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Chefe de gang diz adeus à Justiça

Juiz deixou Marco d’aires em domiciliária mas este cortou pulseira e fugiu. Despediu-se por carta e goza, em sociedade offshore, milhares que roubou.
12 de Janeiro de 2010 às 00:30
Operação da Unidade de Intervenção da GNR, em Julho de 2009, levou à detenção e constituição de arguidos doze elementos do grupo
Operação da Unidade de Intervenção da GNR, em Julho de 2009, levou à detenção e constituição de arguidos doze elementos do grupo FOTO: A-gosto.com

Instalado no BMW 520, um dos 50 que o grupo roubou por carjacking, Marco d’aires liderou o assalto à caixa multibanco numas bombas de Torres Novas. Arrecadou 22 mil euros do ATM, como mandam as regras do gang que sacou assim mais de dois milhões de euros em dois anos, mas nesse dia foi apanhado, em 18 de Março de 2008. Teve uma breve passagem pela cadeia, mas o juiz pô-lo em domiciliária, contra o parecer do Instituto de Reinserção Social (IRS) – e ele cortou agora a pulseira electrónica e fugiu. Antes escreveu uma carta a despedir-se da Justiça.

Marco é considerado pela Unidade Especial de Combate ao Crime Violento do DIAP de Lisboa o estratega do gang do multibanco, sediado em Setúbal. 'Pertencia ao núcleo decisor, planeando acções e dando orientações das mesmas', pode ler-se no despacho que acusa mais 11 elementos. Mas ao ser notificado, na última semana, em sua casa, Marco d’aires cortou a pulseira electrónica e despediu-se da Justiça antes de partir.

Deixou escrita uma carta dirigida ao IRS, que diz o seguinte: 'Fui notificado de uma acusação muito grave e, de modo a não prejudicar a minha família passando o resto do tempo preso, vou fugir'. E fica assim por julgar num megaprocesso coordenado pelo DIAP, em que responde por associação criminosa e roubos na sequência de uma investigação de anos da GNR – e não cumpre os seis anos e meio de cadeia a que já foi condenado, no Tribunal de Setúbal, pelo crime de Torres Novas.

Com os seus 25 anos, pode agora gozar os seus 'diversos bens patrimoniais e investimentos', conforme consta na acusação do Ministério Público, assim como os milhares que tem a salvo na sociedade offshore por si constituída na Zona Franca de Tânger, de nome Paulana Societé de Vetements de Marroc.

A fonte de rendimentos era a sua parte nos dois milhões que o grupo roubou das caixas multibanco – e recebia em notas de 50, 20 e 10 euros. Foi com estas que formou a sociedade e comprou um Audi A6.

PORMENORES

PARECER DO IRS

O Instituto de Reinserção Social emite um parecer sobre as condições de colocar alguém em prisão domiciliária, mas o mesmo não é vinculativo. Juiz pode tomar decisão contrária.

FILHO RECÉM-NASCIDO

A mulher de Marco d’aires estava grávida de nove meses quando ele fugiu e, entretanto, deu entrada no hospital para ter o bebé.

RENDIMENTOS OFICIAIS

Nas declarações de IRS de Marco só constam 9289 euros em 2006 e 5118 em 2007

TRAI CONFIANÇA E ENGANA JUIZES DUAS VEZES

Quando foi apanhado pela polícia, na sequência de um carjacking e mais um assalto a uma caixa ATM, desta vez em Torres Novas, em 18 de Março de 2008, Março d’aires ficou em liberdade, por ordem do juiz, com a obrigação de fazer apresentações periódicas à PSP da área de residência, em Setúbal. Só que não aparecia na esquadra e, já em julgamento, a juíza que acabou por o condenar a seis anos e meio de cadeia decidiu colocá-lo em prisão preventiva até ao transitar em julgado do processo – recolheu ao Estabelecimento Prisional de Setúbal. Mas mal aqueceu o lugar na cela 202, um juiz decidiu alterar, antes do último Verão, a medida de coacção para pulseira electrónica – mesmo contra o parecer do Instituto de Reinserção Social. Recebeu nova acusação do Ministério Público, cortou a pulseira e escapou.

OUTRO LADRÃO VIOLENTO ESTÁ EM DOMICILIÁRIA

Um dos elementos do gang que atacou com Marco d’aires a caixa multibanco nas bombas de gasolina de Torres Novas, depois de um carjacking, é Jonny Portela de Pinho – também ele com uma posição importante na cadeia hierárquica do grupo de Setúbal. E é mais um dos assaltantes, recentemente acusados pela unidade especial do DIAP, que continua em prisão domiciliária por ordem de um juiz. Isto apesar de, segundo o Ministério Público, nos últimos meses de actividade do gang, até ao Verão passado, muitas das reuniões operacionais, com vista a preparar mais assaltos, terem passado por sua casa.

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