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Cunhas do Major fora do futebol

Valentim Loureiro está indiciado no processo ‘Apito Dourado’ por vários crimes ligados ao futebol e outros fora desse âmbito – ‘cunhas’ para fazer andar processos, alguns dos quais nunca andarão.
7 de Maio de 2005 às 13:00
As escutas a Valentim Loureiro levantaram também suspeitas sobre a actividade na Câmara
As escutas a Valentim Loureiro levantaram também suspeitas sobre a actividade na Câmara FOTO: Jorge Paula
As ‘cunhas’ são justificadas por Valentim Loureiro como costume da sociedade portuguesa, para além de nunca serem em proveito próprio. Perante a Lei, porém, podem ser entendidas como tráfico de influências, conforme já defendeu o Ministério Público.
Fora do futebol está nos autos uma iniciativa da Câmara, que pretendia fazer uma revista. O concurso tinha vários concorrentes e um deles – a proposta mais alta mas também com melhores condições técnicas – estava ligado a um amigo do major. Há uma escuta telefónica em que este diz a um responsável dessa empresa que, para ganhar, tem de se aproximar do valor mais baixo. Os valores andam na casa dos 20-30 mil euros.
Outro caso é o do terreno, em zona protegida, em que Sousa Cintra pretendia construir uma casa. Há escutas de Valentim a falar com os então secretários de Estado Taveira de Sousa e Miguel Relvas, e com o ministro Arnaut a pedir o empenho para resolver o problema, só que não houve decisão. Valentim disse à juíza que com os secretários de Estado falava da ETAR de Gramido, em que havia um problema sobre quem a iria pagar e que aproveitava para falar da casa de Cintra. Pelo meio havia um problema dos 250 mil euros que Sousa Cintra devia à Liga, por um contrato de publicidade – parte em dinheiro e outra em bebidas. Cintra queixava-se que a Sagres lhe boicotava a venda dos produtos nos estádios.
Em relação às empresas J. Camilo e Couto Alves (ambas de construção civil) há vários empenhos do empresário Joaquim Camilo para obras do segundo, pelo que haveria uma ligação entre ambas. Uma das intercepções telefónicas é de Valentim para Jorge Costa no sentido de Couto Alvez fazer uma obra na EN222. O Major justificará a intervenção por essa estrada também passar numa freguesia de Gondomar. Por outro lado, há um problema com a J. Camilo, que está a construir em terrenos do Boavista em que há 1275 m2 a mais do que o previsto no projecto.
Já José Oliveira, ‘vice’ da Câmara de Gondomar, tem outros problemas. Um amigo telefona-lhe por causa de um projecto de uma casa em Gondomar. Oliveira fala ao Major e este pede o processo, mas nunca chegou a dar despacho.
Há também várias contas em ‘off-shore’, algumas antigas, que Oliveira explica como dinheiro que recebeu enquanto foi homem de confiança de Gonçalves Gomes, já falecido. E há denúncias anónimas, que terão investigações próprias, de terrenos que ele compraria e que passado algum tempo já seriam servidos por estradas, aumentando oseu valor.
DISTRITAL DO PORTO SURPREENDIDA E INCOMODADA
A entrevista que Valentim Loureiro deu anteontem à RTP 1, em que anunciou a sua candidatura à Câmara de Gondomar mesmo sem o apoio do PSD, causou algum incómodo à Distrital do Porto e inviabiliza praticamente qualquer apoio desta estrutura a uma candidatura independente do Major. Na verdade, o PSD-Porto não pode apoiar alguém que diz que vai concorrer até contra o próprio partido.
Contudo, instado a comentar o assunto, o presidente da distrital do PSD-Porto, Marco António Costa, disse ao CM “que pretende manter um registo de serenidade e de máxima tranquilidade nas relações entre a distrital e a direcção nacional”.
A recusa por parte do líder do partido em dar o seu aval às candidaturas de Isaltino Morais, em Oeiras, e de Valentim Loureiro, em Gondomar, está a ser interpretada por alguns sectores do partido como uma tentativa de Marques Mendes enfraquecer os seus opositores em futuras eleições directas para a liderança do partido no próximo ano. A tese é a de que Valentim e Isaltino sejam expulsos do partido e com eles saiam os seus apoiantes, calculados em cerca de 800.
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