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Falta dinheiro para segurar a costa

Não há dinheiro para assegurar a protecção do Litoral, embora o relatório ontem divulgado sobre a zona costeira alerte para “um previsível agravamento da ocorrência de fenómenos extremos e de fenómenos de recuo da linha da costa”.

11 de fevereiro de 2006 às 13:00

O ministro do Ambiente e Ordenamento do Território, Nunes Correia – que ontem apresentou o relatório ‘Bases para a Estratégia de Gestão Integrada da Zona Costeira Nacional’ –, diz colocar “as questões do Litoral no topo” das preocupações do Ministério, mas reconhece que “o momento não é o mais propício em termos financeiros, pelo que para este ano estão reservados 33 milhões de euros para intervenções no Litoral”.

Dinheiro que não será canalizado para implementar nenhum dos nove planos de ordenamento da costa portuguesa, mas para “a realização de acções prioritárias como, por exemplo, demolições”.

RISCOS SÉRIOS

A costa portuguesa corre, no entanto, sérios riscos de erosão. Num relatório recente da Comissão Europeia sobre as questões do Litoral – ‘Living with Coastal Erosion in Europe: Sediment and Space for Sustainability’ – Portugal surge em quarto lugar entre 18 países em análise com as maiores incidências de processos erosivos costeiros. O relatório precisa que quase um terço – 28,5 por cento – da orla costeira nacional está comprometida.

Este indicador é confirmado pelos resultados constantes no relatório ontem apresentado pelo Governo. As frentes edificadas em risco de exposição às acções directas e indirectas do mar ocupam a maior parte do Litoral do Norte e do Algarve e alguns pontos do Centro.

Segundo Fernando Veloso Gomes, coordenador do projecto de Relatório do Grupo de Trabalho para a futura elaboração das Bases para a Estratégia de Gestão Integrada da Zona Costeira Nacional, a “acção erosiva coloca em perigo milhares de casas pelo que se torna necessário efectuar demolições e deslocação de pessoas antes que seja o mar a destruir as casas”.

Só a partir do próximo ano e até 2013, o ministro do Ambiente, aproveitando o novo ciclo de fundos comunitários, espera dar início a “três ou quatro” grandes projectos de intervenção global no Litoral.

Nunes Correia precisou que esses projectos envolverão parcerias entre as autarquias e o Estado, à semelhança do que está previsto para a Ria Formosa, onde inicialmente foi apontado o final do ano passado para a conclusão do processo de demolições.

ESPOSENDE SOB AMEAÇA DO MAR

O presidente da Câmara de Esposende, João Cepa, sublinhou a sua preocupação pelo mar colocar em perigo Esposende. “Há cerca de dois meses o mar galgou a restinga do Cávado e a praia de Marinhas, alagando habitações e campos agrícolas”, precisou o autarca, acrescentando que “não foram tomadas medidas para evitar que o mar coloque em perigo Esposende”, apesar do problema de erosão costeira que atinge o concelho “estar a ser seguido pelo Governo”. “No Instituto de Conservação da Natureza sou informado de que existem fortes contenções orçamentais, pelo que o dinheiro é destinado aos ordenados e despesas correntes. Não há dinheiro nem para gasolina, quanto mais para obras”, disse João Cepa. O autarca esclareceu não se opor “à demolição das Torres de Ofir, mas esta não é a prioridade”.

AVEIRO PERDE SEIS METROS POR ANO

Na costa de Aveiro há décadas que as populações vivem confrontadas com o avanço do mar. Uma especialista em erosão da Universidade de Aveiro, Cristina Bernardes, assinala que só entre 1958 e 2002, na faixa que vai do Furadouro (Ovar) a Mira, se registaram, nalguns pontos, “recuos de 230 metros, correspondentes a uma perda média da linha de costa de 6 metros/ano”. E acrescenta: “Existem registos de recuos de 15 metros, durante um único temporal.” O município de Ovar é uma das áreas de costa em risco e, segundo o vereador José Américo, “vão avançar duas medidas imprescindíveis: a recarga dos areais e a deslocalização de povoados clandestinos e em risco, como é o caso de Esmoriz”. Para o autarca, é também importante que, “apenas uma entidade faça a gestão da costa e não cinco ou seis como acontecia até aqui”.

ERIKSSON QUER AVANÇAR EL LAGOS

O seleccionador inglês e antigo treinador do Benfica, Eriksson, mantém a intenção de investir mais de 50 milhões de euros num complexo turístico-desportivo a construir em Bensafrim, no interior do concelho de Lagos, apesar do parecer inicial desfavorável da Associação Portuguesa para o Investimento. O anteprojecto deverá sofrer alguns reajustamentos, mas os pressupostos essenciais do complexo mantêm-se: três hotéis, spa, campo de golfe, mini-estádio com capacidade para oito mil espectadores e mais seis campos de futebol, courts de ténis, centro hípico e uma zona residencial, com um total de dez mil camas. O projecto tem duas vertentes complementares: assenta numa perspectiva turística, mas inclui uma escola de futebol, criando 350 postos de trabalho na região algarvia, onde estão previstas várias intervenções do Governo.

HÉLDER SPÍNOLA - QUERCUS

Ao longo da última década sucederam-se planos, estratégias, programas de intervenção no Litoral sem efeitos práticos. “Esta estratégia será apenas mais um documento para não se concretizar?” questiona Hélder Spínola, presidente da associação ambientalista Quercus.

NUNES CORREIA - MINISTRO DO AMBIENTE

O ministro do Ambiente, Francisco Nunes Correia, classificou como um ‘bluff’ o anterior programa Finisterra (de estratégia para o litoral, aprovado pelo Governo de Durão Barroso). Foi “uma excelente ideia, mas nunca passou de uma promessa”, disse.

VELOSO GOMES - PROFESSOR

O professor Fernando Veloso Gomes, coordenador do projecto de definição das bases para a estratégia da zona costeira nacional, defende “a existência de uma entidade que coordene toda a multiplicidade de instituições que têm autoridades sobre o Litoral”.

EMÍLIA SOUSA - PRESIDENTE DA C.M. ALMADA

A presidente da Câmara de Almada, Maria Emília de Sousa, destacou que “no quotidiano de funcionamento de uma autarquia a existência de uma série de entidades que exercem autoridade sobre o Litoral prejudica a rápida tomada de decisões e uma melhor gestão”.

A ocupação desordenada do Litoral português, sem contemplação pelos riscos naturais – sobre-elevações do nível marinho e ocorrência de temporais, por exemplo – representa um risco grave. Em causa está a segurança humana. Na praia da Areia Branca, Lourinhã, o jardim de uma família foi pela arriba abaixo. Na Costa de Caparica tenta-se impedir o avanço do mar que, todos os anos, ‘come’ um pedaço de areal.

1993

Foram criados os Planos de Ordenamento de Orla Costeira através do Decreto-Lei n.º 306/93, com o objectivo de ordenar a confusão reinante no Litoral português

1998

Foi aprovado, através da Resolução do Conselho de Ministros 86/98 de 10 de Julho, uma Estratégia para a Orla Costeira, com princípios semelhantes aos ontem apresentados

1998-2005

Foram aprovados todos os Planos de Ordenamento da Orla Costeira do Continente, mas a sua aplicação prática tem-se resumido à melhoria dos apoios de praia

2003

Foi aprovado, através da Resolução do Conselho de Ministros 22/2003 de 18 de Fevereiro, o Programa Finisterra, visando a requalificação do Litoral. Não passou do papel

2006

Ontem, dia 10 de Fevereiro, foi apresentado o relatório “Bases para a Estratégia de gestão Integrada da Zona Costeira Nacional”, com nove princípios fundamentais

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