Barra Cofina

Correio da Manhã

Exclusivos
2

Indemnização mais contrato milionário

Manuel Lopes Marques, ex-director-geral de exploração e conservação da Refer – Rede Ferroviária Nacional, recebeu em Junho de 2006 uma indemnização de 210 mil euros para sair daquela empresa do Grupo CP – Comboios de Portugal e dois meses depois, em Outubro, ingressou na Rave – Rede Ferroviária de Alta Velocidade.
15 de Fevereiro de 2007 às 13:00
Luís Pardal é presidente da Refer e da Rave, envolvidas na dispensa e contratação de Lopes Marques
Luís Pardal é presidente da Refer e da Rave, envolvidas na dispensa e contratação de Lopes Marques FOTO: Pedro Catarino
Nesta última empresa, detida pela Refer e pertencente também ao Grupo CP, Manuel Lopes Marques trabalha como assessor do conselho de administração, tem um contrato até três anos e um salário mensal de 5050 euros. Luís Pardal é o presidente de ambas as empresas: Refer e Rave.
O processo de Lopes Marques como ex-alto quadro da Refer é conhecido no meio ferroviário e, segundo fontes do sector, considerado um “escândalo” que está a gerar “mal-estar” entre os funcionários do grupo CP. A Refer, através do assessor de imprensa, confirma o processo de transferência de Lopes Marques e afirma que a indemnização de 210 mil euros está relacionada “com 35 anos de trabalho, um mês de vencimento por cada ano de trabalho”. Rui Reis frisa que “a rescisão por mútuo acordo foi uma iniciativa dele [Lopes Marques] em Maio ou Junho [de 2006] e, nesse momento, não se punha na Rave em questão qualquer situação de contratação [de assessores]”. A mudança ocorre, segundo aquele responsável, “no último trimestre de 2006”, quando “um conjunto de consultores que estavam associados ao projecto de Alta Velocidade [TGV] deixa o projecto”.
Face a esta inexistência de consultores técnicos para o projecto do TGV, a Rave teve “necessidade de criar uma assessoria técnica ligada à ferrovia que dê mais-valia à empresa”, explica Rui Reis. E, assim sendo, foi “encontrado alguém no exterior que estava disponível: Lopes Marques é convidado para assessorar a Rave no projecto do TGV”, remata.
Desde Outubro de 2006 o ex-alto quadro da Refer “substitui parte da função dessa empresa de consultoria” na Rave, diz Rui Reis. Luís Pardal é presidente da Refer e da Rave desde final de 2005, após o ministro dos Transportes ter exonerado a anterior administração de Braamcamp Sobral por “violação de deveres”.
DEMISSÃO EM MASSA
Luís Pardal assumiu a presidência da Refer e da Rave depois de o ministro dos Transportes, Mário Lino, ter exonerado a administração anterior das duas empresas, por motivo justificado. Braamcamp Sobral, presidente, Luís Miguel Reis Silva e José Marques Guedes foram despedidos por Mário Lino com base na contratação cruzada, e aparentemente concertada, entre a CP e a Refer de administradores de uma empresa como assessores da outra. As irregularidades foram detectadas pela Inspecção-Geral de Finanças numa auditoria realizada à Refer em 2004.
EMPRESAS PÚBLICAS
Refer e Rave são duas empresas públicas do universo empresarial da CP. Constituída em 1997, a Refer é tutelada pelos ministérios das Obras Públicas, Transportes e Comunicações e das Finanças. Em 2005, esta empresa pública apresentou um prejuízo de 160 milhões de euros, um aumento de quatro por cento face ao ano anterior. Já a Rave foi criada em 2000, com a missão de desenvolver e coordenar os trabalhos e estudos para a instalação do TGV. Com um capital social de 2,5 milhões de euros, é detida pelo Estado (60%) e Refer (40%).
PERFIL
Manuel Lopes Marques trabalhou na CP 35 anos. Quando saiu da Refer, em Julho de 2006 era “director-geral há cerca de quatro anos”, segundo o assessor de imprensa da Refer. Aos 61 anos, é desde final de 2006 director-geral adjunto do AVEP - Alta Velocidade Espanha-Portugal, da Rave, (que gere o projecto do TGV), à qual Luís Pardal preside.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)