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Estamos indignados e cansados de fugir

Domingos Oliveira, um dos jovens que conquistou o primeiro Euromilhões para Portugal aceitou dar uma entrevista ao CM, sem fotografias e num lugar escondido, onde conta tudo: a euforia inicial, as solicitações de toda a gente e algum desespero.
16 de Dezembro de 2004 às 13:00
Estamos indignados e cansados de fugir
Estamos indignados e cansados de fugir
Correio da Manhã – Como reagiu ao ganhar o Euromilhões?
Domingos Oliveira – Não tive noção. Fui ao quiosque e vi que era a minha chave. Reagi normalmente e até disse que me tinha saído o Euromilhões. Mas quando vi aquela confusão toda, com televisões e tudo, peguei nos meus filhos e fugi. Como tinha trabalhado na noite anterior e tive de dormir até mais tarde, o Paulo soube primeiro e ficou com a padaria cheia de gente.
– Qual foi a sua preocupação?
– Arranjar maneira de fechar o boletim num cofre, o que fizemos num banco em Guimarães. Depois, eu e o Paulo pegámos em malas com roupa e fomos para parte incerta com as nossas mulheres e os nossos filhos. Nem os nossos familiares sabiam onde estávamos. E nunca estávamos mais do que um dia num só sítio. Assim, ninguém nos reconhecia. Percorremos o País de Norte a Sul, mas sem gastar muito dinheiro. Até porque continuávamos com o mesmo dinheiro que tínhamos na sexta-feira anterior.
– Quando foram à Santa Casa?
– Nunca chegámos a ir. Foi tudo através do banco.
– Nesse período, teve apoio da Santa Casa da Misericórdia?
– Deram indicações à GNR para nos proteger e, ainda hoje, as autoridades fazem rondas regulares.
– Seria possível evitar a vossa identificação?
– Isso seria o ideal. Mas é impossível esconder uma coisa assim tão forte. Ainda para mais houve o problema da padaria do Paulo, que toda a gente identificou imediatamente e foi lá parar tudo.
– Liga-vos muita gente?
– Agora menos. No início foi impressionante. Tivemos de mudar de telemóveis.
– Pediam dinheiro?
– Sim, houve e ainda há muita gente a pedir… ajuda.
– Amigos ou empresários?
– De tudo. Uns amigos, outros nem por isso. Até gente desconhecida.
– Como respondem?
– Para já só respostas negativas. Não podemos andar por aí a distribuir dinheiro sem nexo. Se damos a um, vem logo outro e mais outro. O dinheiro é muito, mas não é nada que não acabe. Admito ajudar, mas só causas muito fortes.
– Qual foi o banco que teve a sorte de agarrar os milhões?
– Foi mais do que um. Mas defendo os bancários. Os directores dos bancos onde sempre tive conta – abri a primeira aos 14 anos – não me chatearam. Quando lá fomos, explicaram que sabiam que a nossa cabeça devia estar muito cheia. Muita gente dos bancos chateou-nos, sobretudo dos balcões de menor dimensão. Mas acabámos por optar pelos bancos com quem sempre trabalhámos e confiamos.
– São muito pressionados?
– Imenso. Estou saturado. E o Paulo também. Temos sido muito perseguidos. Por gente de todos os sectores sociais, incluindo jornalistas. Já chega. Estão em causa famílias, que têm uma vida simples. Este é um País de artistas. Tudo pode acontecer. É um perigo e temos de resguardar-nos. O dinheiro é uma ajuda, mas também pode ser uma desgraça.
– Deixou logo de trabalhar na fábrica têxtil?
– Deixei de trabalhar, assim como a minha mulher. Com este dinheiro podemos ser os nossos patrões. Mas da maneira que isto está, o melhor mesmo era trabalhar.
– Tem saudades dos tempos pré-Euromilhões?
– Ahhh!…Quando saiu o prémio, pensei que tudo tinha mudado. Sempre foi o meu sonho ter tanto dinheiro. Mas, nestas últimas semanas, já disse para mim que preferia a vida antiga. Isto tem sido um inferno. Até os meus irmãos são perseguidos e pressionados. Estou mesmo muito cansado. Tanto eu como o Paulo, não temos parado. Andamos sempre a fugir de um lado para o outro. Estamos indignados com isto tudo… e cansados de andar a fugir.
– E os seus filhos?
– A minha filha, de sete anos, vai perder um ano na escola. Tive de tirá-la de lá. E também tirei do infantário o meu filho, de quatro anos. O Paulo, naturalmente, está sempre com o filho de ano e meio.
– Quanto ao futuro?
– Não vou decidir nada tão cedo. A minha esperança é que este frenesim acabe. Talvez daqui a um ano comece a tomar decisões. Para já, não posso dizer que vou fazer isto e aquilo, porque não sou nenhum rei ou senhor absoluto. Posso dizer que vou comprar isto ou aquilo, mas isso pode não acontecer, ou porque eu mudei de ideias ou porque o dono não me quis vender.
– Vai ajudar os seus familiares?
– Obviamente, vou ajudar os meus irmãos e também os irmãos da minha mulher.
PRENDAS PARA OS IRMÃOS
Os irmãos dos dois euromilionários já receberam a promessa de ajudas. No caso do Paulo, os contributos para os seus oito irmãos e para o irmão da mulher deverão ser consubstanciados no Natal. “Ninguém sabe, é uma surpresa”, comentou ao CM a mãe de Paulo Pereira.
Em face da juventude dos familiares e das suas carências (a mãe vive numa casa alugada, com cinco filhos), o euromilionário de Conde S. Martinho vai optar por promover situações de vida mais favoráveis, ao nível de empregos e de habitação própria.
No caso de Domingos Oliveira, em Guardizela, a situação é diferente, porque o irmão mais novo e os familiares têm a vida organizada. Os apoios serão de âmbito financeiro, de valor igual (250 mil euros) para os seus seis irmãos e para os dois irmãos da mulher Carla. Mas nenhum deixará de trabalhar.
VENDEDORES E CARTAS
Têm sido muitos os telefonemas de empresários, sobretudo da construção civil, para fazerem negócio com os euromilionários. “Há pessoas que até enviam cartas, com pedidos de ajuda”, sublinhou Domingos Oliveira. Até o proprietário do quiosque onde foi registado o boletim da sorte, em Moreira de Cónegos, é contactado sistematicamente por promotores imobiliários, a fim de identificar e fornecer contactos dos euromilionários.
“Um até me queria deixar aqui um dossiê enorme, porque diz que quer vender uma casa e gostava de fazer uma proposta aos euromilionários”, revelou Joaquim Pereira, acrescentando que são muitos os “desconhecidos e estranhos” a pedir para chegar até aos homens dos milhões. E também tem recebido cartas no quiosque, onde ainda várias pessoas copiam o boletim sorteado (excepto os cinco números já premiados) e fazem o registo naquele estabelecimento.
"APENAS" UMA AJUDA PARA OBRAS NA IGREJA DE GUARDIZELA
Na paróquia de Guardizela, a população tem comentado que Domingos Oliveira vai pagar as obras da igreja paroquial. Isso foi desmentido pelo euromilionário. “É verdade que prometi ajudar e isso é para cumprir, mas não vou pagar as obras todas, como o povo já anda para aí a dizer”, afirmou ontem ao CM, sublinhando que se trata “apenas de uma ajuda”.
A igreja paroquial de Guardizela, com origens do século XVIII, está em obras de profunda remodelação interior. O exterior, todo em granito, foi já alvo de intervenção de limpeza e revitalização. Actualmente decorrem no interior intervenções de conservação e restauro, nomeadamente de paredes, tectos e pavimentos. No total, o custo das intervenções ultrapassará os 250 mil euros. Por agora, uma ajuda de 50 mil euros é fundamental para assegurar as intervenções essenciais no interior, para que seja possível celebrar ali as eucaristias, que têm sido realizadas numa capela centenária da freguesia em bom estado de conservação, mas com falta de espaço.
PREOCUPAÇÕES
LOCAL SECRETO
Domingos Oliveira aceitou falar ao CM, mas sob o maior sigilo. Só podiam ir ao encontro duas pessoas e com a condição de as fotos, para além de não mostrarem rostos, não apresentarem aspectos que pudessem identificar o local. A segurança é uma das grandes preocupações dos euromilionários.
DAR O CASACO
Até a roupa que trazia vestida era preocupação de Domingos Oliveira. No final da conversa, de cerca de uma hora, acabou por confessar que não deverá vestir outra vez o casaco que vemos na imagem. “Certamente vou dá-lo”, admitiu.
O MESMO CARRO
Paulo Pereira comprou um monovolume de nove lugares. Mas Domingos continua a conduzir o seu velho carro, com mais de dez anos. No entanto, garante que vai ter de muder. “Nem que sejam as matrículas, de trás para a frente”, gracejou.
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