Barra Cofina

Correio da Manhã

Exclusivos
4

Escutas postas em causa

Pinto da Costa vai requer a nulidade das escutas telefónicas. O presidente do FC Porto, anteontem à tarde notificado da primeira acusação no âmbito do processo Apito Dourado, vai entrar rapidamente com o requerimento de abertura de instrução, contestando o despacho do Ministério Público.
14 de Junho de 2007 às 13:01
O dirigente vai alegar que as escutas que sustentam a prova não foram suficientemente acompanhadas pelo juiz de instrução, tese que a ser validada levaria a anulação da prova.
O CM sabe que os restantes acusados – designadamente Reinaldo Teles, número dois da SAD portista e António Araújo, empresário de futebol – deverão seguir a mesma estratégia. Usando também outra argumentação que passará pela utilização do primeiro despacho do Ministério Público, que determinava o arquivamento do processo.
Gil Moreira dos Santos, em comunicado enviado ontem às redacções, já anunciava que seriam tomadas “medidas”. O advogado lembrava então que o Ministério Público do Porto havia determinado o arquivamento do processo “por ter encontrado dificuldades lógicas, contrárias ás regras da experiência, que permitissem ao Ministério Público avançar com alguma probabilidade de êxito com um despacho acusatório”.
Gil Moreira dos Santos criticava também a valoração dada ao depoimento de Carolina Salgado – que além de ter permitido a reabertura do caso, determinou agora a acusação pública, atingindo as mais importantes figuras portistas. “De relevante surgiram as declarações que foram colhidas por uma testemunha que (...) viu já a sua isenção apreciada pela opinião pública, quer na obra que escreveu, quer no aproveitamento que desta se fez e vai fazer”.
OUTROS PROCESSOS
Com as investigações das certidões do Apito Dourado a entrarem na sua recta final, Pinto da Costa corre o risco de ser acusado em vários processos.
O primeiro deles e onde a acusação começa a ser a figura mais provável (dada a credibilização do depoimento de Carolina Salgado) é também o que envolve suspeitas de corrupção no jogo Beira-Mar-FC Porto, arbitrado por Augusto Duarte. Também aí, Pinto da Costa está indiciado por corrupção activa e a equipa de Maria José Morgado deverá deduzir uma acusação nos termos idênticos à anteontem notificada aos envolvidos nos acontecimentos após o jogo FC Porto-Estrela da Amadora.
Pinto da Costa é também arguido noutro processo “lateral” ao Apito Dourado, depois de Carolina Salgado o ter acusado de ser o mandante da agressão ao ex-vereador de Gondomar RicardoBexiga. O presidente da SAD azul e branca já foi constituído arguido nesse inquérito, tendo negado, igualmente, as acusações que lhe eram feitas pela ex-companheira.
Pinto da Costa está também a ser investigado pela alegada fuga de informação que lhe terá permitido fugir para Espanha, no dia em que a PJ cumpria mandados de busca à sua casa.
CAROLINA TESTEMUNHA CREDÍVEL
ww Maria José Morgado defendeu a credibilidade do depoimento de Carolina Salgado. O facto de ser ex-mulher do presidente portista não foi tido como um factor de descredibilização, mas sim o contrário. “A credibilidade da testemunha resulta da razão de ciência desses factos, da sua proximidade com os acontecimentos, independentemente doutras considerações estranhas ao objecto destes autos”, pode ler-se no despacho que determinou a reabertura do inquérito, onde a magistrada esclarece que a forma como a “testemunha viveu com alguns dos arguidos (...) longe de lhe retirar credibilidade lhe atribui verosimilhança e verdade material”.
A mesma argumentação foi usada para reabir o caso envolvendo o jogo Beira-Mar/FC Porto, arbitrado por Augusto Duarte e que pode levar Pinto da Costa ao banco dos réus.”Em auto de inquirição presidido pelo Ministério Público (...) a testemunha prestou declarações que são necessária e penalmente relevantes, vindo a indiciar claramente a existência de dádivas patrimoniais por parte dos arguidos ao árbitro Augusto Duarte, com vista ao favorecimento da equipa do Porto”, pode ler-se também noutro despacho que determinou a reabertura de mais um inquérito.
DEPOIAMENTO FUNDAMENTAL
Nas suas declarações, prestadas a 9 de Janeiro deste ano, Carolina Salgado esclareceu os pormenores que faltavam na investigação ao jogo FC Porto/Estrela da Amadora. Designadamente que presenciou várias visitas de árbitros a sua casa e que aquelas “não eram de mera cortesia”. “Salientou que era o António Araújo quem tratava de contactar directamente os árbitros. Mas sempre a mando do Jorge Nuno”, refere o despacho de Maria José Morgado, onde se acrescenta: “Estes contactos serviam para combinar prendas, em dinheiro, mas também em objectos ou favores sexuais. (...) Os termos fruta, fruta de dormir e café com leite corresponderiam a serviços de acompanhamento sexual, praticados por raparigas contratadas por AntónioAraújo. Também o Reinaldo Teles e o JoaquimPinheiro [seu irmão] intermediariam este tipo de serviços, indo buscar as meninas aos bares da cidade do Porto”. Carolina Salgado acrescentou depois que a oferta de prostitutas, naquele caso, teve como objectivo compensar a equipa de arbitragem por ter favorecido o FCP.
BENFICA E SPORTING NÃO COMENTAM
Os dois grandes de Lisboa não comentam a acusação que pende sobre Pinto da Costa no âmbito do processo ‘Apito Dourado’.
Contactado pelo CM, Salema Garção, director de comunicação dos leões limitou-se a dizer que não comentava o assunto, enquanto o seu homólogo do Benfica, Cunha Vaz, adoptava idêntica atitude.
“O Benfica não tem nada que reagir sobre este assunto. Apenas alertámos a Justiça para a necessidade de levar as coisas até ao fim e uma vez que o processo avançou, o presidente do Benfica não disse mais nada”, observou.
Para que não restassem dúvidas, Cunha Vaz afirmou ainda que o Benfica não exerce “pressões” sobre a Justiça e aguardará “serenamente” as conclusões.
ALÍPIO RIBEIRO: 'GUERRA À CORRUPÇÃO É PRIORIDADE'
O director nacional da PJ afirmou ontem que o combate à corrupção é uma “prioridade”, mas frisou que a situação em Portugal não é muito grave.
“É preciso dizer que os números portugueses não são tão disfuncionais como alguma retórica pode deixar parecer”, afirmou Alípio Ribeiro, na inauguração da exposição “Contra a Corrupção: Integridade e Transparência” na Faculdade de Direito do Porto, iniciativa da PJ, DGI e IGF.
As estatísticas apresentadas indicam que Portugal surge no 19º lugar na lista de custos de corrupção nos negócios entre 105 países. “Não sei onde está o maior problema de corrupção, mas há ideia de que há muitos centros de decisão no poder local e se há muitos centros de decisão, há mais hipóteses de ocorrer corrupção”, frisou.
LAMEIRAS E PAULO SILVA ILIBADOS
O Ministério Público arquivou os indícios de crime contra os árbitros Luís Lameira e Paulo Silva no âmbito da investigação ao jogo FC Porto-Estrela da Amadora em 2004 (os dragões venceram por 2-0).
Os dois árbitros ficaram como testemunhas do Ministério Público no processo que tem como principal arguido o presidente do Futebol Clube do Porto, Jorge Nuno Pinto da Costa.
“Não fiz nada! Apenas dei o número de telefone do senhor António Araújo a quem mo pediu”, afirmou indignado o árbitro Luís Lameira.
Por seu turno, o árbitro Paulo Silva não foi acusado no processo – o designado ‘caso da Fruta’– , dado que se provou que apenas se encontrou, por acaso, com o dirigente portista Reinaldo Teles, durante um jantar alegadamente oferecido à equipa de arbitragem de Jacinto Paixão.
No caso, o presidente do Futebol Clube do Porto, foi acusado do crime de corrupção desportiva no âmbito das investigações do processo ao jogo FPorto-Estrela da Amadora em 2004, conhecido como ‘caso da fruta’.
PÔNCIO:'É UMA PERSEGUIÇÃO'
Pôncio Monteiro, membro do Conselho Superior do FC Porto, confessou estar cansado de “toda esta perseguição ao FC Porto”.
“Já começa a ser demais este tipo de actuações. Toda esta perseguição ao FC Porto, que tem tido ao longo do seu historial vitórias e mais vitórias”, garantiu.
Pôncio Monteiro afirmou ainda manter toda a confiança no presidente portista Pinto da Costa: “Não tenho nenhum elemento que me faça desconfiar dele. Estive lá muito tempo e nunca assisti a coisas suspeitas”.
NOTAS
LIVRO ABALOU INVESTIGAÇÃO
Após a publicação do livro, Pinto Monteiro nomeou Maria José Morgado para investigar as certidões do Apito Dourado.
ACUSAÇÕES VÁRIAS
No livro ‘Eu, Carolina’, a autora relatava algumas situações de alegada corrupção a árbitros, em casa de Pinto da Costa
FASE FINAL
Nos próximos dias deverão ser conhecidos outros despachos da equipa liderada por Maria José Morgado. O Apito Dourado está na fase final.
LOBO XAVIER
“Ao MP hoje é muito fácil acusar, porque põe tudo na mão do juiz. Esté o terceiro ou quarto episódio dos mesmos factos”, disse Lobo Xavier na SIC.
HORTÊNCIA CALÇADA
A coordenadora do DIAP Porto disse ontem que o caso “foi reaberto só pelas declarações de Carolina Salgado, posteriores ao arquivamento”.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)