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Filha de milionário acusa vítima

Única descendente de Lúcio Tomé Feteira envolve também o advogado Domingos Duarte Lima em desfalque de herança.
11 de Agosto de 2010 às 00:30
Rosalina e Luís
Rosalina e Luís FOTO: direitos reservados

A filha do português Lúcio Tomé Feteira diz que Rosalina da Silva Cardoso Ribeiro, a companheira do milionário durante 32 anos que foi assassinada no Brasil no final do ano passado, se apropriou de milhões de euros do pai.

'Rosalina apossou-se das contas bancárias do meu pai, quer na Suíça, quer no Brasil, quer na Inglaterra, quer nos Estados Unidos. Ela sacou o dinheiro todo. Foi um valor altíssimo', afirmou Olímpia Feteira, que disputava com Rosalina nos tribunais a herança do milionário português.

De acordo com extractos bancários entregues por Olímpia à polícia do Rio de Janeiro a 3 de Maio deste ano, e referentes apenas a contas na Suíça, Rosalina começou a levantar o dinheiro a 11 de Março de 2001, apenas três meses depois da morte de Feteira, tendo retirado mais de nove milhões de euros. Desses, segundo Olímpia, 5,25 milhões foram depositados numa conta do advogado de Rosalina, o ex--deputado do PSD, Domingos Duarte Lima, através de cinco transferências entre 13 de Março e 22 de Maio desse ano. O advogado garante que é falso.

Rosalina foi assassinada depois de se ter encontrado no Rio de Janeiro com Duarte Lima, em Dezembro de 2009. Saiu do edifício onde residia, na praia do Flamengo, às 19h59, e foi morta duas horas depois. O corpo, com um tiro na testa e outro no peito, foi encontrado na manhã seguinte numa estrada de terra a 90 km do Rio. Estava com todos os seus pertences, menos a identidade e uma pasta com documentos. Duarte Lima confirmou à polícia do Rio, por fax, que se encontrou com Rosalina no dia do crime, mas acrescentou que, depois de conversarem, deixou a cliente junto a um hotel em Maricá, próximo a Saquarema, na companhia de uma mulher loura sobre a qual permanece o mistério.

FORTUNA DIFÍCIL DE PARTILHAR ENTRE FAMÍLIA

Segundo a Lei, metade da herança pertencia à mulher do milionário português, Adelaide Feteira. Por ter falecido, os sobrinhos são os beneficiários directos da herança. Quanto à outra metade da fortuna, foi dividida em três partes diferentes. Um terço foi para a mulher, outro para a filha, Olímpia Feteira Menezes, e o outro dividido entre a fundação (80%), Rosalina (15%) e uma sobrinha de Tomé Feteira, que cuidou da mulher dele até esta falecer e que recebeu os outros 5 por cento.

HISTÓRIAS E UM ROMANCE DE CORDEL

Diz quem o conheceu que era 'um bom contador de histórias'. Mas Lúcio Tomé Feteira, milionário que hoje enche páginas de jornais e a boca de tantas conversas de café, não viveu para ouvir as mil estórias que hoje dele se contam. A sua vida tem ingredientes de romance de cordel, com amores difíceis, dinheiro a rodos, uma filha ilegítima, como se dizia antes do 25 de Abril de 1974.

Lúcio nasceu em 1902, último de cinco irmãos, numa família abastada de Vieira de Leiria, dona de um negócio de limas – a União Tomé Feteira, Lda. Cedo rumou a Angola, onde trabalhou na função pública, emprego magro para tão gorda ambição. No Congo, nos anos 20, começou a multiplicar dinheiro na área dos vidros. E a desdobrar para o Mundo outros negócios: construção civil, imobiliário... Para o Brasil partiu nos anos 40, em protesto contra Salazar, e aí ampliou a já farta fortuna que hoje é fonte de discórdia. Eficiente profissional, foi também bem-sucedido nos amores. 'Era muito mulherengo', disse aos jornais um sobrinho, lembrando 'outros tempos' em que a mulher legítima, Adelaide (mãe do seu filho varão que morreu em 1975), sabia das relações extraconjugais do marido e até de uma filha nascida em 1941, que ele logo perfilhou. Já Rosalina Ribeiro, a mulher de quem se fala estes dias, foi sua secretária e amante fiel desde 1967. Até ao fim, quando Lúcio se foi, aos 98 anos, em 2000. Antes de ela morrer, em Dezembro, tratava de assuntos relacionados com Tomé e debatia-se pela herança com a filha dele, Olímpia de Azevedo Tomé Feteira de Menezes. Estórias da história dele e muitos milhões de euros ainda por contar.

MILHÕES EM GUERRA ENTRE ADVOGADOS PORTUGUESES

Duarte Lima e José Miguel Júdice são as faces mais mediáticas deste caso ainda por resolver. Duarte Lima era o representante legal de Rosalina Ribeiro enquanto Júdice representa a filha do milionário, Olímpia Feteira Menezes, que já interpôs um processo contra Rosalina devido ao desvio de dinheiro de contas na Suíça.

Contactado pelo CM, Duarte Lima respondeu por sms e, em jeito de comunicado, afirma: 'Vi o que está a ser dito nos jornais, que houve verbas da herança que foram transferidas para a minha conta. Falso. Até porque as contas da herança só podem ser movimentadas pela cabeça-de-casal, engenheira Olímpia.' Quanto às relações com a ex-cliente, o advogado reafirma que no âmbito do seu patrocínio, é-lhe 'vedado falar, pelas normas que regem o estatuto do advogado'.

Mas para a Divisão de Homicídios do Rio de Janeiro, Duarte Lima pode ser uma peça-chave no esclarecimento da morte de Rosalina. Apesar de não ser alvo de qualquer acusação, foi o último conhecido a estar com a portuguesa pelo que os investigadores brasileiros gostariam de esclarecer alguns pontos.

QUESTÕES POR RESPONDER

A polícia do Rio de Janeiro quer saber junto de Duarte Lima porque é que o advogado entrou no Brasil por Belo Horizonte e não pelo Rio, o que conversou com Rosalina, que papéis tinha ela na pasta desaparecida e quem era a mulher loura com quem o advogado a deixou.

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