Barra Cofina

Correio da Manhã

Exclusivos
3

Lino acusa Vitorino de mentir

Ex-ministro diz que ex-secretária de Estado prestou declarações falsas e caluniosas.
13 de Janeiro de 2011 às 00:30
Lino, que é suspeito de abuso de poder num processo conexo, desmentiu a sua secretária de Estado.
Lino, que é suspeito de abuso de poder num processo conexo, desmentiu a sua secretária de Estado. FOTO: Pedro Catarino

Mário Lino acusou ontem Ana Paula Vitorino de mentir. No Tribunal Central de Instrução Criminal, o ex-ministro dos Transportes, arrolado como testemunha por Armando Vara, garantiu que as declarações da então secretária de Estado no inquérito do processo ‘Face Oculta’ foram "falsas" e "caluniosas". O juiz determinou a extracção de certidões, podendo a agora deputada responder por falsificação. Paralelamente, Mário Lino continua a ser investigado por abuso de poder, com base no mesmo depoimento, em que é acusado de ter cedido às pressões de Armando Vara e de Lopes Barreira, de forma a conseguir que Manuel Godinho fosse beneficiado nos contratos com a Refer.

"Armando Vara nunca me falou do senhor Godinho", disse ontem Mário Lino, contando depois que efectivamente se encontrou com o sucateiro de Ovar no seu gabinete. "Ele falou-me de uma cabala. Disse que estava a ser perseguido, e eu quis ver o que se passava", explicou.

Mário Lino recordou que deu conta a Ana Paula Vitorino das preocupações do dono da O2, mas nunca tentou influenciar a sua posição. Lembrou até que foi aquela que acabou por vir ao seu gabinete com Luís Pardal, então presidente da Refer, para falarem sobre os problemas do empresário.

Luís Pardal, por seu turno, não se lembra de tal encontro. Confrontado com as declarações de Lino, o ainda presidente da Refer reproduziu a conversa que o ex-ministro teve consigo. Não disse que aquele lhe falou de Vara, mas assegurou que foi a seu pedido que aceitou receber Godinho. "No fundo, o que ele queria era dizer-me que ia ganhar a questão no Tribunal da Relação. E basicamente falámos do contrato de Vila Viçosa. Ele quis dizer-me que sabia que estava em primeiro lugar. Além disso, lamentou-se por estar a ser penalizado", recordou Luís Pardal. "Mas era o que faltava dizer-me para ele devia ganhar o que quer que fosse", concluiu.

"PARECE QUE TODA A GENTE ME QUER DEMITIR"

Carlos Alexandre, o juiz que preside à instrução, tenta manter alguma informalidade durante as audiências. Na tarde de ontem, e após horas e horas de inquirições, o magistrado acabou por dizer que a sua frase da tarde era o desabafo de Luís Pardal. "Parece que toda a gente me quer demitir", disse o presidente da Refer, quando confrontado com as perguntas dos advogados. Luís Pardal contou no entanto que efectivamente esteve três meses em gestão corrente, e que nessa altura sentiu que a sua continuidade estava em risco. "O senhor Lopes Barreira andou a sondar algumas pessoas para o meu lugar", afirmou, sem precisar depois a mando de quem é que o empresário actuou daquela forma. "Não sei", respondeu Luís Pardal, não querendo sequer confirmar se Lopes Barreira era um quadro do PS.

GÍRIA BANCÁRIA NÃO EXPLICA 25 KM

Armando Vara chamou ontem a defendê--lo vários quadros bancários. Paulo Macedo, ex-director-geral dos Impostos e actual quadro do BCP, negou que Vara alguma vez tivesse usado a sua influência para beneficiar Manuel Godinho. Outros quadros do mesmo banco e também da CGD foram depois explicar a gíria bancária.

Foi ouvida a escuta em que Godinho diz que Armando Vara lhe pediu 25 km, mas ninguém confirmou a tese do ex-ministro de que 25 km significava 250 mil euros e que aqueles eram necessários para uma operação bancária.

MAGISTRADO IGNORA "RISCO DE MORTE"

Carlos Alexandre ignorou o parecer do Instituto Nacional de Medicina Legal e confirmou a prisão preventiva de Manuel Godinho. O juiz diz que não se alteraram os pressupostos que determinaram a aplicação da medida mais gravosa e mantém a prisão do sucateiro de Ovar.

A decisão acabou por surpreender o advogado do sucateiro, Artur Marques, que anunciou imediatamente que ia recorrer. "Quero ter a consciência tranquila para o caso de acontecer uma tragédia", afirmou ontem aos jornalistas, à saída do tribunal.

Segundo o relatório médico que o Correio da Manhã consultou e que se encontra junto aos autos, Manuel Godinho apresenta riscos acrescidos de mortalidade e efectiva possibilidade de suicídio. É ainda referido que o empresário sofre de diabetes e de problemas cardíacos.

O parecer foi ao encontro dos outros pareceres requeridos pelo empresário, que davam também conta das suas debilidade de saúde. Manuel Godinho acreditava que a sua prisão preventiva poderia ser substituída por domiciliária.

PRAZOS APERTADOS

Carlos Alexandre não tem dúvidas de que irá terminar a instrução sem ultrapassar os prazos determinados pela prisão preventiva de Manuel Godinho. A decisão tem de ser conhecida até 28 de Fevereiro, dia em que terminam os prazos.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)