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Cai a farinha e sobe o pão

"Não há margem para, nos próximos dois anos, pensarmos em qualquer descida do preço do pão. Aliás, é necessário proceder em breve a nova actualização." As palavras são de Carlos Alberto Santos, o presidente da Associação Comercial e Industrial de Panificação do Centro, para quem "a carcaça vendida a menos de 15 cêntimos dá prejuízo a quem a fabrica".

26 de Outubro de 2008 às 22:00
O pão deve sofrer novo aumento em Janeiro de 2009
O pão deve sofrer novo aumento em Janeiro de 2009 FOTO: Tiago Sousa Dias

Confrontado com uma notória descida de mais de dez por cento no preço da farinha (passou, segundo os revendedores, de 42 cêntimos o quilo, em Janeiro, para 36 agora), Carlos Alberto Santos disse que 'esta pequena quebra não pode fazer esquecer o brutal aumento que se verificou no ano passado, de mais de cem por cento, com o qual a farinha passou dos 20 para os 42 cêntimos'.

'Nessa altura, o pão registou uma subida média inferior a dez por cento e os industriais tiveram de arcar com a duplicação do preço da farinha e, não se pode esquecer, com toda a escalada de preços dos combustíveis que, desde finais de 2006, se vem registando', disse esteresponsável, também ele industrial do sector. De resto, a ideia de que o pão terá de sofrer novo aumento em Janeiro colhe a unanimidade dos industriais, de Norte a Sul do País.

António Miradouro, presidente da Associação dos Industriais de Panificação do Alto Alentejo, disse ao CM que 'a situação das panificadoras está extremamente difícil', sublinhando que 'o dinheiro que se faz nesta altura só dá mesmo para ver se não conseguimos fechar as portas de vez e mandar as pessoas para o desemprego'.

No Norte do País, a situação é ainda mais complexa. É que no Centro e no Sul o preço da carcaça oscila entre os 13 e os 15 cêntimos e no Norte a variação é entre os oito e os 13 cêntimos.

'Trata-se de uma região com uma concorrência muito mais agressiva, onde há muitos pequenos industriais e onde quase toda a gente aposta na venda porta a porta, o que impede uma natural e necessária actualização dos preços', disse ao CM o industrial Luís Borges, dono da Panibral, uma das maiores empresas de panificação do Minho.

Para este empresário, seria 'uma atitude suicida' avançar pelo caminho da diminuição dos preços, referindo que 'foi exagerado o aumento dos encargos nos últimos anos'. 

PADARIAS FAMILIARES PODEM MATAR AS GRANDES INDÚSTRIAS

As pequenas padarias de cariz familiar estão a causar grandes problemas às indústrias tradicionais de panificação. Fonte da Associação dos Industriais de Panificação do Norte (AIPAN) disse ao CM que, 'nestas pequenas unidades, por norma, trabalham pais e filhos ou, às vezes, dois casais, com descontos mínimos, quer de IRS quer para a Segurança Social, o que lhes permite apresentar preços que as empresas maiores, com funcionários e todos os encargos que isso implica, não têm hipótese de combater'.

Para além disso, as empresas com uma dimensão mais alargada têm de ter engenheiro alimentar ou medicina no trabalho, aspectos que as empresas familiares acabam por conseguir contornar. É por isso que o pão é mais barato no Norte.

CONSUMO ESTÁ A CAIR 20 POR CENTO

Comprar oito pães em vez de doze representa uma poupança mensal de cerca de 18 euros. Parece pouco, mas é o que está a fazer boa parte das famílias portuguesas. Os industriais dizem que o consumo está a cair 20 por cento ao ano. Segundo as associações do sector, as pessoas cortam em bens essenciais, como o pão, porque há outros encargos, como empréstimos à habitação, a que não podem fugir.

GOVERNO PROMETE VIGILÂNCIA

O ministro da Agricultura, Desenvolvimento Rural e das Pescas, Jaime Silva, diz que o Governo está vigilante e a acompanhar a evolução dos preços do leite, pão e farinha, produtos em que os custos dos cereais têm um peso fundamental.

'Temos de estar atentos. Tanto o Ministério da Agricultura como a Autoridade da Concorrência estão a acompanhar os preços, particularmente do leite, pão e farinha, que estão muito dependentes do mercado dos cereais', explicou o governante.

Mas Jaime Silva foi mais longe e considerou que, atendendo às quebras que se têm registado nos preços da farinha, não há razões para que se verifique, a curto prazo, aumentos dos preços do pão.

'Depois da escalada de preço dos últimos tempos, registou-se agora uma grande redução do preço da farinha, tendo a tonelada passado de 235 para os 160 euros', afirmou Jaime Silva.

De resto, o ministro adiantou que acompanhar a situação significa verificar com regularidade se há ou não concertação dos preços por parte dos industriais e dos revendedores de pão.

'Devo realçar que a Autoridade da Concorrência verificou, num inquérito realizado há cerca de dois anos, que não pode, de todo, dizer--se que haja, nesta matéria, concertação de preços em Portugal', disse Jaime Silva, prometendo 'vigilância apertada' ao sector.

'ESSES PREÇOS NÃO EXISTEM'

Os industriais de panificação dizem que os preços de que fala o ministro da Agricultura, em relação à farinha, não existem. 'Toda a farinha que o senhor ministro tiver a 160 euros, ou até a 235, eu compro', disse Carlos Alberto Santos, da Associação dos Industriais do Centro, esclarecendo que, 'nesta altura, a farinha está a ser comprada a 360 a 380 euros a tonelada'. Refira-se que estes são também os valores referidos pelos revendedores consultados pelo CM. Carlos Santos diz ainda lamentar que o governante 'não tenha vindo falar quando a farinha subiu para o dobro, em 2007'.

OUTROS DADOS

EMPRESAS FECHADAS

Em apenas dois anos, de Junho de 2006 a Junho deste ano, fecharam em Portugal mais de 700 empresas de panificação. Algumas de grande dimensão, como a Panibar de Barcelos, com 75 trabalhadores, ou a Unidos de Setúbal, que tinha 80 funcionários.

MENOS BIOCOMBUSTÍVEIS

A recente descida do preço do petróleo fez com que caísse radicalmente a produção de biocombustíveis, nomeadamente na América Latina. E este aspecto está a ser determinante para a lenta mas constante descida dos preços dos cereais em todo o Mundo.

GUERRA NAS ALDEIAS

Em algumas aldeias do distrito de Bragança e noutras da zona de Lamego, há ainda padeiros a venderem a carcaça a seis e sete cêntimos. Os industriais dizem que essas situações pontuais têm a ver com guerras de concorrência, que, asseguram, 'não podem durar muito'.

NOTAS

GOVERNO: CONTRA AUMENTOS

O ministro da Agricultura, Jaime Silva, diz que, atendendo às quebras que se estão a registar nos preços da farinha, não se justifica, por enquanto, qualquer aumento do preço do pão.

SUBIDA: UM CÊNTIMO POR ANO

Desde 2003, a carcaça tem aumentado à média de um cêntimo por ano. Em Lisboa e no Algarve, por exemplo, passou de dez para quinze cêntimos. No Porto, subiu de oito para treze.

CUSTOS: HIGIENE E SEGURANÇA

Um dos dramas das empresas de panificação em Portugal é os investimentos que tiveram de realizar nos últimos três anos para cumprirem as regras europeias de higiene e segurança.

 

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