Esquentador montado na casa de banho avariou quando Rosa Pinto dava banho a Iolanda Sofia, de oito anos. Vizinhos deram alerta, mas já era tarde.
'Desde que nasci, já lá vão 44 anos, que o esquentador cá de casa estava montado naquele sítio. E não compreendo como aconteceu isto hoje. Logo tão perto do Natal.' O lamento ao CM é de João Paulo Lourenço, que ontem perdeu a mãe e a filha de apenas oito anos, intoxicadas com gás devido a uma avaria num esquentador, no Lavradio, Barreiro.
Iolanda Sofia estava a passar as férias escolares junto da avó Rosa Maria Benedito Pinto, de 81 anos. Ontem de manhã, enquanto ajudava a neta a tomar banho, Rosa não se terá apercebido da fuga de gás que afectou o esquentador montado no interior da única casa de banho da habitação. E as duas acabaram por morrer de forma lenta e silenciosa.
'Foram os vizinhos dos andares superiores que deram o alerta quando começaram a sentir o cheiro a gás. Mas já era tarde demais. Quando os bombeiros chegaram já pouco havia a fazer', conta, em lágrimas, João Paulo Lourenço.
Apesar da antiguidade do aparelho, o esquentador sempre funcionou sem problemas, mesmo estando montado na casa de banho. 'Cresci nesta casa e nunca tinha acontecido nada do género.'
Os Bombeiros Voluntários Sul e Sueste receberam o alerta pelas 12h47, 'mas as vítimas já deviam estar lá há algum tempo', explicou fonte da corporação. 'Na origem da situação esteve uma fuga de gás. Quando entrámos na residência encontrámos duas vítimas, ambas na casa de banho, onde se encontrava o esquentador, que ainda estava aceso', diz a mesma fonte.
Os bombeiros, que encontraram Iolanda e Rosa já inanimadas, ainda tentaram manobras de reanimação no local, mas sem qualquer sucesso. Os corpos foram transportados para o Hospital do Barreiro, onde foi declarado o óbito de ambas.
Na rua Egas Moniz, no centro do Lavradio, poucos se aperceberam da tragédia até à chegada de ambulâncias, mas muitos lamentavam ontem à tarde o sucedido. 'É uma tragédia', era o lamento geral.
PORMENORES
AUTÓPSIA
As autópsias aos corpos de Iolanda Sofia e da avó, Rosa Pinto, deverão ser realizadas hoje no Hospital do Barreiro.
AMOR PELA NETA
Iolanda costumava passar longas temporadas junto da avó paterna, no Lavradio. A casa de Rosa Pinto estava repleta de brinquedos e fotos da neta.
ESQUENTADOR ACESO
Quando os bombeiros entraram na casa de banho de Rosa Pinto, o esquentador que libertou gás ainda estava aceso.
'A IOLANDA ERA A MINHA RAZÃO PARA VIVER'
Iolanda Sofia, de oito anos, frequentava o terceiro ano na escola primária de Vila Nogueira de Azeitão, no concelho de Setúbal, onde vivia com o pai e a madrasta. De acordo com o pai, aquela menina era a sua 'razão para viver'.
João Paulo Lourenço contou ao CM que criou a filha sozinho desde que a ex-mulher abandonou ambos, tinha a criança apenas quatro meses. 'Agora fico só eu e a minha mulher. Nunca mais será a mesma coisa', confessou o pai da vítima.
Rosa Maria Pinto, actualmente reformada, trabalhou 'quase toda a vida' como costureira na empresa Rodrigues & Rodrigues, em Lisboa. 'Agora vivia apenas para a neta. Era a menina dos olhos dela. Queria tê-la sempre por perto. E a Sofia, sempre que podia, vinha passar uns dias para casa dela', acrescenta João Paulo Lourenço.
CASAL BRASILEIRO MORREU EM CASO SEMELHANTE
No final de Setembro, em Negrais, concelho de Sintra, um casal brasileiro foi vítima de uma fuga de gás semelhante. Miriam e Pablo Miguel Oliveira Silva, ambos de 28 anos, eram de Governador Valadares, no leste de Minas Gerais. Foram encontrados por amigos, que se dirigiram à sua casa, depois de estranharem a sua ausência durante quase quatro dias. Na altura, uma borracha do esquentador avariou-se. O casal de imigrantes vivia em Portugal há um ano e meio e iriam regressar à terra-natal poucos dias depois de terem sido encontrados mortos. Tinham casamento marcado para Janeiro de 2010.
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