Barra Cofina

Correio da Manhã

Exclusivos
7

Fogo mata jovem bombeira

Josefa Santos, 21 anos, ficou encurralada pelas chamas. Um dos 5 colegas feridos está em estado muito grave.
11 de Agosto de 2010 às 00:30
O corpo de Josefa Santos foi levantado pelos colegas
O corpo de Josefa Santos foi levantado pelos colegas FOTO: Joana Neves Correia

Há 20 horas que Cristiana Josefa Santos, de 21 anos, combatia fogos florestais, com apenas duas horas de descanso. Ontem à tarde, exausta, nem teve tempo de reagir quando o vento mudou de direcção, subitamente, em Lomba, Gondomar. Em segundos, Josefa e outros cinco colegas dos Bombeiros Voluntários de Lourosa, Santa Maria da Feira, ficaram encurralados pelas chamas e pelo fumo. A bombeira, estudante universitária, morreu carbonizada. Diamantino Sá, 53 anos, ficou com 72% do corpo queimado. Outros quatro voluntários sofreram ferimentos ligeiros. Em dez dias, morreram três bombeiros.

Conhecida por Josefa, era bombeira de 3ª classe há dois anos, depois de ter passado por um estágio prolongado, na corporação de Lourosa. Foi a melhor classificada nos exames de promoção de nível, mas a mãe estava sempre a dizer-lhe para deixar a corporação. Ontem, quando soube da tragédia, os gritos da mulher, que recentemente perdeu um filho, ecoavam na casa em Fiães, Santa Maria da Feira.

Diamantino Sá foi ontem à noite transferido para o Hospital da Prelada, no Porto, e o seu estado de saúde inspira muitos cuidados. O filho do voluntário, com 18 anos, estava a regressar do combate a um fogo em Arouca quando soube que o pai tinha ficado gravemente ferido no incêndio.

Serafim Almeida, de 26 anos, Frederico Oliveira, de 31, Carlos Castanheira, de 40, e Hélder Oliveira, de 28, são os outros quatro voluntários que sofreram ferimentos ligeiros no fogo em Lomba. Desde Maio, no início da 'fase Charlie', que Josefa estava a trabalhar na Equipa de Combate a Incêndio dos bombeiros, os grupos especialmente constituídos para lutar contra as chamas na época de maior risco.

A jovem, natural de Fiães, na Feira, era estudante em Paredes, onde tirava uma licenciatura em Engenharia Biomédica. 'O sonho dela era a Medicina, mas também tinha a paixão dos bombeiros. Sempre gostou de ajudar os outros', contou ao CM uma amiga de infância da vítima. Aos fins-de--semana, Cristiana Josefa trabalhava num supermercado, em São João de Ver.

'ERA UMA BOMBEIRA EXEMPLAR'

Consternação e dor. Eram estes os sentimentos que reinavam ontem à tarde no quartel dos Bombeiros de Lourosa, Santa Maria da Feira, que perdeu um dos seus mais jovens elementos. 'Não quero acreditar nisto', desabafava um dos bombeiros ferido no incêndio da Lomba, quando regressava ao quartel. Em silêncio, mas com lágrimas e abraços, os voluntários recolheram ao interior do edifício.

Cristiana Josefa Santos tinha apenas 21 anos e era querida de todos. 'Era uma bombeira exemplar, e nos incêndios fazia o mesmo trabalho que um homem', disse ao CM um dos voluntários.

CHAMAS DOMINADAS AO QUINTO DIA

Pela quarta noite consecutiva, as gentes de São Pedro do Sul não pregaram olho para ajudar os bombeiros a travar o avanço das chamas, que desde sexta-feira devastavam sem piedade as serras do concelho. Só ontem de manhã é que ficou dominado o fogo, que começou em Candal e devastou 'entre três a quatro mil hectares de floresta integrada na Rede Natura 2000', como revelou o vice-presidente do município, Adriano Azevedo. Ontem à noite havia 21 incêndios activos no País – entre os mais de 380 do dia –, envolvendo 5 mil bombeiros. Em Gouveia, ardeu uma casa desabitada e palheiros, com as chamas a aproximarem-se de povoações.

MENINA MORRE CARBONIZADA EM PALHEIRO

'A minha menina morreu no dia dos meus anos e ontem os pais fizeram 12 anos de casados', gritava, ainda em choque, Fernando Pedro, avô da pequena Diana Almeida, a menina de oito anos que ontem morreu carbonizada num palheiro na aldeia de Seloures, em Carrazeda da Ansiães. Uma amiga, de 12 anos, escapou às chamas por uma janela.

As causas do fogo estão a ser investigadas pela PJ. 'Andavam à procura de gatos recém-nascidos', contou Alzira Nascimento, uma moradora, que acredita que as meninas tenham usado uma vela ou fósforos para iluminar o palheiro.

As chamas deflagraram cerca das 12h30, mas só às 16h00 foi encontrado o corpo carbonizado. Diana ficou retida perto da porta de saída do palheiro quando o telhado ruiu. 'Não acredito mais em Deus, porque se existisse tinha salvado a minha menina das chamas', repetia, em pranto, Fernando Manuel, tio de Diana. Os pais da menina ficaram em estado de choque e tiveram de receber apoio psicológico do INEM.

'PRIMEIRO A MORRER EM 122 ANOS'

Foi o dia mais triste na vida dos Bombeiros Voluntários de Alcobaça, ontem, com a chegada do corpo do subchefe João Pombo ao parque de viaturas do quartel. 'Em 122 anos de história, é a primeira vez que nos morre um bombeiro em serviço', dizia o comandante, Mário Cerol. Eram 16h20 quando o cortejo chegou ao quartel, onde o corpo está em câmara ardente até às 10h30 de hoje, antes de seguir para o mosteiro. Às 11h00 é celebrada a missa, com a presença do ministro da Administração Interna. João Pombo foi o segundo bombeiro a morrer este mês, depois de Carlos Santos, dos Voluntários de Cabo Ruivo.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)