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Correio da Manhã

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Disfarce usado noutros crimes

Azul falso nas lentes de contacto, cabelo amarelo pintado, pastilha elástica a esconder um aparelho metálico e os defeitos inconfundíveis dos dentes da frente. Pormenores da autópsia ao cadáver de Nilton Souza, descobertos pelas 09h30desexta--feira, além dos dois orifícios por onde entrou e saiu a bala calibre 7,62 mm de um sniper do GOE que lhe atravessou e desfez o coração. As características físicas e todos os disfarces do brasileiro abatidocolocamas polícias no terreno – o CM apurou que é suspeito de ter assaltado com Wellington, o outro sequestrador do BES, por exemplo, um supermercado Minipreço em Lisboa.
11 de Agosto de 2008 às 22:00
Imagens do rosto dos dois sequestradores serão exibidas a outras vítimas
Imagens do rosto dos dois sequestradores serão exibidas a outras vítimas FOTO: Miguel A. Lopes/Lusa

Ninguém duvida de que este não foi o primeiro assalto armado da dupla brasileira. Quando o maxilar direito de Wellington Nazaré estiver recuperado de um tiro de pistola e lhe permitir falar, vai ter de explicar onde arranjou cerca de dez mil euros em notas. O dinheiro foi encontrado na casa daquele sequestrador durante a noite de quinta-feira, em pleno decorrer da operação no BES: quando localizou o carro em que se faziam transportar os assaltantes, a polícia rapidamente chegou às duas identidades e respectivas residências.

A descrição que é feita pelas vítimas do assalto a um Minipreço da capital, na última semana de Julho, corresponde a estes dois assaltantes. Assim como a de Nilton corresponde ao homem brasileiro que assaltou de pistola em punho uma carrinha de transporte de valores na zona da Estefânia, Lisboa. Entre outras características idênticas é descrito com o mesmo problema nos dentes.

Outras ligações possíveis, e que estão a ser investigadas, dizem respeito ao assalto a uma dependência do Barclay’s, na Grande Lisboa, que não está filmada por a agência em causa não ter câmaras, e a um outro assalto na zona do Carregado.

Para lá dos disfarces e dos dez mil euros que escondiam, além de perucas, o facto de terem levado abraçadeiras para algemar reféns do BES indicia experiência em roubos.

FAMÍLIA WELLINGTON CHOCADA COM POLÍCIA

A família de Wellington Nazaré considera "excessiva" a intervenção policial que atirou o jovem para uma cama de hospital. Em declarações à imprensa, a irmã Rosianne Nazaré – que viu as imagens do assalto ao BES na televisão brasileira e na internet – afirmou que a família do assaltante ficou chocada com a situação que ninguém na terra natal do assaltante–Coronel Fabriciano no estado de Minas Gerais – consegue explicar.

"Ele roubou, sim. E vai ter de pagar por isso. Mas acha justo que seja com a vida?", questiona Rosianne, recordando que "este foi o primeiro erro da vida dele. O Wellington não tem ficha policial. Nunca cometeu outro crime", disse a irmã à SIC.

Sobre o que poderá ter levado Wellington Nazaré a assaltar um banco emP ortugal, Rosianne argumenta que o irmão "estava doente e depressivo".

A jovem, apesar da distância ,acredita que o irmão "está muito arrependido" e que preferia "estar morto do que no estado em que está".

Ainda incrédula com o desfecho do assalto em que o irmão foi protagonista, Rosianne afirma que "Wellington é uma pessoa muito boa".

PROCURADORA PROMOVE PRISÃO DENTRO DO PRAZO

A procuradora da República Cândida Vilar, titular do inquérito ao assalto de quinta-feira no BES, promoveu a prisão preventiva de Wellington Nazaré, ao meio-dia de sábado, dentro das 48 horas previstas por lei – a partir daí a detenção seria ilegal e o sequestrador brasileiro obrigatoriamente libertado.

O juiz de turno no Tribunal de Instrução Criminal aceitou de imediato e, mesmo sem ter ainda sido ouvido em primeiro interrogatório judicial, o assaltante já está oficialmente preso. Continua a recuperar dos ferimentos de bala na Unidade de Urgência Médica de São José – onde o CM o foi encontrar deitado na tarde de sábado – e só esta semana será transferido para o Hospital-Prisão de Caxias.

Quando o efeito dos sedativos lhe permitir recuperar o raciocínio e a fala, será interrogado pelo juiz e pela magistrada do Ministério Público. Já lhe foi nomeada, sábado, uma advogada oficiosa.

FUNCIONÁRIOS FICAM NA AGÊNCIA

A gerente Ana Antunes e o subgerente, Vasco Mendes, não vão ser transferidos de agência. Quando regressarem ao activo continuarão a trabalhar no BES da rua Marquês da Fronteira, apurou o CM. Apesar da gerente ter manifestado a sua vontade de regressar ao trabalho o mais cedo possível, ainda não será hoje que a Ana Antunes estará na dependência de Campolide.

Em relação ao processo-crime aberto pelo Ministério Público, o Banco Espírito Santo aguarda por mais desenvolvimentos para poder tomar uma posição. n

PORMENORES

ARRISCA DE 10 A 12 ANOS

Wellington Rodrigues Nazaré, 23 anos, está indiciado pelo Ministério Público, e apenas para já, por cinco crimes de sequestro agravado e roubo na forma tentada, que lhe podem valer 10 a 12 anos de cadeia. Foi suficiente para o juiz se decidir pela prisão preventiva.

ADVOGADA NOMEADA

Quando o MP promoveu a prisão preventiva do suspeito brasileiro, foi imediatamente nomeada uma advogada oficiosa, escalada pela Ordem para o Tribunal de Instrução Criminal no sábado, para representar Wellington Nazaré.

NOTAS

FUNERAL - À ESPERA

O embaixador do Brasil em Lisboa disse ontem que é "prematuro" falar da trasladação do corpo de Nilton Souza

CUSTO - FAMÍLIA PAGA

Os custos da trasladação do corpo para o Brasil são da responsabilidade da família. O governo não suporta esse valor

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