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ETA quer base em Portugal

Polícia espanhola acredita que terroristas bascos pretendem armazenar no nosso país armas e explosivos para futuros atentados em Espanha.
12 de Janeiro de 2010 às 00:30
Segundo a polícia espanhola, os bidões encontrados no interior da carrinha abandonada pelos terroristas iriam ser usados para enterrar armas e explosivos no nosso país – uma prática usada há muito pela ETA em França
Segundo a polícia espanhola, os bidões encontrados no interior da carrinha abandonada pelos terroristas iriam ser usados para enterrar armas e explosivos no nosso país – uma prática usada há muito pela ETA em França FOTO: Mariam A. Montesinos/Epa

A polícia espanhola tem informações há algum tempo que apontam no sentido de a ETA pretender montar uma base operacional em Portugal, nomeadamente para o armazenamento de armas, explosivos e documentos com vista a futuros ataques bombistas em Espanha. E essa convicção foi reforçada pela captura em Torre de Moncorvo, no domingo, dos dois suspeitos de terrorismo detectados quando se dirigiam para o nosso país com armas e material explosivo, aparentemente para enterrar discretamente em zona isolada para posterior utilização – prática há muito seguida pela ETA em França.

A natureza do material apreendido na carrinha abandonada pelos suspeitos na localidade espanhola de Bermillo de Sayago, principalmente dez bidões idênticos aos que os terroristas bascos costumam usar para enterrar armas e explosivos em Espanha e França, parece indicar que, quando foram detectados pela polícia espanhola junto à fronteira portuguesa, os suspeitos vinham ao nosso país criar um dos seus ‘zulos’ – pequenos esconderijos de armas, explosivos, dinheiro e documentos falsos, normalmente enterrados em zonas de matagal isoladas.

Dada a pouca quantidade de explosivos transportados na carrinha, as autoridades espanholas acreditam que este seria apenas um primeiro carregamento e que a operação envolveria pelo menos mais um transporte de material.

Outro possibilidade admitida por fontes ligadas à investigação, citadas ontem pela imprensa espanhola, é a de que, além da base logística, os terroristas bascos pretendiam criar em Portugal uma fábrica de bombas, para posterior utilização numa campanha sustentada de atentados em Espanha.

Entretanto, depois de um longo interrogatório, Garikoitz García Arrieta e Iratyxe Ortiz de Barrón foram ontem à noite, já passava das 21h00, colocados em prisão preventiva pelo juiz Carlos Alexandre, no Tribunal Central de Instrução Criminal. As autoridades portuguesas receberam o mandado de detenção europeu, com pedido de extradição, que será agora apreciada pelo Tribunal da Relação. A extradição pode acontecer no espaço de 15 dias a três semanas e os dois serão julgados em Espanha pelos crimes cometidos cá: resistência e coacção sob funcionário [militares da GNR] durante a detenção e falsificação de documentos.

PORMENORES

SUSPEITOS NÃO FALAM

Enquanto estiveram detidos na Unidade Nacional de Combate ao Terrorismo da Polícia Judiciária, em Lisboa, os suspeitos recusaram-se a prestar qualquer depoimento.

ORDENS DE DETENÇÃO 

O juiz espanhol da AudiênciaNacional Fernando Grande-Marlaska foi quem emitiu as ordens europeias de detenção. Deverão ser entregues à Justiça espanhola no prazo de um mês.

APOIO EM PORTUGAL

José Manuel Anes, do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo, admitiu ontem a hipótese dea organização terrorista basca ETA ter algum apoio em Portugal e pede mais vigilância.

MATERIAL APREENDIDO

Além dos bidões, a carrinha apreendida em Espanha transportava dez quilos do explosivo pentrita, uma pistola, um revólver, uma espingarda com mira telescópica, sensores de luz e movimento, temporizadores, matrículas em branco e ainda uma prensa usada para forjar matrículas.

EXAMES MÉDICOS

O advogado dos suspeitos,José Galamba, disse que Garuikoitz está maltratado no rosto e nas costas e que tem um hematoma. Disse que vai pedir exames médicos.

NÃO À EXTRADIÇÃO

A Associação de Solidariedade com o País Basco reclama queos dois independentistas bascos 'não sejam extraditados', por 'risco de tortura em Espanha'.

GUARDA CIVIL PROCURA UM TERCEIRO SUSPEITO

A polícia espanhola está a tentar localizar em Elorrio (Biscaia) um terceiro suspeito, Luis María Zengotitabengoa, que terá alugado a carrinha interceptada com explosivos em Bermillo de Sayago (Zamora), cujo condutor, Garuikoitz García Arrieta, acabou por ser detido em Portugal. Recorde-se que Iratyxe Yáñez Ortiz de Barron, também detida no nosso país, viajava num outro veículo.

Segundo fontes da polícia citadas pelo jornal ‘El Mundo’, foi encontrada na carrinha interceptada em Zamora um passaporte de Zengotitabengoa, que está foragido desde 2003, após ser condenado a três anos de prisão por violência de rua. Os agentes da divisão antiterrorista da Guarda Civil fizeram ontem buscas em duas casas de Elorrio e apreenderam vários documentos e um computador. De referir que um irmão de Luis Zengotitabengoa, Antonio, está também foragido desde 2003, após ter sido condenado a 13 anos e três meses de prisão por participação em incidentes ocorridos nas festas de San Sebastián, em Agosto de 2000.

A Guarda Civil efectuou ainda buscas em Vitória, na casa dos pais de Iratyxe Yáñez Ortiz, e também num apartamento em Aretxabaleta, em Guipúscoa. Ortiz é suspeita de ter participado na ofensiva bombista levada a cabo pela ETA em Burgos e Maiorca em Julho do ano passado.

O ADVOGADO DAS ETARRAS

O advogado do homem e da mulher que estão detidos após fuga às autoridades espanholas e portuguesas é José Galamba. O causídico é conhecido por em 1994 ter defendido Telletxea Maia. Venceu a causa e o etarra acabou por ficar a viver em Portugal, não sendo extraditado. José Galamba foi, segundo o próprio, 'contactado por uma advogada espanhola, talvez contactada pela família dos dois, para defender' os presumíveis etarras. Mas o português assume que 'a conjuntura é mais favorável ao Estado espanhol, por serem dois estados socialistas e pela importância que a sociedade dá hoje em dia ao terrorismo global'. Denuncia ainda a 'pressão política intensa feita por Espanha para que os dois sejam extraditados'. José Galamba assume ainda ser 'simpatizante' da independência do País Basco.

DCIAP REPRESENTADO POR PROCURADOR DO FREEPORT

A investigação ao caso dos etarras detidos em Portugal foi conduzida pelo procurador Vítor Magalhães, do Departamento Central de Investigação e Acção Penal, estrutura do Ministério Público vocacionada para as investigações mais complexas. Vítor Magalhães, de 54 anos, nasceu em Angola e esteve muitos anos na comarca de Sintra – actualmente é um dos dois procuradores responsáveis pelo processo Freeport, juntamente com Paes Faria. Estes dois magistrados, recorde-se, foram constituídos arguidos no âmbito de um processo-crime, decisão tomada pelo procurador Varela Martins, que assumiu depois a prática de erro. Vítor Magalhães foi ontem o magistrado que representou o MP durante os interrogatórios aos dois presumíveis membros da ETA que foram interrogados pelo juiz Carlos Alexandre.

O JUIZ DOS CASOS DIFÍCEIS

O juiz Carlos Alexandre, 48 anos, preside ao Tribunal Central de Instrução Criminal e foi ontem chamado a decidir sobre o futuro dos dois etarras. Acompanha os processos mais complexos em Portugal – Operação Furacão, submarinos, Portucale, entre outros, e foi quem prendeu Oliveira e Costa no caso BPN, em 2008, e aplicou a prisão preventiva ao suspeito de matar à bomba o dono do bar O Avião. Em Setembro de 2007, a sua casa em Linda-a-Velha foi alvo de um assalto. Uma arma antiga (já desactivada) foi deixada em cima de uma fotografia do filho e no quarto deste também foram espalhadas fotografias pessoais em cima da cama, o que levou o Conselho Superior da Magistratura a requerer segurança pessoal para o juiz. Todos os casos deste juiz são mediáticos, mas ele não gosta das luzes da ribalta.

TRIBUNAL: COBERTURA MEDIÁTICA

Desde bem cedo que dezenas de jornalistas se juntaram ontem no Campus de Justiça, em Lisboa, onde os detidos foram ouvidos. Entre estes estavam alguns oriundos do país vizinho

MINISTRO: JULGAMENTO

O ministro da Justiça, Alberto Martins, admitiu a possibilidade de os dois serem julgados em Espanha, após aplicação de mandado de detenção europeu e não do processo de extradição

DETIDOS: CARROS SEPARADOS

Os dois alegados membros da ETA detidosem Torre de Moncorvo chegaram ao Campusde Justiça, em Lisboa, em veículos separados. Eram cerca das 14h00

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