A Federação Nacional de Professores (Fenprof) decretou greve para quarta-feira, um dia que em 14 concelhos do País significa ficar três dias sem aulas – terça-feira é Dia de Santo António, feriado municipal em Lisboa, Cascais e Vila Real, por exemplo, e quinta-feira é feriado nacional, Dia de Corpo de Deus. A data está a dividir os professores, que consideram a escolha “oportunista” e “inoportuna”.
“É um tiro no sindicalismo, não se faz uma coisa destas no princípio de um período negocial. A credibilidade que se quer não ganha nada com isto. É oportunismo”, critica um sindicalista. A greve, que será marcada com manifestação em Lisboa, foi marcada em protesto contra a proposta de alteração do Ministério da Educação do Estatuto da Carreira Docente e as declarações da ministra sobre os professores. Em www.educare.pt, um ‘site’ de assuntos de Educação, são várias as críticas à data escolhida pela Fenprof para a paralisação.
Carlos Chagas, da Federação Nacional do Ensino e Investigação, apesar de respeitar a decisão da Fenprof, considera que “não é a altura ideal e não há razões para uma greve entre feriados”. João Dias da Silva, da Federação Nacional dos Sindicatos da Educação, diz “respeitar” a decisão da Fenprof, mas a estrutura que dirige ainda vai ouvir os sindicatos afectos para decidir se vai ou não realizar greve.
Paulo Sucena, presidente do SPGL e secretário-geral da Fenprof, explica que a escolha recaiu no dia 14 pois “se fosse para depois de 23, já não apanhava aulas e a greve aos exames não tinha resultado”.
No dia 14 “só encosta com o feriado de alguns concelhos e como queremos professores de todo o País na manifestação, marcámos para esse dia. Não temos culpa que a semana seja pejada de feriados”, explica.
'Greve? Não, obrigada! A opinião pública fica ainda mais contra nós. E o Governo mete uns milhares de euros ao bolso.' Gabriela Correia, Faro
'Como querem que nos levem a sério se as greves servem só para termos um fim-de-semana prolongado?' Rita Marques, Pontinha
TÉCNICOS VÃO À ESCOLA
Uma equipa de psicólogos, assistentes sociais e professores começou ontem a trabalhar na escola onde foi filmada a reportagem da RTP sobre violência escolar, para definir um plano de intervenção.
O director regional de Educação de Lisboa, José Leitão, adiantou que o objectivo da equipa técnica destacada é “avaliar as condições concretas da escola para fazer um diagnóstico da situação e propor alterações”.
Na semana passada a RTP transmitiu uma reportagem filmada com câmaras ocultas numa escola de uma zona problemática. O Governo pediu vários pareceres, por considerar que as imagens foram recolhidas sem a autorização dos alunos e pais.
DADOS PODEM SER VIOLADOS
Os dados biográficos e clínicos de alunos com necessidades educativas especiais podem ser alterados na internet por professores de outras escolas, violando a privacidade dos estudantes, denunciou a Fenprof.
Através do ‘site’ da Direcção-Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular, os professores de apoio educativo introduzem relatórios individuais dos alunos com quem trabalham, mas o sistema permite que possam ser consultados e alterados por docentes sem relação com as crianças.
“A vida toda do menino fica ali escarrapachada”, disse Mário Nogueira, da Fenprof. O sindicato vai queixar-se à Comissão de Protecção de Dados.
PARALISAÇÕES CONVENIENTES
Não são raras as paralisações decretadas pelos sindicatos que ‘colam’ com os fins-de-semana. No último ano foram várias as greves, de todos os sectores da Função Pública, que deram aos funcionários a possibilidade de terem fins-de-semana prolongados. A mais recente foi a greve nacional da Função Pública, que se realizou em 19 de Maio (6.ª feira).
A Polícia Judiciária também paralisou (17 de Abril, 2.ª feira), os oficiais de operações de socorro dos aeroportos pararam em 6 de Janeiro (6.ª feira), os funcionários da RTP começaram uma greve de quatro dias em 30 de Dezembro (6.ª feira). Os professores também fizeram greve em 18 de Novembro – 6.ª feira.
'ALUNOS REPETENTES TÊM MAIS DO MESMO'
A ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, afirmou ontem ser contra o “chumbo” de alunos e disse entender que “os planos de recuperação existentes devem ser melhorados e aprofundados.
“Precisamos de mecanismos alternativos. A repetência não serve para nada, o aluno repetente apenas tem mais do mesmo no ano lectivo seguinte, ficando ainda num nível de ensino inadequado para a sua idade”, justificou ao CM.
A responsável pela pasta da Educação disse ainda acreditar que a permanência dos professores nas escolas por um período de três anos possa “ajudar a combater o insucesso escolar”. Estas declarações foram proferidas durante a abertura oficial da época de exames nacionais 2005/2006, ontem, na Escola Secundária da Maia.
Maria de Lurdes Rodrigues sublinhou a necessidade de garantir as melhores condições para a realização dos exames, que devem ter lugar num “ambiente de calma e tranquilidade”. “As provas são o culminar de um longo trajecto dos alunos. Precisamos que estes tenham os melhores resultados. É um objectivo comum para todos, incluindo para os professores”, acrescentou.
Em comunicado, o Ministério da Educação refere que este ano lectivo será “especialmente exigente devido à co-existência de dois programas de ensino secundário, num total de 60 disciplinas e de cerca de uma centena de provas nacionais diferentes”.
MANIFESTAÇÃO
A ministra foi surpreendida com uma manifestação de professores em frente às instalações da Escola Secundária da Maia. Os docentes vestiram-se de preto em sinal de luto pela revisão do estatuto da carreira docente.
“Entendo a preocupação dos professores em relação a esta matéria. Trata-se ainda de uma proposta. Entre os princípios e a sua concretização vão passos largos”, afirmou a ministra, sublinhando ainda a importância do envolvimento dos sindicatos no que se refere à revisão dos estatutos.
ESTUDANTES PROTESTAM POR FALTA DE PESSOAL
Os alunos da Escola Secundária Camilo Castelo Branco (Carnaxide, Oeiras), encerraram ontem a escola a cadeado, em protesto contra a falta de funcionários. A PSP acabou por retirar o cadeado de manhã, mas durante o dia os estudantes mantiveram-se em protesto à porta da escola. “A escola tem falta de funcionários e, por causa disso, o bar, a reprografia, a papelaria e a biblioteca têm de encerrar mais cedo. Isto prejudica muito o dia-a-dia dos alunos”, sublinhou Luís Baptista, da Associação de Estudantes.
A presidente do Conselho Executivo da escola, Maria da Graça Ramos, confirmou que a falta de funcionários no estabelecimento tem prejudicado alguns serviços que estão “assegurados no mínimo”.
Segundo a responsável, para esta situação contribuíram vários factores: “Há funcionários doentes, outros rescindiram os contratos e outros foram transferidos para outras escolas”.
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