotação. No âmbito desta estratégia, disse que foi vendido o ‘retail’ de Leiria e o mesmo irá acontecer dentro em breve com o de Aveiro. Mas, entretanto, vai abrir o de Portimão e está em construção o de Santarém.
Alexandre Alves referiu que o grupo CapitalInveste está ser financiado “por bancos holandeses”. E adiantou que, no futuro, é sua intenção trabalhar com “fundos de investimento ingleses”.
TOMÁS TAVEIRA
Alexandre Alves revelou que o arquitecto Tomás Taveira está por detrás de dois dos seus projectos, em Oeiras e Portimão. Na Grande Lisboa pretende desenvolver um complexo de hotelaria (dois hotéis, de 3 e 4 estrelas), comércio, escritórios e cinemas (29 salas).
“O estudo prévio já foi entregue à Câmara”, afirmou, dizendo que se trata de “um investimento muito grande”, sem adiantar números. O empresário explicou que “Oeiras é a região do País com maior concentração de grandes empresas, mas a nível de hotelaria está mal servida”.
Quanto a Portimão, o empresário, através da empresa Cerca do Colégio, é um dos três concorrentes (os outros são o Grupo Lena e o consórcio Aplicação Urbana XXI, do grupo Amorim) à construção do complexo desportivo.
Segundo revelou ao CM, o projecto contempla um estádio, campos de treino, três piscinas (uma olímpica), um pavilhão multiusos, um anfiteatro ao ar livre, pista de manutenção, um ‘retail’, uma central fotovoltaica, um ‘shopping’ e vivendas. O investimento pode atingir os 130 milhões.
NOTAS
O INÍCIO EM LEIRIA
Em 2001, a CapitalInvest iniciou a exploração do Leiria Retail Park, a um custo mensal de 161 689 euros, mais IVA. A empresa viu-se em Tribunal ao fim de mais de dois anos sem pagar ao seu credor, continuando, contudo, a receber as rendas dos lojistas do Retail.
O CASO EM AVEIRO
À semelhança do que aconteceu em Leiria, o Retail Park Aveiro também foi investigado. Alexandre Alves e Irene de Brito venderam, em 2004, o imóvel à Largebuild, por 350 mil euros. No ano seguinte, o Retail foi vendido à Bacturve por 26 800 milhões de euros, alegando construção vertiginosa.
O EDIFÍCIO NA MOITA
A CapitalInvest vendeu, ainda, dois prédios que tinha ao seu dispor, em 2004. Um deles, na Moita, foi vendido por 5 mil euros à Maindoor - Utilidades, Equipamentos e Investimento Imobiliário, também ele gerido pelos dois sócios da CapitalInvest. A venda foi celebrada dias antes da emissão da certidão da penhora do imóvel.
O EDIFÍCIO EM LISBOA
O outro prédio, em Lisboa, foi vendido no mesmo ano, à mesma empresa, desta vez pela quantia de 130 mil euros. Mais uma vez, foi ignorado o registo de penhora, afirmando que não havia nenhuns encargos. Estas vendas foram consideradas pelo Tribunal como liquidação danosa dos bens da empresa imobiliária.
VALORES EM DÍVIDA
Em 2001, a empresa pagou 161 mil euros ao Grupo Espírito Santo, único ano em que cumpriu o contrato. Em 2002, esse valor sofreu um aumento, de acordo com o contrato, até aos 168 mil euros e 174 milhões no ano seguinte. Acrescidos de juros e IVA totalizam os sete milhões em dívida.
A ADMINISTRADORA
Maria Teresa Revês é, actualmente, a administradora judicial provisória da CapitalInvest, substituindo os cargos de Alexandre Alves e de Irene de Brito. O primeiro foi destituído em Novembro de 2004 e Irene de Brito renunciou ao cargo no dia seguinte.
COMUNICAÇÃO SOCIAL
Alexandre Alves garantiu que quer criar um grupo de Comunicação Social no Algarve: dois semanários, um diário, uma revista de golfe, uma rádio e uma televisão.
'RETAIL PARK' DE PORTIMÃO
O empresário está por detrás do polémico ‘Retail Park’ de Portimão. O empreendimento está praticamente construído, decorrendo a instalação de empresas.
PARQUE DAS CIDADES
O Parque das Cidades, no Algarve, está na mira de Alexandre Alves. A ideia é construir um ‘retail park’, um ‘business park’, um pólo tecnológico e equipamentos de hipismo.
OUTROS PROJECTOS
O empresário disse que o ‘retail’ de Santarém irá abrir este ano, projectando um outro em Viseu. Quer ainda avançar para Espanha (Mérida e Huelva) e França (Paris).

pub

pub

Ver todos os comentários
Para comentar tem de ser utilizador registado, se já é faça
Caso ainda não o seja, clique no link e registe-se em 30 segundos. Participe, a sua opinião é importante!