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Embaixada de Espanha usada pela máfia

Rede criminosa ucraniana, com tentáculos em cinco países da Europa, explorava concidadãos para os legalizar. ‘Paco’ foi uma peça fundamental para as actividades de ‘A Central’ em Portugal.
21 de Janeiro de 2010 às 00:30
Autoridades descobriram ligações entre máfia ucraniana e um funcionário da embaixada de Espanha em Lisboa. Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF)  apreendeu centenas de documentos
Autoridades descobriram ligações entre máfia ucraniana e um funcionário da embaixada de Espanha em Lisboa. Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) apreendeu centenas de documentos FOTO: Natália Ferraz

As ligações entre uma organização criminosa ucraniana e elementos da embaixada de Espanha, em Lisboa, foram dos factos mais alarmantes, descobertos no âmbito da ‘Operação Trufas Odessa’ e que maior apreensão provocou nas agências policiais que, na União Europeia (UE), combatem o tráfico de pessoas.

Biletsky, um dos operacionais desta máfia, também conhecido por ‘Kolia Motorista’, obtinha Vistos Schengen de trânsito espanhóis, através de um funcionário daquela embaixada, de nome ‘Paco’, que cobraria pelos documentos cerca de 300 euros, segundo a acusação a que o CM teve acesso.

O julgamento dos 27 membros desta rede, descoberta inicialmente no Algarve pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, em 2007, e que originou a detenção de outros 34 membros em cinco países da UE, começa hoje na 4ª Vara Criminal de Lisboa. O CM apurou que as questões que também preocuparam as polícias se prenderam com o nível de profissionalismo, a existência de uma rede tentacular e a capacidade logística dos membros desta organização.

A rede dedicava-se sobretudo a vender documentos, fornecer transporte e alojamento, especialmente a ucranianos, mas também a brasileiros, a troco de avultadas somas. No caso dos Vistos espanhóis, estes eram, depois, apostos nos passaportes.

Esta organização, em que cada membro desempenhava funções específicas, era liderada por um ou mais chefes, que controlava as operações em Portugal e no estrangeiro. Integrando homens e mulheres com idades médias de vinte e poucos anos, a maior percentagem tratava-se de ucranianos, mas também de russos e arménios. E tinha, em Portugal, como líder Kozyar, um jovem de 27 anos, ucraniano, também conhecido por ‘Kolia’, residente em Lisboa. Para a sua casa era centralizada grande parte da correspondência relacionada com as actividades criminosas.

Os investigadores detectaram que os operacionais estabeleciam com as suas vítimas, e familiares destas, contactos através de anúncios de jornais, em língua russa, por via telefónica, electrónica ou, então, através de encontros, em vários locais de Lisboa (centros comerciais, cafés, estações de comboio e até no zoo). Além de residirem no Algarve, e na zona da Grande Lisboa e Porto, a gestão na distribuição das pessoas e encontros ocorria noutros pontos do País. A rede exigia a centenas de pessoas, desejosas de se legalizar e trabalhar na UE, nomeadamente em Portugal, Espanha e Itália, quantias que superavam os três mil euros.

APREENSÕES

Fardas Nato

Um dos maiores quebra-cabeça dos investigadores terá sido a descoberta de fardamento militar, com etiquetas NATO.

Conexões de operações de ‘A Central’ a outras actividades, como actuação em teatros de guerra como mercenários, poderão ser reais.

Tecnologia

Nas casas dos arguidos foram descobertos dezenas de PC, computadores portáteis ou apenas discos rígidos, telemóveis e agendas em papel. Este equipamento continha milhares de dados em cirílico e português : contabilidade da rede, contactos de operacionais da rede e das vítimas.

Combustível

O furto de combustível, baterias e pneus é um dos crimes imputados a muitos dos arguidos na Acusação. Era material essencial para assegurar o transporte dos migrantes, que, na falta de dinheiro líquido, pagavam com estes produtos.

Carros de luxo

Na operação ‘Trufas Odessa’, foram apreendidas dezenas de automóveis de luxo e carrinhas com matrículas ucranianas e de outros países da UE, incluindo de Portugal. Estas viaturas serviam para a organização criminosa se movimentar entre vários países e transportar as vítimas.

Homem de mão

A especialidade da organização criminosa era os passaportes, as cartas de condução e salvo-condutos. Com a conivência de ‘Paco’, um funcionário da embaixada de Madrid em Lisboa, a rede obteve indevidamente Vistos Schengen de trânsito espanhóis.

REDE CRIMONOSA 'A CENTRAL' ESTÁ VIVA

‘A Central’ é o nome dado a este grupo transnacional pelas autoridades europeias. As polícias crêem que esta máfia se tenha reajustado e que muitos dos seus tentáculos perdurem.

Composta por operacionais ucranianos, com base em Chernivtsi, a organização estende-se a Portugal, Espanha, França, Itália, Eslováquia, Hungria, Áustria, Polónia, entre outros países .

Esta megarrede criminosa providencia documentos, distribui os migrantes por várias carrinhas e motoristas. Destes, nem todos fazem o trajecto integral até Portugal. Alguns deslocam-se apenas até Itália para casas controladas pela rede, utilizadas para recolher os migrantes, se necessário, com o intuito de iludir as autoridades. Foi detectada uma destas casas, em Milão, Itália, de uma ucraniana de nome Natacha, e outra na Eslováquia. Existem outros locais de ‘abrigo’, nomeadamente em Espanha. A rede levou polícias até Viktoria Rakita , com endereços na Florida e no estado de Nova Iorque, EUA, que enviava para Portugal cartas de condução internacionais para migrantes de Leste e brasileiros.

ARMAS PROIBIDAS E MUITO PERIGOSAS

A rede mafiosa possuía diversas armas, consideradas muito perigosas. Só na casa de Ishchuk, as polícias apreenderam sabres com gumes medindo entre os 17 e os 65 centímetros, um deles com bainha e cabeça de serpente no punho, uma bengala ocultando uma lâmina de dois gumes de 47 centímetros com cabo de esfinge oriental.

NOTAS

JULGAMENTO: 'TRUFAS ODESSA'

O julgamento de 27 arguidos que constituíam uma associação criminosa, dedicada ao tráfico de pessoas, e de duas das suas empresas, começa hoje na 4.ª Vara Criminal de Lisboa

SEF: DETECTADO NO ALGARVE

Um ucraniano foi ao SEF, no Algarve, para renovar o Visto de Residência, em 2007. Tinha um passaporte com um carimbo de autorização de permanência no espaço Schengen falsificado

CRIME: TRÁFICO PESSOAS

Como verdadeiros negreiros, exploravam as vítimas vendendo todo o tipo de documentos falsificados ou adquiridos fraudulentamente. Foi em parte desmantelada mas continuará viva

 

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