Barra Cofina

Correio da Manhã

Exclusivos
9

Escutas do Apito já podem ser ouvidas na net (COM ÁUDIOS)

Site do Correio da Manhã e YouTube já têm disponível o áudio das conversas que originaram o processo que abalou o futebol nacional.
21 de Janeiro de 2010 às 00:30
Pinto da Costa foi apanhado na famosa escuta da “fruta” [prostitutas] com o empresário António Araújo. Em causa, estava satisfazer o pedido do árbitro Jacinto Paixão antes do FC Porto-E. Amadora (2-1, em 2004)
Pinto da Costa foi apanhado na famosa escuta da “fruta” [prostitutas] com o empresário António Araújo. Em causa, estava satisfazer o pedido do árbitro Jacinto Paixão antes do FC Porto-E. Amadora (2-1, em 2004)

António Araújo - Ó sr. presidente... eu... eu... ligaram para mim, a pedir-me... a pedir-me fruta para logo à noite? Posso... posso levar a fruta à vontade?

Pinto da Costa - ... Hum... não é preciso, que já está... já foi mandada.

António Araújo - Não, não é isso. É para... é para dormir.

Pinto da Costa -... Para dorm... mas quem pediu?

António Araújo - O homem que vai ter consigo, de tarde.

Pinto da Costa - ...ahhhhhh. Mas sabe.... o J.P.?

António Araújo - Sim car.... Ele ligou para mim a pedir-me... a pedir-me rebuçado, para logo à noite.

Pinto da Costa - Ahhhh. Sim, sim. Diga que sim senhor.'

Este é um dos excertos da ‘escuta da fruta’ do processo ‘Apito Dourado’, em que, segundo o Ministério Público, Pinto da Costa e o empresário António Araújo foram apanhados a combinar um serviço de prostitutas para a equipa de arbitragem do FC Porto-E. Amadora (2-1, em 2004), liderada por Jacinto Paixão. O áudio da conversa do líder portista – registado às 13h00, do dia 24 de Janeiro de 2004 – com o empresário está desde ontem disponível no YouTube, de onde o CM o retirou. As conversas podem ser ouvidas no site do Correio da Manhã (www.cmjornal.pt).

Na vertente judicial, Pinto da Costa não se tem cansado de afirmar que foi ilibado (ver frases), mas, no plano desportivo, foi suspenso por dois anos pela Comissão Disciplinar da Liga, decisão que mais tarde foi confirmada pelo Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Futebol (FPF). Pinto da Costa, no entanto, recorreu do castigo federativo para o Tribunal Administrativo de Lisboa, que ainda não se pronunciou.

Além do presidente do FC Porto, no You- Tube e no site do CM podem ouvir-se ainda conversas em que intervêm Valentim Loureiro (ainda é presidente da Assembleia Geral da Liga), Antero Henriques (administrador da SAD portista), Pinto de Sousa (ex-líder da arbitragem da FPF) e o juiz já retirado Augusto Duarte.

PROCESSO PODE ACABAR NO AMIGO LÚCIO

O desfecho final do Processo ‘Apito Dourado’ pode acabar no Supremo Tribunal Administrativo (STA), que é presidido por Lúcio Barbosa, um grande amigo de Pinto da Costa e de Valentim Loureiro. Tanto que, em 2004, foi vice--presidente do FC Porto e até recebeu o Dragão de Ouro, em 2007. Além disso, sempre que o líder dos dragões precisa de testemunhas, Barbosa é quase sempre arrolado. Foi, por exemplo, o que sucedeu, em vários processos do ‘Apito’.

Além do cargo que exerceu no FC Porto, o juiz também já foi presidente dos conselhos de Disciplina e de Justiça da Federação Portuguesa de Futebol, sempre indicado pela Associação de Futebol do Porto.

Já Valentim (antigo presidente do Boavista) disse num recente jantar da Liga que estava 'confiante na vitória da Justiça, agora que Lúcio Barbosa preside' ao STA.

Nesta altura, a impugnação do castigo desportivo aplicado a Pinto da Costa pela FPF está no Tribunal Administrativo de Lisboa. Se não lhe for dada razão, o dirigente, em última instância, pode recorrer ao STA. O mesmo acontece no caso do Boavista (condenado a descer de divisão). Além de Barbosa, no Supremo Tribunal Administrativo está ainda o juiz António Madureira, também conotado com o FC Porto.

DÚVIDA ABSOLVEU DONOS DO FUTEBOL

Pinto da Costa encontrou-se efectivamente com um árbitro dois dias antes de um jogo importante, que ainda discutia a vitória do campeonato. O contacto foi intermediado pelo empresário António Araújo e o encontro aconteceu em casa do dirigente. Carolina Salgado falou da entrega de um envelope com dinheiro, o tribunal não deu credibilidade à sua versão. Pinto da Costa, por seu turno, explicou que Augusto Duarte lhe foi expor um caso particular: o pai daquele, também ex-árbitro e arguido noutros processos conexos, estaria a ter um relacionamento amoroso e extraconjugal. Nunca se percebeu porquê, mas ambos garantiram depois que Pinto da Costa foi chamado a intermediar a tentativa de salvamento o casamento do pai de Augusto Duarte.

Para o procurador, a explicação não passava de uma 'peta'. Disse-o de dedo em riste no Tribunal de Gaia, mas a juíza Catarina Almeida teve um entendimento diferente. Considerou 'suspeito e imprudente' o encontro, mas defendeu que a sua mera existência não permitia superar a dúvida razoável. O caso envolvendo Pinto da Costa e restantes protagonistas, que Maria José Morgado quis que fosse julgado como de corrupção, foi arquivado. Outros processos tiveram diferente destino e um deles – sempre apelidado de extrema importância pela equipa de Morgado – só agora vai chegar a tribunal.

Trata-se do caso que envolve o então Conselho de Arbitragem da Federação, liderado por Pinto de Sousa, e onde está em causa um esquema de viciação das classificações. O MP defende que valia tudo: Os árbitros tinham de proteger determinados clubes para poderem chegar à 1ª Liga.

AMBIENTE DE GUERRA TOTAL MANTÉM-SE

Ricardo Costa, presidente da Comissão Disciplinar da Liga de Clubes, fez história no futebol. Depois de meses a analisar o processo ‘Apito Dourado’ validou a investigação policial e determinou que os factos, independentemente da sua carga criminal, eram passíveis de responsabilidade disciplinar.

Determinou a descida do Boavista, a suspensão de João Loureiro – que já estava afastado do clube –, a perda de pontos para o FC Porto e a suspensão também de Pinto da Costa durante dois anos.

O caso foi enviado para a UEFA que não chegou a afastar os azuis-e--brancos das competições europeias por entender que a lei não era retroactiva. As suas decisões foram entretanto contestadas em sede de recurso, mas Ricardo Costa não vacilou. Mantém-se no cargo, em ambiente de guerra total com o FC Porto.

AS FIGURAS

Jacinto Paixão

Foi o árbitro do chamado ‘caso da fruta’. O MP acreditava que tinha sido pago com prostitutas para beneficiar o FC Porto.

Augusto Duarte

Dois dias antes do Beira-Mar/FC Porto esteve em casa de Pinto da Costa. Foi suspenso, mas absolvido pela Justiça.

Pinto da Costa

Presidente dos azuis--e-brancos foi condenado a dois anos de suspensão pelo órgão disciplinar da Liga de Clubes.

Valetim Loureiro

Condenado a pena suspensa pelo Tribunal de Gondomar, perdeu muito do peso que tinha no futebol. Abandonou a Liga.

João Loureiro

Fora do Boavista, que chegou a ser campeão sob a sua liderança, está hoje completamente afastado do mundo do futebol.

João Bartolomeu

Suspenso pela Liga ganhou o recurso que invalidou a utilização das escutas. Mantém--se à frente do União de Leiria.

Reinaldo Teles

Vice do FC Porto e administrador da SAD não chegou a ser acusado. No entanto, as escutas mostram a sua importância.

António Araújo

Foi quem levou Augusto Duarte a casa de Pinto da Costa. Falava com os árbitros e arranjou as prostitutas para Jacinto Paixão.

José Mourinho

Treinador da equipa campeã europeia surge nas escutas por causa da camisola rasgada a Rui Jorge, então do Sporting.

Deco

Atirou a bota ao árbitro e poderia ter sido suspenso. Pinto da Costa e Valentim tentaram tudo para que tal não acontecesse.

ACABA EM PENAS SUSPENSAS

Durante meses, as conversas entre José Luís Oliveira, Valentim Loureiro e Pinto de Sousa foram trianguladas. Falavam muitas vezes sobre o Gondomar Sport Club, que tentava ascender à Liga de Honra, sendo evidente para o Ministério Público um tratamento privilegiado. Escolheu-se árbitros, ofereceu--se prendas em ouro, houve favores pedidos e concretizados. As conversas, gravadas e transcritas no processo, mostravam mesmo que era tudo à descarada. Há, por exemplo, um árbitro que em conversa com um amigo chega a dizer que, àquele ritmo, vai abrir uma ourivesaria. As prendas eram às dezenas...

O processo, que terminou em penas suspensas para os principais protagonistas, teve ainda outra virtude. Mostrou que o medo dominava o futebol, que alguns dirigentes como Valentim Loureiro tinham uma posição de ascendência no desporto-rei.

'Não se meta nisso, que eu limpo-o do futebol' é por exemplo uma das frases que marcou o processo. Valentim gritava com António Garrido, assessor do Conselho de Arbitragem, a propósito de um relatório de um jogo que envolvia o rival de Gondomar. Valentim ameaçava que 'tomaria medidas' e deixava o recado: 'Você deve evitar meter-se em áreas para f... alguma instituição em que eu esteja minimamente ligado'. O interlocutor só pedia desculpa, o tribunal deu como provado a ocorrência de diversos crimes de abuso de poder e corrupção.

NOTAS

JULGAMENTO: EM BREVE

O caso de corrupção envolvendo Boavista/Estrela da Amadora e as conversas entre Valentim e Jacinto Paixão vão chegar a julgamento brevemente no Tribunal de S. João Novo

BOAVISTA: FRAUDE FISCAL

Começou anteontem no Porto o julgamento de João Loureiro e outros dois ex-administradores por fraude fiscal e abuso de confiança fiscal, quando estavam à frente do clube do Bessa

MORTÁGUA: CONHECIA CASOS

António Mortágua, juiz-conselheiro, foi arrolado como testemunha por Pinto da Costa. O magistrado admitiu ter conhecimento de casos de corrupção que nunca denunciou

CAROLINA: ESCREVE LIVRO

Carolina Salgado assumiu um papel de relevo depois de escrever um livro onde revelava encontros de Pinto da Costa com árbitros. Foi descrebilizada no tribunal

CERTIDÕES: EQUIPA ESPECIAL

Após terminar a investigação, dezenas de certidões ficaram sem destino. Pinto Monteiro nomeou Maria José Morgado, que escolheu uma equipa para as investigar

LEIRIA: DESCE DE DIVISÃO

O União de Leiria desceu de divisão durante o processo. Dirigido por João Bartolomeu, próximo de Pinto da Costa e Valentim, o clube sofreu as consequências da exposição

ESCOLHAS: SEM JULGAMENTO

As escutas mostram que também se escolhia árbitros na 1.ª Liga. Mas os pedidos não deram origem a nenhum processo, por não se apurarem as contrapartidas

PROCESSOS: FORAM REABERTOS

Alguns processos foram reabertos por Maria José Morgado, depois de arquivados pelo Ministério Público do Porto. As acusações no entanto não resultaram em condenações

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)