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Correio da Manhã

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Bases criminosas no País

Máfias de Leste associam-se a africanos do Magrebe e do Sul do Sara e a brasileiros. Organização faz-se nas cadeias.
17 de Janeiro de 2010 às 00:30
Além de invadirem residências, roubarem obras de arte, armas e traficarem droga em associação com grupos de outros continentes, as máfias de Leste em Portugal poderão estar a transportar explosivos.
Além de invadirem residências, roubarem obras de arte, armas e traficarem droga em associação com grupos de outros continentes, as máfias de Leste em Portugal poderão estar a transportar explosivos. FOTO: Carlos Barroso

As prisões portuguesas tornaram-se uma das principais fontes para criação de redes sociais de máfias de Leste. São grupos criminosos, altamente organizados, que nos últimos meses têm vindo a gerar o pânico, com a intrusão violenta, incluindo violação de vítimas idosas, em residências no interior e litoral do Algarve, mas também na zona do Oeste e no Norte do País.

Os laços gerados nas cadeias por estes mafiosos com organizações criminosas africanas e brasileiras já estão confirmados, através da recolha de muitas perícias efectuadas, por exemplo, em carros apreendidos pelas polícias, bem como em armas, telemóveis e outros objectos que estão nas mãos dos investigadores.

Os veículos, por exemplo, muitos dos quais de alta cilindrada, que são usados pelos grupos para a prática de crimes, são analisados minuciosamente por meios tecnológicos e laboratoriais. A colaboração com polícias internacionais tem igualmente facilitado o trabalho de polícias e magistrados portugueses.

O CM apurou que alguns dos indivíduos já detidos ou identificados eram ainda há pouco menos de uma década soldados rasos de megamáfias da Europa de Leste, com base em e fora de Portugal. Exemplo disso é um grupo encabeçado pelo moldavo Flocea, mais conhecido por ‘Borman’. Os investigadores depararam-se com indivíduos já condenados em Portugal noutros processos. Dos 21 detidos no processo ‘Borman’, em 2002, apenas três estavam ainda a cumprir pena em 2006.

As investigações complicam-se porque diversos mafiosos criaram laços, mais ou menos duradouros, com grupos de outros países, nomeadamente do Magrebe, África Subsariana e Brasil. São encontrados carros, em vários pontos de Portugal e da Europa, especialmente Espanha, furtados com mais ou menos violência, com matrículas verdadeiras ou falsificadas, incluindo portuguesas, para acções de homejacking, transporte de droga, pessoas, armas e obras de arte. Cada grupo poderá ter a sua ‘especialidade’, mas os automóveis não deixam dúvidas: há vestígios de indivíduos de várias nacionalidades que confirmam que é um facto o seu envolvimento em vários tipos de crimes de natureza violenta.

AUTORIDADES PREOCUPADAS

É pública a crescente preocupação das autoridades portuguesas quanto à proliferação do crime organizado que vem de Leste. Mas os passos dados ainda são muito tímidos, afirmam ao CM fontes judiciárias: "A troca de informações entre as polícias europeias evoluiu, mas os investigadores continuam a confrontar-se com barreiras intransponíveis." Os maiores passos continuam porém a ser dados com base nos contactos pessoais, apesar da maior regularidade na troca de informação, quer em encontros informais quer nas reuniões e seminários formais, que se realizam entre os 27, designadamente ao nível dos membros da Europol.

A agência europeia policial, responsável pela troca de informação sobre crime organizado transnacional e terrorismo, está sediadaem Haia.

CHANTAGEM SOBRE OS SEUS CONCIDADÃOS

São pequenos grupos de jovens, com idades entre os 20 e os 35, altamente motivados, frios, com treino físico, molestando geralmente as suas vítimas, principalmente idosas. Sujeitam-nas inclusive a violações particularmente violentas, actos a que se poderia chamar de síndrome de ‘laranja mecânica’. Entram e saem de Portugal sem quaisquer problemas, mantendo alguns laços, embora raros, com familiares no nosso país.

Exercem com frequência extorsão e ameaças sobre concidadãos ou familiares destes nos países de origem ou em comunidades sediadas na Europa Central para assim obterem meios logísticos ou apenas para um ‘retiro’ temporário.

OUTROS CASOS

PORTO

Há um ano, a família de Domingos Paciência, treinador do Braga, esteve sequestrada várias horas por dois brasileiros, durante um assalto. A PJ deteve-os semanas depois.

ÓBIDOS

No Verão do ano passado, duas famílias foram assaltadas e agredidas com violência dentro de casa, no Bom Sucesso, em Óbidos. Os ladrões levaram milhares de euros em ouro e jóias.

ALGARVE I

Em Dezembro, um casal idoso suíço foi atacado por três homens na zona do Sobradinho, em Loulé. Brutalmente agredidos, os idosos ficaram sem telemóveis, computadores e televisões.

ALGARVE II

A 22 de Setembro, os britânicosRobert Pickles ea mulher, Frieda,foram algemados, sequestrados e agredidos por um violento grupo que lhes invadiu a casa pela janela.

ALGARVE III

Um holandês foi assaltadoà mão armada a 17 de Maio do ano passado quando chegavaà moradia onde estava alojado, no luxuoso Clube do Ancão, em Almancil, concelho de Loulé.

ALGARVE IV

Um padre holandês de 67 anosfoi atacado em casa enquanto dormia, também em Dezembro, em Albufeira. Três homens levaram três telemóveis e anéis num valor total de 1100 euros.

ESCONDEM-SE EM QUINTAS

As polícias portuguesas detectaram há poucos dias uma das bases mais importantes das novas máfias de Leste na região de Vila Franca de Xira, a poucos quilómetros de Lisboa. Esta descoberta veio juntar-se a desconfianças e elementos concretos, mais antigos, que já apontavam para a existência de vários locais, nomeadamente quintas no Norte, Centro, Alentejo e Sul, mais ou menos móveis, onde pequenos grupos criminosos, altamente organizados e violentos, planeiam operações dentro e fora do País, ou simplesmente aproveitam para temporariamente fugir dos olhos das polícias.

Responsáveis europeus têm apontado o crescente trânsito destas associações criminosas como resultado das políticas de imigração do primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconni, cujo resultado tem sido empurrar muitos operacionais do crime transnacional para países como Alemanha, Espanha, Áustria e França. Portugal não escapa a este fenómeno.

Apesar de Portugal ser um dos países mais fustigados pela crise económica na Europa, uma maior e mais antiga percepção desta realidade, por parte de outras polícias europeias, tem empurrado estes grupos para o nosso país. As recorrentes reformas penais, o desordenamento territorial e a corrupção contribuem para criar nestas máfias um sentimento de impunidade.

NOTAS

CADEIAS: LOCAIS DE CONTACTO

Detidos no âmbito de megaprocessos de extorsão, tráfico de pessoas e armas, no princípiode 2000, antigos operacionais de base de máfias de Leste formam novas redes criminosas

BASES: PORTUGAL É SEGURO

A Europa Central continua a ser um dos maiores mercados para práticas criminosas. Mas em Portugal as novas máfias de Leste encontram ainda maior impunidade

HOMEJACKING: CASOS OCULTOS

São já mais de uma dezena os casos de violentas intrusões, com arma de fogo ou armas brancas. Os números não são conhecidos para não provocar alarme social

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