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Estado ainda não paga vacina para cancro

Todos os anos, morrem em Portugal cerca de 300 mulheres de cancro do colo do útero. Por ano, surgem 900 novos casos desta doença que, a partir de agora, pode ser prevenida através de uma vacina. A novidade relança a esperança de redução dos números que fazem de Portugal um dos piores da Europa, com um único obstáculo: o preço que chega aos 480 euros. A vacina destina-se a meninas e mulheres entre os nove e os 26 anos.
15 de Janeiro de 2007 às 13:00
Se, até agora, ter hábitos de vida saudáveis era a única forma de prevenção do cancro do colo do útero, com a chegada de uma nova vacina, destinada a jovens entre os nove e os 26 anos, que começa hoje a ser vendida em Portugal, é possível evitar uma das doenças que mais mulheres mata em todo o Mundo. Mas nem tudo são boas notícias. É que a certeza de um acesso generalizado à nova terapia fica ameaçada pelo seu custo, apenas suportável por algumas bolsas.
Ao todo, são 480 euros (160 euros por cada uma das três doses), que os utentes têm de pagar na totalidade, uma vez que não há qualquer comparticipação estatal. Um custo que poderia chegar, se o Estado assumisse na totalidade os gastos, aos 442 milhões de euros, tendo em conta que há, segundo elementos estatísticos da Direcção-Geral da Saúde, 922 mil jovens com idades entre os dez e os 24 anos.
Fonte do laboratório que vende a a vacina inovadora, o Sanofi Pasteur MSD – divide a comercialização com o laboratório que desenvolveu a vacina, Merck – confirmou ao CM que o pedido de comparticipação já foi feito, mas “apenas recentemente”, cabendo agora ao Instituto Nacional da Farmácia e do Medicamento (Infarmed) avaliar a solicitação e decidir se o Estado vai ou não dividir a despesa com os utentes.
Até lá, só alguns vão poder comprar a vacina, lamenta Daniel Pereira da Silva, ginecologista e especialista do Instituto Português de Oncologia de Coimbra. O médico compreende que este é um grande investimento para o Estado, mas salienta que “vale a pena ser feito”. E não tem dúvidas. “É preciso que as autoridades entendam que é uma aposta que vai reduzir os gastos com a saúde. Se tivermos em conta que morrem, entre nós, cerca de 300 mulheres por ano, e que Portugal continua a ser, entre os países da União Europeia, aquele que apresenta das maiores taxas de incidência da doença, então faz todo o sentido custear a vacina, pelo menos para as jovens entre os 11 e os 16 anos.” Até porque, acrescenta ainda, a prevenção primária deste tipo de cancro “só é possível com a vacina”, que permite reduzir até 70% da incidência da doença. “E se formos a ver, há outras vacinas no plano nacional com menos impacto para a saúde pública que esta.”
Por enquanto, a vacina contra o cancro do colo do útero está também fora do Plano Nacional de Vacinação. Mas fica a promessa da Direcção-Geral da Saúde (DGS) de uma análise cuidada dos benefícios e custos, que pode, no futuro, dar a todos a oportunidade de beneficiar de uma profilaxia única do género. “Sempre que surgem vacinas novas, a DGS estuda-as e avalia os seus benefícios para a saúde pública. Mas isso leva o seu tempo”, refere Graça Freitas, subdirectora-geral da Saúde. “Nunca se disse que a vacina não seria introduzida no plano nacional. Mas só depois de feitos os devidos estudos e de apresentada uma proposta ao Ministro da Saúde é que a decisão poderá ser tomada.”
Papiloma
Chama-se Gardasil e é a primeira do género aprovada no Mundo para lutar contra uma doença que, todos os anos, mata 300 mulheres em Portugal. A nova terapia foi desenhada para prevenir, em 70%, as infecções do colo do útero provocadas pelos tipos 6, 11, 16 e 18 do Papilomavírus Humano (HPV), um agente que, apesar de ter um nome invulgar, é comum entre as doenças sexualmente transmitidas.
“O alvo principal da vacina são as jovens entre os 11 e os 16 anos. O ideal é que seja administrada antes da primeira relação sexual”, explica ao CM Daniel Pereira da Silva. Até aos 26 anos, aconselha-se a vacina, mas depois desta idade, explica, nada há que comprove a eficácia da profilaxia.
APROVAÇÃO EUROPEIA
Em Setembro do ano passado, a Agência Europeia do Medicamento aprovou a nova vacina de prevenção do cancro do colo do útero, depois de, antes dela, em Junho, a entidade norte-americana que regula o sector do medicamento ter feito o mesmo.
COMPARTICIPAÇÃO
Por cá, a vacina é apresentada esta semana, de uma forma mais formal, aos médicos e disponibilizada nas farmácias, a partir de hoje, mediante receita médica. De acordo com o laboratório que a comercializa foi feito, recentemente, um pedido, entregue ao Instituto Nacional da Farmácia e do Medicamento (Infarmed), para que a terapia venha a ser comparticipada pelo Estado.
AVALIAÇÃO PELO INFARMED
Depois de recebido o pedido, cabe ao Infarmed fazer uma avaliação económica e farmacoterapêutica do medicamento. Tem, de acordo com as normas que regulam essa avaliação, 90 dias para se pronunciar, findos os quais deverá surgir uma decisão.
DECISÃO FINAL
Caso o medicamento venha a ser comparticipado, há ainda que definir a taxa de comparticipação, processo que culmina com a publicação dessa informação em Diário da República.
PLANO DE VACINAÇÃO
A partir do momento em que é aprovada uma nova vacina, a Direcção-Geral da Saúde dá início a um processo de avaliação dos custos e benefícios para decidir se a mesma deverá ou não ser introduzida no plano nacional de vacinação e, desta forma, ter acesso generalizado.
EFICÁCIA
A vacina é composta por três doses, tendo os ensaios clínicos revelado uma eficácia de 100 por cento, resultado do cumprimento integral do tratamento. Se forem tomadas apenas duas doses perde a eficácia.
DEFINIDA COMO INCENTIVO À PROMISCUIDADE
Seria de esperar que se o esforço da Ciência e Medicina conseguissem criar uma vacina contra a ameaça do cancro todos deviam de a receber de braços abertos e de a desejar. Foi assim na maior parte das regiões do Globo com a vacina que previne a infecção por papilomavírus humano (HPV), o principal responsável pelo cancro do colo do útero. Mas houve excepções. Nos Estados Unidos, a aprovação da vacina, única no Mundo, ficou marcada pela polémica, dividindo a sociedade. De um lado, os que a aplaudiam; do outro, os que lhe chamaram a vacina da “promiscuidade”, apontando o dedo à inovação e acusando-a de fomentar o sexo entre os mais jovens.
Foi dos sectores mais conservadores que começaram a chover críticas e nem mesmo os argumentos a favor da vacina, que incluem a possibilidade desta salvar a vida a milhares de mulheres, fizeram vacilar os que consideram que a sua administração pode adiantar a idade média da primeira relação sexual entre os adolescentes.
A polémica estalou quando, no estado norte-americano do Michigan, se começou a decidir se a vacina seria ou não obrigatória para as meninas com onze e 12 anos. Os protestos começaram entre os grupos religiosos, que consideravam que a ideia atentava contra a liberdade de decisão das jovens. Bridget Maher, do Conselho de Investigação da Família, chegou mesmo a dizer que “administrar a vacina contra o HPV em jovens pode ser potencialmente perigoso, uma vez que há a possibilidade de ser visto como uma licença para o sexo pré-marital”. Mas o senado deu o seu aval e as meninas do Michigan até aos 13 anos têm mesmo de estar vacinadas para poderem passar de ano e prosseguir os seus estudos.
Na mesma altura, cerca de uma centena de juristas escreveram ao Center for Disease Control a alertar para o risco de fazer política com um julgamento que deve ser puramente científico. Nada pode pôr em causa o acesso a uma vacina que pode prevenir uma doença como o cancro do colo do útero.
PORMENORES
O VÍRUS
Os papilomavírus humanos (HPV) são um vírus comum, estando identificados mais de 80 tipos diferentes. Alguns não provocam qualquer problema, enquanto que outros estão na origem de doenças, como o cancro do colo do útero, lesões pré-cancerígenas ou verrugas genitais.
A TRANSMISSÃO
Os HPV são transmitidos entre homens e mulheres por via sexual e alojam-se principalmente na zona genital.
SINTOMAS
Na grande maioria das vezes, a infecção pelo HPV não apresenta sintomas. O vírus pode ficar instalado no organismo por muito tempo sem se manifestar, apesar de poder ser transmitido. Os sintomas podem incluir prurido, dor durante a relação sexual ou corrimento, mas o diagnóstico é feito através de exames ginecológicos.
COMO FUNCIONA A VACINA
A vacina protege contra quatro tipos do vírus do papiloma humano (HPV) 6, 11, 16 e 18, que correspondem a 70% de casos de cancro do colo do útero e 90% dos casos de verrugas genitais
A QUEM SE DIRIGE
Meninas e mulheres entre os nove e os 26 anos
COMO É ADMINISTRADA
- Primeira dose: a data é escolhida pelo médico ou profissional de saúde
- Segunda dose: dois meses depois da primeira
- Terceira dose: seis meses depois da primeira
PREÇO
- Cada dose 160 euros
- Total: 480 euros
COMO PREVENIR
- Usar preservativo nas relações sexuais
- Ter parceiro fixo
- Realizar exames de rotina e consultar regularmente um ginecologista
DUZENTAS PORTUGUESAS NOS ENSAIOS
A nova vacina foi aprovada nos Estados Unidos e na Europa depois de dois anos de ensaios clínicos intensos, que envolveram a participação de mais de 21 mil mulheres espalhadas por todo o Mundo, Portugal incluído. Por cá, cerca de duas centenas de portuguesas, voluntárias do Instituto Português de Oncologia do Porto e Coimbra, contribuíram para dar corpo aos resultados que, apesar das expectativas elevadas, apanharam os cientistas de surpresa. Aguardam-se agora os resultados da sua aplicação.
PREVENÇÃO PARA MENINOS E MENINAS
Em todo o Mundo, o público-alvo da nova profilaxia são as jovens, situação que já mereceu a crítica de alguns especialistas, defensores da necessidade de vacinar os rapazes, que são também transmissores da infecção, podendo ainda sofrer de problemas do trato genital provocados pelos papilomavírus humanos. Segundo um editorial publicado na revista ‘The Lancet’, estudos mostram que a vacinação em ambos os sexos seria mais eficaz que apenas nas meninas. E recorda outras imunizações, como a da rubéola, que teve de ser alterada e passar a incluir os meninos, depois de terem aumentado as taxas de infecção entre as grávidas.
MENINGITE C TARDOU A SER COMPARTICIPADA
Apesar de ser uma das vacinas mais procuradas pelos pais portugueses, durante muito tempo estes foram obrigados a arcar sozinhos com a compra da profilaxia para prevenir a meningite C. Esta foi a última a ser introduzida no plano nacional de vacinação, actualizado em 2005, que a tornou obrigatória e gratuita para os mais pequenos. Só a partir dessa altura foi contemplada a sua aplicação às crianças até aos nove anos, idade largada, no ano passado, aos 18 anos. Um investimento acrescido por parte do Estado, justificado com os seus benefícios.
NÚMEROS
- 274 mil mulheres morrem, todos os anos, no Mundo, vítimas do cancro do colo do útero.
- 12 países em todo o Mundo já aprovaram a vacina, entre eles os Estados Unidos, México, Canadá, França ou Portugal.
- 900 novos casos de cancro do colo do útero são, todos os anos, diagnosticados em Portugal.
- 33% das mulheres estão contaminadas com o papilomavírus humano, que pode evoluir para um tumor maligno do colo uterino.
- 70% dos casos de cancro do colo do útero são evitáveis, graças à vacina, a primeira aprovada no Mundo.
- 100 % de eficácia é a promessa de sucesso, garantida pela nova vacina, agora disponível em Portugal.
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