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Judiciária na pista do raptor

A PJ tem um retrato-robô do homem suspeito de ter raptado Madeleine de um aldeamento turístico em Lagos. Foram enviados reforços de Lisboa. Investigadores esperam resultados ainda hoje .
6 de Maio de 2007 às 13:00
Judiciária na pista do raptor
Judiciária na pista do raptor FOTO: D.R.
A Polícia Judiciária já terá identificado ontem o raptor da pequena Madeleine McCann, de três anos, e está a seguir pistas fornecidas pelas autoridades de Leicester, a norte de Londres, onde vive a família da menina. Os investigadores esperam conseguir resultados ainda hoje.
Guilhermino da Encarnação, director da Polícia Judiciária de Faro, garantiu ontem que já tem um retrato-robô do homem suspeito de ter raptado a menina – mas não divulga publicamente a imagem, disse, “para não colocar em perigo a vida da criança”.
De acordo com um especialista em investigação criminal contactado pelo CM, a razão para esta reserva tem uma explicação. Os investigadores consideram que a divulgação do retrato poderia levar o raptor a sentir-se encurralado e a optar por assassinar a menor. Também é possível que a PJ esteja a fazer bluff – e o objectivo é que a notícia da existência do retrato possa levar o raptor a ficar ansioso e, consequentemente, ‘obrigá-lo’ a cometer um erro que permita a sua localização.
As equipas de investigação da PJ do Algarve foram reforçadas com brigadas enviadas de Lisboa – incluindo da Direcção Central de Combate ao Banditismo. Trabalham no caso uma centena de investigadores.
A PJ tinha a esperança de fazer ontem importantes avanços na investigação.
BUSCAS
Durante o dia de ontem as buscas não pararam. Os vários blocos de apartamentos do aldeamento The Ocean Club – de onde a menina desapareceu – foram passados a pente fino pela Judiciária, enquanto a GNR avançou com seis equipas cinotécnicas (homem-cão) para os parques de campismo e bateu diversos campos em redor da vila.
Nas estradas foram montadas operações stop pela GNR e PSP, enquanto patrulhas a cavalo percorreram as zonas rurais. O raio de acção foi alargado até cinco quilómetros da Praia da Luz. A orla costeira também esteve debaixo de olho da Polícia Marítima.
Dois inspectores da Judiciária acompanharam igualmente os funcionários da Câmara de Lagos que efectuaram a recolha de lixo na vila. Todos os sacos eram abertos ao serem colocados no camião. E a PJ assegura que as buscas são para continuar “até estar tudo visto”, estando no terreno centena e meia de homens da GNR, Polícia Marítima, PSP, PJ e Bombeiros.
A Judiciária fez ontem questão de garantir que nunca duvidou da versão apresentada pelos pais da pequena Madeleine. E garantiu que disponibilizou para a investigação deste caso “extraordinários meios técnicos e humanos”.
"CRIMINOSO PODE SER LEVADO A MATAR A MENINA" | Carlos Poiares, psicólogo criminal
- Correio da Manhã – Por que não deve a PJ mostrar o retrato-robô?
- Carlos Poiares – O objectivo é recuperar a criança com vida. Não exibir o retrato evita o alarme.
- Fala do sujeito ou da sociedade?
- Ambos. Previne-se a caça ao homem e possíveis linchamentos, até de inocentes. Os retratos-robô são falíveis.
- E quanto ao raptor?
- A não divulgação do retrato visa evitar a sensação de que está perdido e a partir daí pensar que é mais fácil ser identificado com a menina do que sem ela. Pode sentir-se tentado a livrar-se dela por qualquer meio e até a matá-la.
- Como se deixasse de pensar?
- É preciso não esquecer que as prioridades são a vida e a saúde da criança. Deve-se evitar que o raptor sinta que nada tem a perder. Alarmado ele pode cometer um segundo crime, muito mais grave, drástico e irrecuperável.
PJ ADMITE RAPTO "PARA ABUSO SEXUAL"
O responsável pela investigação da Judiciária, Guilhermino Encarnação, admitiu ontem a hipótese de se estar perante um rapto de características sexuais. Segundo o responsável policial, quem praticou o crime poderá tê-lo feito “pa-ra pedir um resgate ou para abuso sexual”.
Guilhermino Encarnação lançou uma apelo ao raptor: “Eu peço a quem a tem [a menina] que ainda está a tempo de a restituir.” E adiantou que seria “uma boa decisão que ele tomava”.
A Judiciária mantém a esperança de que a menina esteja viva, mas à medida que as horas passam as preocupações crescem. A segurança da criança foi mesmo a justificação dada pela PJ para não serem revelados dados sobre o suspeito. O responsável policial adiantou que já foram recebidos dezenas de telefonemas sobre o desaparecimento.
PERFIL
Guilherme da Encarnação, de 60 anos, entrou para a PJ como agente, formou-se em Direito e progrediu na carreira. Esteve na Direcção Central de Combate ao Banditismo e no combate aos terroristas das FP25.
PONTE DO GUADIANA SEM PARAGENS
Na Ponte Internacional do Guadiana, fronteira entre as regiões do Sul de Portugal e Espanha, os carros passavam ontem ao início da tarde em direcção ao país vizinho sem serem submetidos a qualquer tipo de fiscalização, apesar do alerta de vigilância reforçada lançado a todas as fronteiras depois de desaparecimento da pequena Madeleine.Fonte do destacamento de Tavira da GNR garantiu ao ‘CM’ que a fiscalização estava prevista para depois das 15h00 de ontem e que deveria decorrer até ao início da noite, com inspecção das viaturas que entravam em Espanha, como terá acontecido na sexta-feira. A ausência de uma vigilância permanente foi justificada com “falta de meios”.
PORMENORES
TELEFONEMAS
No dia seguinte ao desaparecimento da menina a PJ recebeu três dezenas de telefonemas de pessoas que diziam ter informações sobre o caso. Todas foram tidas em conta e investigadas, segundo a Judiciária. Os números de contacto são o 289 884 500 e o 282 405 400.
INVESTIGAÇÃO
O responsável pela investigação, Guilhermino Encarnação, assegura que as forças de segurança “não podiam ter actuado de forma mais rápida”. A GNR compareceu no local dez minutos depois do alerta e a PJ no espaço de cerca de uma hora.
AEROPORTOS
Uma das preocupações das autoridades é evitar que a pequena Madeleine, de quase quatro anos, seja levada para fora do País. A PJ assegura que os aeroportos espanhóis e portugueses dispõem “de todos os elementos para não deixarem passar a menina”.
SAIBA MAIS
- 8 pessoas desapareceram em Portugal quando ainda eram menores e estão referenciadas no site da Polícia Judiciária – www.pj.pt.
- 556 casos de rapto, sequestro e tomada de reféns registados em Portugal em 2006, o que representa um aumento de 26.9% do número de ocorrências em relação ao ano anterior.
INTERNET
Sites como www.fredi.org ou www.findthekids.com têm bases de dados sobre crianças desaparecidas, algumas das quais portuguesas.
EFEMÉRIDE
A 25 de Maio de 1979 um menino foi raptado em Nova Iorque e nunca apareceu. A data marca o Dia Internacional das Crianças Desaparecidas.
HORAS DECISIVAS
As primeiras 48 horas de um rapto são decisivas para a actuação policial. A partir daí as hipóteses de recuperar a vítima com vida são mais reduzidas.
CRÍTICAS BRITÂNICAS A PAIS DESTROÇADOS
NEGLIGÊNCIA: CRIANÇAS SOZINHAS EM CASA
A National Society for the Prevention of Cruelty to Children (NSPCC), uma das associações mais activas no combate aos abusos contra crianças e com forte influência junto do governo inglês, explicou ontem ao CM que o comportamento dos pais de Madeleine McCann, a menina de três anos raptada no Algarve, pode ter sido negligente.
“Os pais não devem nunca deixar bebés ou crianças pequenas sozinhas em casa, a dormir ou acordadas, mesmo que seja por alguns minutos.” Esta regra consta no site da NSPCC e foi ontem repetida ao nosso jornal por uma fonte ligada à associação. Até porque, acrescenta, “não é preciso muito para que uma criança pequena sem supervisão se magoe”. Oficialmente a NSPCC prefere não comentar directamente o caso da Madeleine antes de estarem terminadas as investigações da polícia. As críticas surgem nas entrelinhas.
Questionada pelo Correio da Manhã sobre o facto de os pais poderem ser responsabilizados por deixarem três crianças sozinhas no quarto de um aldeamento turísticos, a mesma fonte acrescentou que no Reino Unido é pouco comum estas situ
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