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Pandora O poder não se mostra. Usa-se.

Cadilhe faz queixa de 50 milhões malparados

Óscar Silva, o homem de confiança de Oliveira e Costa no Porto, vai ter mesmo de prestar contas à Justiça. É que Miguel Cadilhe, antes da abandonar o BPN, entendeu que era tempo de obrigar o fundador e administrador da financeira BPN Créditus a explicar um buraco financeiro de 50 milhões na sequência de empréstimos para a compra de terrenos e viaturas de luxo que nunca existiram de facto.

07 de janeiro de 2009 às 22:00

O ex-quadro do BPN, que também geriu a Real Seguros e a BPN Seguros, está em Espanha, como director-geral da LGP/Logicomer, uma empresa de gestão e recuperação de créditos. A Logicomer também actua no nosso país, onde se assume como a "maior empresa de recuperação de créditos em Portugal". Sabedor da queixa-crime que contra si foi accionada, Óscar Silva tentou há algumas semanas uma abordagem a quadros do BPN, alegadamente para tentar evitar que o caso chegasse à Justiça, mas os esforços não terão sido bem-sucedidos.

Recorde-se que o buraco financeiro no Porto, na ordem dos 50 milhões, foi confirmado após uma auditoria do BPN, que detectou a existência de centenas de "contratos atípicos". Mas não era só para os amigos que Óscar Silva era um mãos-largas a atribuir empréstimos para terrenos ou carros fictícios. Também concedeu a si mesmo um empréstimo de 613 mil euros para comprar uma casa na Foz que pôs em nome de uma empresa imobiliária que criou. E chegou mesmo ao desplante de transferir para uma sua empresa um apartamento que um credor do banco entregou para pagar uma dívida.

Demitido em 2001 de todos os cargos, Óscar Silva celebrou em Abril de 2003 um acordo com o BPN, para evitar perseguição criminal, comprometendo-se a compensar o banco pelos milhões em falta. Entregou alguns bens e participações, incluindo uma valiosa colecção de arte, mas nunca chegou a cumprir com a maior parte do que acordou. Apesar disso, Oliveira e Costa não avançou com qualquer queixa. Em vez disso, enviou para o Porto o genro, João Abrantes. A administração que lhe sucedeu, liderada por Abdool Vakil, também não consumou qualquer denúncia, apesar de ter recolhido e compilado os elementos que alegadamente indiciam Óscar Silva como o mentor da fraude nortenha. E foi Miguel Cadilhe, que ao deparar com este dossiê e, perante a dimensão e gravidade do caso, resolveu mesmo levá-lo aos tribunais.

"O dr. Cadilhe concretizou a queixa, mas todo o processo fora já constituído pela administração anterior e estava praticamente pronto", disse ao CM fonte próxima do ex-administrador do BPN.

QUICANGA FAZIA COBRANÇAS DIFÍCEIS

António Quicanga, ex-boxer do Boavista e arguido em diversos processos por casos de violência, designadamente tentativas de homicídio, era o homem de confiança de Óscar Silva. Durante muito tempo, aquele foi, para além de seu braço-direito e seu segurança pessoal, funcionário da BPN Créditus, com "estatuto especial". Auferia ordenado fixo, pertencia à estrutura do banco, mas não tinha horário nem ordem de trabalho. Era sim o ‘cobrador’, o indivíduo que conseguia que os pagamentos mais difíceis se concretizassem, com recurso aos meios que fossem necessários.

António Quicanga, angolano, é uma personagem conhecida no mundo da noite portuense. Ligado a ginásios e claramente conotado com uma das facções do controlo da noite, sempre circulou com grande impunidade. Em 2005, foi preso por tentativa de homicídio, mas foi libertado a dias da leitura da sentença, por não se ter feito a apresentação de prova. O procurador do julgamento ainda protestou. "Assim é impossível fazer justiça", disse, depois de dezenas de testemunhas darem o dito por não dito e todas terem em comum uma grande dose de esquecimento.

Um dos momentos mais com-plicados para Óscar Silva ocorreu quando Quicanga se envolveu aos tiros com os seguranças da discoteca Penthouse, de que Óscar Silva era também proprietário, embora através de empresas offshore por si constituídas.

Esta amizade com o angolano veio, no entanto, a mudar radicalmente de sentido, mercê das rivalidades entre grupos que lutam pelo domínio do mercado da segurança nos locais de diversão nocturna portuense.

Óscar Silva chegou inclusivamente, a apresentar duas queixas na Polícia Judiciária do Porto contra Quicanga, acusando-o de tentativas de extorsão.

ESCOLHA PESSOAL DE OLIVEIRA E COSTA

Óscar Silva, economista, é o director-geral da Logicomer, uma empresa de recuperação de créditos com sede em Espanha, mas também com delegações em Portugal. Continua, todavia, a manter interesses em casas de diversão nocturna. Considerado uma "mente brilhante", Óscar Silva foi director administrativo e financeiro no Grupo Amorim, controler financeiro do Grupo Jorge Mello, administrador-delegado do banco Credifin e da Cofinoga Portugal SGPS.

Após os bons serviços à frente da Credifin no Porto, foi convidado a formar a Créditus em 1998. Em 2000, foi considerado o ‘funcionário do ano’, ao apresentar resultados extraordinários. Para o premiar, Oliveira Costa entregou-lhe a BPN Seguros e a Real. Em 2001, caiu em desgraça e foi demitido.

GENRO DE EX-PRESIDENTE FOI NOMEADO

Após a demissão de Óscar Silva e dos outros dois administradores da BPN Créditus, Oliveira e Costa enviou para o Porto o genro, João Abrantes, numa lógica familiar que lhe era característica. O filho José Augusto, por exemplo, também esteve à frente do BPN, tal como a filha que assumiu lugares cimeiros.

A liderança de João Abrantes, todavia, foi inócua, contrastando com a dinâmica e brilhantismo profissional que a Óscar Silva nunca foi negado. Uma das primeiras iniciativas do genro de Oliveira e Costa foi comprar por tuta-e-meia um Porsche recuperado por um crédito malparado .

PORMENORES

JACTO PRIVADO

Óscar Silva, o economista que Oliveira e Costa foi buscar à Credifin para fundar no Porto, em 1998, a BPN- Créditus, esteve em Inglaterra com alguns amigos a assistir a uma prova de automobilismo, viajando no jacto privado do BPN. Para animar a viagem fez-se uma escala num país do Leste para recolher prostitutas.

VÁRIAS IRREGULARIDADES

Foram várias as irregularidades detectadas até 2001 – altura em que o economista Óscar Silva foi obrigado a demitir-se e a celebrar um acordo comprometendo-se a devolver parte do dinheiro desviado. A auditoria detectou um buraco de 50 milhões de euros.

CASA DE ALTERNE

Óscar Silva, inebriado com os lucros fáceis que lhe permitiam fazer fortuna pessoal, reunia os parceiros da administração da BPN-Créditus em casas de alterne portuenses, em memoráveis noitadas que animaram boîtes como o Calor da Noite ou a Taverna do Infante, à época propriedade do seu amigo Reinaldo Teles. O irmão do ‘vice’ portista foi um dos empresários que teve conta na BPN Créditus.

NOTAS

ENTIDADES RECUSAM PEDIDO DA COMISSÃO

O Banco de Portugal e o Banco Português de Negócios, entre outras entidades, recusaram-se a enviar documentação pedida pela Comissão Parlamentar de Inquérito à nacionalização do BPN.

DOCUMENTAÇÃO INCLUI ACTAS DA REUNIÃO

Os deputados solicitavam, entre outra documentação, as actas do conselho de administração do Banco de Portugal, que referem as práticas financeiras do BPN e da Sociedade Lusa de Negócios.

PEDIDOS TODOS OS RELATÓRIOS DE AUDITORIA

Ao BPN, os deputados tinham solicitado todos os relatórios de auditoria existentes, já incluindo os do ano 2008, realizados pela Deloitte e pela Mazars, bem como a indicação das datas das reuniões.

DEPUTADOS VOLTAM A FAZER NOVO PEDIDO

A alegação de sigilo profissional não convenceu os deputados, que aprovaram ontem, por unanimidade, a decisão de enviar um novo ofício às entidades que se recusaram a enviar a informação

SAIBA MAIS

ACORDO DE CAVALHEIROS

Óscar Silva saiu do BPN em 2001, com um acordo extrajudicial.

1998

Foi o ano em que Oliveira e Costa chamou Óscar Silva para a BPN Créditus.

50

Milhões é o montante estimado do buraco da BPN Créditus.

CRÉDITOS FICTÍCIOS

A administração detectou dezenas de empréstimos fictícios.

 

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