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Descoberta pista de Lisboa

O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) seguia desde Maio do ano passado o rasto de uma rede de falsificação de passaportes que, a partir de Lisboa, fornecia falsas identidades a asiáticos residentes em Inglaterra. As investigações ainda decorriam quando, em 7 de Julho, o longo braço do terrismo semeou a tragédia no coração de Londres.
14 de Julho de 2005 às 13:00
O autocarro da carreira 30, em Tavistock Square, foi um dos alvos de um bombista suicida
O autocarro da carreira 30, em Tavistock Square, foi um dos alvos de um bombista suicida FOTO: Stringer/Reuters
Os atentados levaram as autoridades portugueses a agir depressa. O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras antecipou o desmembramento da rede. Na madrugada do último domingo lançou a ‘Operação Quibir’. A acção, levada a cabo por uma centena de inspectores do SEF, apenas terminou na terça-feira à tarde. Foram detidos onze suspeitos: cinco portugueses, um angolano, um moçambicano, um congolês, dois indianos e um paquistanês. Os seis estrangeiros e dois portugueses, por ordem do juiz de Instrução Criminal, ficaram em prisão preventiva.
Há muito que as autoridades portuguesas suspeitam que “passaportes falsificados no nosso país são utilizados por células terroristas na Europa”, disse ontem ao Correio da Manhã fonte do Ministério Público.
Na manhã dos atentados em Londres, reuniu-se de emergência, em Lisboa, a Unidade de Coordenação de Informação Anti-Terrorista (UCIAT) – constituída por representantes da PJ, PSP, GNR, Serviço de de Informações de Segurança, Serviço de Informações Estratégicas de Defesa Militar e Serviço de Estrangeiros e Fronteiras.
Um dos temas discutidos na reunião foi precisamente o conjunto de provas recolhidas pelo SEF, desde Maio do ano passado, sobre a ‘rede de Lisboa’ que fornecia passaportes falsos a asiáticos residentes em solo britânico. A maioria dos clientes eram paquistaneses e indianos.
Nos dias que se seguiram aos atentados, os investigadores do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras detectaram intensas trocas de correio entre os cabecilhas da rede em Lisboa e clientes de Londres – o que leva o SEF a suspeitar que passaportes falsificados em Portugal foram utilizados pela célula terrorista que actuou em Inglaterra. Estes indícios, segundo fonte policial contactada pelo Correio da Manhã, foram comunicados às autoridades britânicas. Os passaportes falsos podem ser utilizados como meio de encobrimento de de terroristas em fuga.
Entre domingo e terça-feira, os inspectores do SEF, munidos com mandados de busca, revistaram 33 casas da Grande Lisboa – foi a maior operação do género alguma vez levada a cabo por este órgão de polícia criminal. O SEF apreendeu dezenas de passaportes e bilhetes de identidade falsificados, fotos de indivíduos asiáticos e africanos e diverso material utilizado na produção dos documentos – como impressoras a laser, carimbos e selos brancos.
Esta rede, segundo fonte ligada às investigações, “estava bem organizada”: nenhum dos falsificadores tinha possibilidade ou meios para produzir, por completo, um documento de identificação falso. “Cada um dos elementos da rede tinha uma tarefa determinada” – diz a mesma fonte.
As investigações do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras ainda prosseguem em Portugal. A rede, segundo a nossa fonte, dava trabalho a vários angariadores – que se deslocavam a Londres, onde tinham vários contactos. Depois de paga, a documentação era enviada pelo correio. O SEF ainda não descobriu a forma de pagamento.
FALSIFICAÇÕES COM QUALIDADE
Parte dos documentos ontem apreendidos à rede de falsificadores foram considerados, por uma fonte do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, com “qualidade suficiente para iludir controlos ocasionais por parte das forças e serviços de segurança”. No entanto, e como é habitual suceder com este tipo de redes, os ‘clientes’ tinham à sua disposição um pouco de tudo. “Há documentos falsificados com muita qualidade, mas existem também outros mais grosseiros. As diferenças de preço pagos pelos imigrantes resultam disso”, adiantou a fonte do SEF. Os preços pagos pelas falsificações variavam entre os 500 e os 2 500 euros.
Esta rede, ainda de acordo com a mesma fonte, também tinha clientes em Portugal: imigrantes ilegais que desejavam ober rapidamente um documento de identidade, mais ou menos fiável, que lhe permitisse circular livremente pelo Espaço Shengen. As investigações do SEF permitem ainda concluir que a rede vendeu falsificações para Espanha. Fontes policiais contactadas pelo CM garantem que em Lisboa “existe um mercado paralelo em zonas há muito referenciadas como autênticos hipermercados de documentos falsos” – são os casos das zonas do Martim Moniz e do Intendente, onde facilmente se obtém um passaporte, carta de condução ou vistos de autorização de residência.
PORMENORES
MERCADO PARALELO
Fonte do Ministério Público afirma que “a par de Inglaterra, existe um mercado paralelo crescente em Portugal, de fácil acesso e disseminação de documentos falsificados. Passaportes portugueses circulam facilmente pela Europa”, diz.
'HIPERMERCADOS'
As zonas do Martim Moniz e Intendente, em Lisboa, estão referenciadas pelas autoridades como autênticos hipermercados de documentos falsos – passaportes, cartas de condução, bilhetes de identidade e vistos de autorização de residência são os mais procurados.
TERRORISTAS
Elementos ligados a células terroristas que actuam na Europa “podem estar infiltrados em países comunitários com passaportes falsificados em Portugal”, diz ao CM fonte do Ministério Público.
AEROPORTOS
A partir desta operação, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras tem particular atenção aos aeroportos portugueses, nomeadamente nos voos com destino a Inglaterra – país que não pertence ao Espaço Schengen.
27 ARGUIDOS
Para além dos oito detidos, foram terça-feira constituídos mais onze arguidos – num total de 27 elementos de várias nacionalidades.
PRESOS SEPARADOS
Por motivos de segurança, os oito suspeitos em prisão preventiva foram repartidos por várias cadeias da zona de Lisboa: Estabelecimento Prisional de Lisboa, Zona Prisional da PJ e cadeias de Sintra e Linhó.
CRIMES
Todos os arguidos neste processo são suspeitos de associação criminosa, falsificação de documentos e auxílio à imigração ilegal.
VÊM AÍ NOVOS DOCUMENTOS
Entre os vários documentos apreendidos na operação do SEF do último fim-de-semana contam-se bilhetes de identidade e passaportes portugueses, falsificados a partir de exemplares verdadeiros. A rede agora desmantelada alterava passaportes do modelo antigo, mas tambem do actual – que tem uma banda de leitura óptica e que, em 2001, quando entrou em vigor era considerado quase infalsificável.
Os actuais passaportes, em vigor desde 2001, por determinação da União Europeia, só podem ser requeriros pelo titular do documento. E, segundo o SEF, ao contrário do modelo antigo, os passaportes possuem elementos de segurança na fotografia e no laminado e ainda a banda óptica, que permite armazenar informação.
Um das vantagens do novo documento foi a informatização do processo de pesquisa. O que até então era feito de forma manual, com introdução dos dados do passaporte, passou a ser efectuado por computador, através da leitura da zona óptica, em qualquer parte do mundo.
Em preparação está uma terceira geração de passaportes– biométricos – já em utilização dos Estados Unidos da América. Além da banda óptica, os novos documentos contemplam um ‘chip’ de computador no qual será inserida uma fotografia digital do titular. Aos agentes de controlo fronteiriço caberá comparar essa foto com uma fotografia digital do portador do documento.
Para este mês está prevista a chegada do novo modelo de título de residência em Portugal. O documento, que substitui o bilhete de identidade de cidadãos estrangeiros em Portugal terá a forma de um cartão de crédito.
Novas regras aplicam-se também ao processo de emissão dos títulos de residência: a recolha dos dados biográficos e da imagem será descentralizada, mas os documentos serão produzidos e emitidos na Imprensa Nacional Casa da Moeda.
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