A Justiça portuguesa perdeu-lhe o rasto, mas André Richeli não anda propriamente escondido. Simplesmente fugiu para a sua terra natal. Está no Ceará, no Brasil, e pelo aspecto que apresenta nas fotografias que inseriu num ‘floog’ – uma espécie de blogue fotográfico – está a desfrutar dos prazeres da vida em plena liberdade. Para trás deixou uma pulseira electrónica que o ‘prendia’ preventivamente em Portugal por burla e uma advogada enganada e roubada.
A Justiça, que é cega, pretende julgá-lo esta semana pelo crime de burla informática. Mas Richeli dificilmente cumprirá a pena se for condenado.
André Richeli Holanda Câmara foi apanhado pela Polícia portuguesa por usar cópias de cartões de crédito. Esteve preso nos primeiros seis meses do ano passado na cadeia do Montijo e colocado, depois, em prisão domiciliária, sob vigilância electrónica, num apartamento do Seixal. Ao fim de três meses – a 25 de Outubro de 2004 – decidiu ir embora. Cortou a pulseira, abriu a porta e saiu. Nem mais.
PARA MAIS TARDE RECORDAR
Mas não foi de mãos vazias, com ele levou o computador portátil que a advogada – vá-se lá saber porquê – lhe tinha emprestado. Terá sido através desse computador, e ainda em Portugal, que Richeli criou o seu ‘floog’ às 18h45 de 21 de Outubro.
Chegado ao Brasil, não perdeu tempo. Pegou na máquina fotográfica e vai de registar aqueles momentos verdadeiramente saborosos da vida em liberdade, seja na praia ou em casa, sozinho ou (bem) acompanhado.
Numa das fotografias, Richeli dá--se ao luxo de estar na casa de banho com o computador da advogada ao colo. Dizer que está com um sorriso nos lábios é uma ofensa à felicidade que aparenta naquele momento.
A situação irritou de tal forma a advogada que a levou a inserir um comentário no ‘floog’, logo que o descobriu numa pesquisa pela internet. O comentário é escrito num tom de proximidade, sinal de que, além de ter sido roubada ainda foi encantada pela ‘cantiga do bandido’.
ADEUS PULSEIRINHA
Enganado foi também Rodrigues Grave, o proprietário do andar, no Seixal, onde Richeli estava em prisão domiciliária. Não gosta de falar no assunto, nem diz quanto é que o brasileiro lhe ficou a dever de renda e das compras que fazia para o alimentar. Reconhece apenas que “ficaram alguns trocos por pagar” e que lhe coube “abrir a porta ao funcionário da empresa que monta aquilo”.
Aquilo é a pulseira que Richeli deixou para trás. O equipamento é feito com um material sintético e pode ser cortado com uma tesoura, um pouco mais forte do que o normal.
O julgamento do arguido está marcado para esta semana. De acordo com a lei, Richeli pode ser condenado em Portugal e cumprir a respectiva pena no Brasil. Em alternativa, pode ser julgado lá, pelo crime que cometeu em Portugal.
PULSEIRA SÓ PARA ENFEITAR?
A avaliar por este caso, é fácil fugir ao controlo da vigilância electrónica. A comunicação entre as várias entidades é demasiado lenta e burocrática, não privilegiando a perseguição policial. O sistema que vai ser alargado a todo o País, já deixou escapar meia dúzia de arguidos, número que os responsáveis dizem ser pouco significativo.
A fuga é detectada pela empresa proprietária do equipamento e comunicada ao Instituto de Reinserção Social. Este, dá conhecimento aos tribunais. Será depois o juiz que emite um mandado de captura e o distribui pelas autoridades policiais. Entre elas, o SEF que tem um registo das pessoas em fuga.
Se essa comunicação se fizer a tempo, os fugitivos são travados no aeroporto. Para viajar por via aérea é preciso passaporte, mas também se pode sair mais facilmente pelas fronteiras terrestres.
SAIR À VONTADE
Depois de cortar a pulseira electrónica, se Richeli optasse por sair de avião, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) poderia detectá-lo ou não, já que só tem registo de arguidos em fuga. Ou seja, na eventualidade de ninguém avisar o SEF a tempo de que há um indivíduo a monte, este pode escapar ao controlo. Se, por outro lado, Richeli usasse a via terrestre, a ausência de controlo nas fronteiras facilitaria a chegada a outro aeroporto internacional.
ADVOGADA ROUBADA
Mal descobriu o ‘floog’, a advogada não resistiu a enviar um comentário: “então andré, já contou prós seus amigos que está fugindo da justiça portuguesa? está quase a ser julgado, já esqueceu? eu não esqueci do acer aspire [o computador] q lhe emprestei e que você até hoje nãoi devolveu.... coisa feia, enganar a advogada...”
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