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Droga adulterada já matou nove pessoas

Toxicodependentes dizem que andam a misturar gesso ou cal na heroína traficada na Baixa.
17 de Janeiro de 2010 às 00:30
Toxicodependentes da Baixa de Coimbra temem mais mortes entre os consumidores
Toxicodependentes da Baixa de Coimbra temem mais mortes entre os consumidores FOTO: Ricardo Almeida

Ajuste de contas ou guerras entre traficantes de droga. São as hipóteses que ganham mais consistência entre os toxicodependentes de Coimbra para justificar as mortes por adulteração da heroína que consumiram. "Desde a primeira semana de Janeiro já morreram nove consumidores", quatro dos quais nos últimos oito dias, afirmou ontem ao CM Ana Simões, responsável por uma equipa da Cáritas Diocesana de Coimbra que trabalha nos problemáticos bairros do Ingote e da Rosa. As vítimas tinham idades compreendidas entre os 30 e os 41 anos.

Na quinta-feira foram assistidos nos hospitais da cidade mais dez toxicodependentes depois de terem consumido droga, revelou Cecília Escarameia, médica do Centro de Atendimento a Toxicodependentes, num debate sobre consumo de estupefacientes na sexta--feira à noite.

A Polícia Judiciária está já em campo e quatro das vítimas foram submetidas a autópsia, mas ainda não há resultados que permitam concluir o que está em causa. Os relatos dos toxicodependentes referem que "haverá alguém que está a ‘traçar’ [misturar] o produto com cal ou gesso", conta Ana Simões.

Também há quem refira o uso de estricnina como substância de corte. Ana Simões recorda que no ano passado houve uma situação em que foram detectados vestígios desta substância.

Os toxicodependentes contactados pelo CM apresentam duas justificações para o aparecimento da heroína adulterada. "Poderá ser uma tentativa de estragar o negócio a alguém", comentavam ontem alguns consumidores que se foram reunindo na rua Direita, na Baixa da cidade. Mas há quem avance com explicações mais elaboradas. "Parece uma tentativa de eliminar os indesejáveis da sociedade", diz Carlos, 42 anos, consumidor de heroína, ao garantir que "pelo menos três dos que morreram tinham muitos inimigos porque assaltavam carros e lojas com muita frequência".

HEROÍNA ADQUIRIDA NA BAIXA

Os toxicodependentes que consumiram heroína adulterada terão adquirido a droga na Baixa da cidade, segundo os dados de que Ana Simões dispõe. Uma situação que a técnica considera estranha, na medida em que o produto que é comercializado nessa zona "virá do mesmo sítio do que aquele que é vendido no Planalto do Ingote". Isto significa, na opinião dos consumidores, que anda "alguém na Baixa a dar a ‘banhada’ [enganar consumidores com droga de má qualidade]".

Há até quem já tenha suspeitos. "Poderá ser um toxicodependente, que já foi angariador de clientes para traficantes e que agora pretende estragar-lhes o negócio", comentam. "Se assim for é muita maldade", diz An a Simões, ao considerar a situação "muito preocupante". O modo de actuação será simples: "Esse traficante faz uma encomenda, fica com a maior parte da dose boa e depois mistura o resto com uma substância de corte". O problema estará nesse produto adicionado à heroína. Têm verificado que depois de "prepararem o caldo" para consumir ficam resíduos "cor-de-rosa", o que não é normal.

TRAFICANTES "ESPANTADOS"

O medo já há muito se instalou entre os consumidores, mas ultimamente os próprios traficantes estão a ficar preocupados. "Anda tudo apreensivo e as pessoas que nos vendem e em quem temos confiança demonstram tanto espanto como nós", assegura Carlos. "O que se está a passar é impensável e também não traz qualquer vantagem para o traficante", acrescenta outro consumidor. Mas nem todos estão assustados da mesma forma. "Eu tenho mais medo da ressaca", assegura um deles.

PORMENORES

MÁ QUALIDADE

Os consumidores dizem que a droga vendida em Coimbra "é adulterada e com vários cortes".

EXAMES ÀS VÍTIMAS

Os exames laboratoriais toxicológicos para apurar o que aconteceu estão a cargo do Instituto de Medicina Legal.

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