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“Está na hora de dar um grito”

Há estudantes, trabalhadores e desempregados, portugueses e estrangeiros. Estão revoltados com o sistema e querem “mudar o mundo”.
31 de Maio de 2011 às 00:30
Na cozinha improvisada do acampamento eram ontem servidas refeições a activistas e a alguns sem-abrigo
Na cozinha improvisada do acampamento eram ontem servidas refeições a activistas e a alguns sem-abrigo FOTO: Mariline Alves

Um acampamento feito de toldos, lonas e caixas de cartão nasceu há dez dias no Rossio, junto à estátua de D. Pedro IV. Inspiradas pelas ‘acampadas’ de Madrid e Barcelona, dezenas de pessoas, entre estudantes, trabalhadores e desempregados, pretendem chamar a atenção para as "injustiças do modelo capitalista" dominante. "Está a nascer uma força de resistência contra a exploração. Não façam de nós máquinas", afirma Ricardo Salta, 28 anos, que se define como "empreendedor social".

O acampamento tem uma cozinha, onde todos ajudam. Muitos sem-abrigo da zona juntam-se e recebem uma refeição. O dinheiro vem de "doações" da população e dos próprios activistas. As necessidades fisiológicas são feitas nos cafés da zona. "O McDonald’s já não deixa", confessa Ricardo Salta. Muitos vão a casa tomar banho; noutros, é notório que o corpo já não há muito não vê água e sabão. Por enquanto, as autoridades nada fizeram para obrigar à retirada do acampamento.

O CM perguntou à Câmara de Lisboa se houve queixas de comerciantes e se pretende tomar alguma medida, mas não obteve resposta.

Para o italiano Andrea Menegale, de 22 anos, estudante Erasmus em Design Multimedia, é preciso "uma revolução cultural do pensamento. As pessoas são mais importantes do que o dinheiro". Alguns cartazes espelham as ideias defendidas: "A revolução está aqui e precisa de ti" ou "se votar mudasse algo, seria proibido".

Na nova comunidade, as decisões são partilhadas. Todos os dias, às 19h00, há uma assembleia popular em que se discute de tudo. "Tu tens as tuas ideias mas quando ouves as dos outros pensas: sim isso também faz sentido! Está a ser a melhor aprendizagem da minha vida", diz a espanhola Isabel Megias, de 26 anos, que vive em Lisboa, no âmbito do Serviço de Voluntariado Europeu: "Está na hora de dar um grito, temos ‘ganas’ de mudar o mundo, que todos contemos por igual e tenhamos voz." Os ‘indignados’ não têm previsão de saída do Rossio.

"AS PESSOAS TÊM DE CONSUMIR COM CONSCIÊNCIA"

Em Coimbra, o movimento instalado na praça 8 de Maio dedicou o dia de ontem à reutilização. Uma banca de trocas com roupa usada incentiva a população a levar peças e a deixar o que já não é necessário. "As pessoas têm de consumir com consciência", diz Cassilda Pascoal, estudante. A população, ainda que de forma tímida, vai respondendo ao apelo. "Perceberam que estamos a defender um mundo mais justo e solidário", refere Nádia, estudante Erasmus.

GOVERNO ESPANHOL PONDERA INTERVIOR NA PUERTA DEL SOL

As autoridades espanholas ponderam intervir na ‘acampada’ de Madrid, na Puerta del Sol, depois de o governo regional e a autarquia terem exigido o seu levantamento, por questões de segurança e salubridade. Os activistas de Madrid decidiram, num plenário com três mil pessoas, prosseguir por tempo indefinido. Em Barcelona, o movimento recuperou após a carga policial. Há ‘acampadas’ em 26 cidades espanholas.

 

LISBOA ROSSIO PROTESTO PUERTA DEL SOL
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