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Justiça expõe superjuiz na montra

O superjuiz Carlos Alexandre, que meteu na cadeia o banqueiro Oliveira e Costa, o suspeito da bomba no bar O Avião ou, há uma semana, o gang do multibanco, está instalado num gabinete do novo parque da Justiça, em Lisboa, que o expõe a uma grave quebra de segurança. O Tribunal Central de Instrução Criminal foi colocado no rés-do-chão de um prédio com paredes de vidro, que não são à prova de bala e que dão uma visão completa sobre o que se passa no interior. Pode ver-se o juiz a trabalhar, a ler processos – vigiar todos os seus passos, fotografá-lo, como o CM fez na manhã de ontem.
10 de Julho de 2009 às 02:00
Justiça expõe superjuiz na montra
Justiça expõe superjuiz na montra FOTO: Bruno Colaço

Quem for passear o cão para o Parque das Nações, pode entrar pelo relvado do Campus da Justiça e, em pleno jardim, depara-se, através de um vidro banal, com um senhor de óculos e gravata, sem casaco, atrás da secretária de madeira e embrenhado num monte de papéis. Tudo normal, se o senhor não fosse o juiz Carlos Alexandre; se os papéis não fossem os mais explosivos processos de crime económico e violento no País; se só pudessem passar por ali inocentes de trela nas mãos; e se, ao já ter sido ameaçado de morte, o Estado não gastasse mais de seis mil euros mensais com a segurança do juiz.

Depois do progressivo despejo das instalações do velho edifício da Boa-Hora, só não se sabe se já é ali, num anexo do gabinete forrado a vidro transparente e junto ao passeio, que o juiz presidente do ‘Ticão’ guarda 50 CD com sete mil ficheiros de escutas telefónicas.

No fundo, é ali que está tudo sobre que disse ao telefone Abel Pinheiro durante meses no processo Portucale, entre outros. Tudo sobre todos os que estiveram ou ainda estão na mira do juiz mais temível do País – não só nesse caso, mas também na Operação Furacão; nos casos Freeport ou BPN; nas contas na Suíça de Isaltino Morais; na investigação a propósito do concurso de compra de dois submarinos na época em que Paulo Portas era ministro da Defesa.

Nesses processos e nos que hão-de chegar, Carlos Alexandre passa a estudar e despachar ali, virado para a rua e todos os que passam no passeio – que com ligeiro esforço percebem qual é o processo a ser analisado naquele momento.

Mas nem só de crime económico vive o magistrado judicial que, nos tempos em que esteve na PJ Militar, foi alvo de ameaças de morte. É por isso que o Ministério da Justiça, enquanto expõe o superjuiz num gabinete-montra de rés-do-chão no recém-estreado Campus da Justiça, gasta à volta de 6500 euros mensais com a segurança do magistrado, 24 horas do dia. É o preço a pagar com o trabalho dos três agentes e um chefe do Corpo de Segurança Pessoal da PSP, que se dividem em duas equipas, somado às despesas do automóvel.

OPINIÃO: EDUARDO DÂMASO, DIRECTOR-ADJUNTO

PAREDES DE VIDRO A MAIS

Em qualquer parte do Mundo Carlos Alexandre teria o mais alto nível de protecção do Estado. Porventura estaria num bunker ou num edifício com a dignidade própria que a Justiça deve ter. Por cá não é assim. Mas, por cá, também já chegámos ao ponto ver Isaltino Morais violar todas as suas obrigações de arguido. Perante a total passividade da juíza. São paredes de vidro a mais....

RUI PEREIRA PASSOU PELO GABINETE DO JUIZ

O juiz Carlos Alexandre, apesar da fragilidade do edifício onde está o seu tribunal, tem protagonizado uma atitude pragmática na discussão da melhoria das condições de trabalho. Por iniciativa da sua equipa, foi feito um levantamento das necessidades. Ao nível de todas as estruturas do Campus da Justiça ligadas à Justiça Criminal é pedido o isolamento dos gabinetes com película.

Foi também feito saber ao Ministério da Justiça que é preciso implantar algum equipamento urbano na zona. Falta terminais multibanco, instalações sanitárias que possam servir familiares de pessoas envolvidas em diligências judiciais, entre outras medidas pedidas para os próprios edifícios. Na tarde de quarta-feira, aliás, o ministro da Administração Interna, Rui Pereira, foi o destinatário de algumas queixas por parte da PSP, no que diz respeito à falta de condições.

Mas poderia também ter ouvido o que Carlos Alexandre tem para dizer. Rui Pereira esteve no Campus da Justiça e à hora de almoço foi convidado por um funcionário a visitar o ‘Ticão’. Foi por um triz que Rui Pereira e Carlos Alexandre não se cruzaram no gabinete deste, uma espaço que também foi mostrado ao ministro.

PERFIL

Carlos Manuel Lopes Alexandre nasceu em Mação há 47 anos. Casado com uma funcionária das Finanças, tem dois filhos de 20 e nove anos. Esteve nas Varas Mistas de Sintra e na PJ Militar até 2004, quando entrou para o Tribunal Central de Instrução Criminal.

OUTROS CASOS

Jorge Chaves: O homem suspeito de ter colocado a bomba que matou o empresário Jorge Gonçalves, dono do bar O Avião, foi interrogado por Carlos Alexandre durante dez horas, em Maio. O juiz ordenou prisão preventiva.

Maria das Dores: O juiz presidiu ao colectivo que julgou o homicídio do empresário Paulo Cruz. Maria das Dores, que mandou matar o marido, foi condenada a 23 anos de prisão e os dois cúmplices apanharam 18 e 20 anos.

Pedro França Alemão: Enquanto era julgado na Boa-Hora por envolvimento no grupo conhecido por ‘Máfia da Noite’, Pedro França Alemão foi detido por tráfico de droga. O juiz Carlos Alexandre decretou a sua prisão preventiva.

NOTAS

PSP: QUEIXAS POR FALTA DE LUZ

Os agentes da PSP de serviço no Tribunal de Instrução Criminal queixam-se das novas condições, no Campus da Justiça, nomeadamente da falta de luz no local em que foram colocados.

TIC: ACESSO FÁCIL AOS PRESOS

No Tribunal de Instrução Criminal, os elevadores dão fácil acesso ao piso -1, onde estão as pessoas detidas, à espera de interrogatório judicial. Uma questão que será corrigida.

FRIO: AR CONDICIONADO

Magistrados e funcionários judiciais queixam--se do ar condicionado central, que em cada gabinete do Campus da Justiça só permite regular entre mais três graus ou menos três graus.

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