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Dois mil euros para matar

Rosa, 39 anos, falava anteontem ao CM do desaparecimento do marido, em Ílhavo. Dizia-se consternada e chorava a sua ausência. Horas depois, Rosa, o seu sobrinho Nuno, de 20 anos, e mais dois amigos – irmãos, com 17 e 19 anos, a quem seriam pagos dois mil euros pelo crime – eram presos pela PJ de Aveiro, acusados da morte de António Mota.
17 de Janeiro de 2009 às 22:00
A família de António está desesperada. O homicídio encomendado pela mulher e sobrinho, deixou o irmão da vítima choque.
A família de António está desesperada. O homicídio encomendado pela mulher e sobrinho, deixou o irmão da vítima choque. FOTO: José Rebelo

Pelas 21h30, os quatro foram libertados. O juiz do Tribunal de Ílhavo mandou três para casa com pulseira electrónica e o mais novo apenas teve de prestar termo de identidade e residência. Rosa e o sobrinho foram para a residência dos pais de Rosa e avós de Nuno. Os irmãos voltaram a Vagos.

Já durante a madrugada de ontem, passava das 00h00, a PJ tinha conseguido recuperar o cadáver do torneiro mecânico, desaparecido desde o passado dia 2. Estava escondido numa casa abandonada, a poucos quilómetros da vivenda do casal, enquanto o carro da vítima, que também desaparecera, foi encontrado a poucos metros do posto da GNR de Bustos, em Cantanhede.

O móbil do crime não é claro, mas tudo indica que Rosa mandou matar o marido porque aquele conseguira recuperar de um cancro no pâncreas. O seu objectivo era ser viúva, recusando o divórcio para evitar a partilha dos bens.

Rosa foi ontem levada a tribunal por co-autoria do homicídio, enquanto os jovens respondem pela consumação do mesmo. António foi morto à pancada e os dois jovens contratados para o fazerem iriam receber 2 mil euros. Rosa não lhes terá chegado a pagar. Quem lhes deveria entregar o dinheiro era Nuno, que morava com Rosa e a vítima, mas temeram fazê-lo nos dias seguintes ao desaparecimento.

A relação de Rosa com o marido também não era boa e há alguns anos que dormiam em quartos separados – ela na casa, ele nos anexos. Rosa também parecia fingir preocupação pelo desaparecimento. António recuperara de um cancro e o suicídio parecia estar fora de questão, o que levou a investigação a centrar-se na mulher. Ao final da tarde de anteontem, Rosa e o sobrinho foram presos. Os dois autores materiais confessaram onde tinham escondido o corpo.

AMARRADO E EMBRULHADO

O cadáver de António Mota estava escondido numa casa em ruínas, na Quinta da Valenta, em Ermida (também Ílhavo), cujo acesso se faz por uma estrada de terra batida. Trata-se de um local ermo, praticamente abandonado, e o corpo estava muito bem dissimulado. Foi encontrado amarrado com cordas e embrulhado num cobertor.

Alexandrina e António são os moradores mais próximos do local, onde o corpo foi descoberto pela PJ após a confissão dos dois irmãos, de 17 e 18 anos. Nada viram, nem se aperceberam de que alguém tivesse estado no local na tarde ou na noite do dia 2.

O corpo de António Mota terá sido levado para aquele local no próprio dia do homicídio, que os investigadores acreditam ter acontecido a 2 de Janeiro, data do desaparecimento.

Após a sua ausência, os pais, irmãos e amigos começaram a afixar cartazes com a foto, a pedir informações sobre o seu paradeiro. "A mulher ligou-me a perguntar se achava bem ter as fotos dele espalhadas, argumentando que faria mal aos miúdos", conta o irmão José Mota.

António Mota tinha dois filhos, uma rapaz, de 11 anos, e uma rapariga, de 10, que foram acolhidos por uma irmã da mãe, após a detenção desta. "Não podemos entrar em casa para ir buscar as roupas. Foi fechada pela Polícia Judiciária", continua o irmão.

Em Agosto, António abriu uma conta conjunta com o irmão mais novo e era para essa conta que era encaminhado o dinheiro que recebia da Segurança Social pela doença. "Esse dinheiro começou a fazer-lhe falta", diz José Mota, que mesmo assim não consegue perceber se foi essa a razão que levou Rosa a encomendar a morte do marido.

FOI MORTO DENTRO DE CASA

António Mota terá sido assassinado dentro da casa. Ao que tudo indica, pelo sobrinho que criara e por dois irmãos tidos como bastante violentos. Foi espancado com um pau e não terá conseguido reagir. O seu corpo foi levado para o casebre abandonado nesse mesmo dia. As autoridades estiveram na casa e recolheram vestígios que apontam para a sua morte naquele local. O carro foi depois levado pelos agressores para Bustos.

PORMENORES

VIDA CONJUGAL

António Mota já não fazia vida conjugal com a mulher. A relação do casal começou a degradar-se "há sete ou oito anos". "Até era boa pessoa, mas mudou muito nessa altura e ninguém sabe porquê", afirma uma amiga. "Há uns anos disse-lhe que podia fazer o que quisesse, mas que não lhe dava o divórcio", recorda o irmão.

"CRIOU-O COMO UM FILHO"

Nuno Santos, de 20 anos (filho de uma irmã de Rosa), terá planeado com a tia a morte do tio e padrinho. Foi ele que contactou os dois irmãos que o ajudaram a executar o plano criminoso. "Criou-o e agora ele arranjou quem o matasse. Só pensamos ser possível uma coisa destas em telenovelas", diz o pai da vítima, ainda em choque.

NÃO DEU NOTÍCIAS

António saiu de casa dos pais às 19h45 do dia 2 de Janeiro e desde então não deu mais notícias. "A única coisa que disse era que ia para casa e que não vinha almoçar no dia seguinte porque era fim-de-semana", recorda o irmão, que durante três dias lhe ligou para o telemóvel. "Depois deixou de tocar. Deve ter acabado a bateria..."

"UMA COISA DIABÓLICA", DIZ IRMÃO SEM CONSEGUIR EXPLICAR O CRIME

"Uma coisa diabólica, não sabemos o que pensar." José Mota, irmão mais novo da vítima, está destroçado. "Desde que desapareceu que não tinha esperança. Sabia que o tinham liquidado", acrescenta o pai, Domingos Mota, de 72 anos, enquanto olha para a mulher, Gabrelina de Jesus, "já sem lágrimas para chorar". "Sabíamos que ele não se matava, porque a sua força de viver era tão grande que lutou contra o cancro e venceu", explica o pai. As dúvidas começara a dissipar-se quando a carteira com os documentos apareceu na Costa Nova.

"Há uns anos ela disse-lhe que ele podia fazer o que quisesse, mas que não lhe dava o divórcio", continua o irmão, sem conseguir explicar o acto da cunhada.

NOTAS

MORADIA: FEITA PELO CASAL

A casa onde morava Rosa e António é uma pequena vivenda situada no lugar de Moutinhos, em Ílhavo. Foi construída há alguns anos e ainda estará a ser paga ao banco

FUNERAL: PODE SER AINDA HOJE

O funeral de António Mota pode ocorrer ainda durante o dia de hoje. A autópsia terá sido feita ontem em Aveiro, mas ainda não há hora para a cerimónia religiosa

TRIBUNAL: FORAM PARA CASA

Rosa, o sobrinho Nuno e um dos autores do homicídio foram para casa e vai-lhes ser aplicada a pulseira electrónica. O último suspeito, por ter apenas 17 anos, foi libertado

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