Maioria desiludida

Ao cabo de oito meses de governação, a maioria dos portugueses já está desiludida com a actuação do Governo. Pela primeira vez, de acordo com uma sondagem Correio da Manhã/Aximage, realizada entre 17 e 19 do corrente mês, 51,9 por cento dos portugueses consideram que o Executivo de José Sócrates está a governar pior do que esperavam.
27.10.05
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Maioria desiludida
José Sócrates Foto DR
O desgaste atinge também de forma significativa o PS e o primeiro-ministro, cuja nota de actuação cai para o fim da tabela, a par do líder da oposição, Marques Mendes.
De acordo com anteriores sondagens, a frustração das expectativas dos portugueses quanto à actuação do Governo começou em Junho, com 40,8 por cento dos inquiridos a considerarem que o Governo estava a governar pior do que esperavam. Em Setembro, esse valor subiu para 49,9 por cento. E agora, em plena aplicação das reformas e sob o efeito da divulgação do Orçamento de Estado para 2006 (apresentado dia 17), ultrapassou a barreira dos 50 por cento.
Relativamente à intenção de voto nos partidos, o resultado é inequívoco: se as eleições fossem hoje, o PS seria o vencedor com 35,4 por cento. Muito longe dos 45,1 por cento obtidos nas eleições legislativas de 20 de Fevereiro, trata-se de uma queda de 9,7 pontos percentuais que ditaria o fim da maioria absoluta. Não deixa, no entanto, de ser surpreendente, depois de tanta contestação social, que os socialistas continuem à frente nas sondagens.
Ao contrário do PS, o PSD continua em ascensão, embora lenta. Nesta sondagem, o PSD sobe de 28,7 por cento (obtidos em Fevereiro de 2005 por Santana Lopes) para 32,7 por cento. Ou seja, recuperaria 6 por cento, ficando a apenas 2,7 pontos percentuais do PS. Seria o suficiente para obrigar os socialistas a fazer coligações com a CDU ou com o BE, para poder governar, já que o PSD e o CDS-PP juntos obteriam 36,4 por cento.
Segundo a sondagem, o CDS-PP, obteria um dos valores mais baixos da sua história, apenas 3,7 por cento, contra 7,3 por cento nas últimas legislativas sob a liderança de Paulo Portas. Seria o regresso ao ‘partido do táxi’, como disse um dia Cavaco Silva. Ao contrário do CDS-PP, o BE tem vindo a subir de forma consistente. Segundo a sondagem, passaria a ser o terceiro maior partido (com 8 por cento), passando à frente da CDU (7,6 por cento).
As notas de actuação dos líderes partidários (de 0 a 10) não se alteram muito nesta última sondagem. Francisco Louçã, do BE, continua a liderar a tabela (com 11,5), seguido de Jerónimo de Sousa, do PCP, com 10,8 e Ribeiro e Castro, do CDS-PP, com 8,3. Em último estão José Sócrates e Marques Mendes com 8.
FREITAS LIDERA TABELA DE POPULARIDADE
O ministro dos Negócios Estrangeiros, Freitas do Amaral, continua a ser o membro do Governo mais popular com uma nota de 10,9, numa escala de 0 a 20. Mesmo assim, o ex-líder do CDS-PP não se livrou de uma descida na sua nota, já que no mês anterior obteve 11,5.
A apenas dois meses no Governo, o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, ficou mesmo no fundo da tabela com os portugueses a atribuírem a nota negativa de 9,5. A nota reflecte, no entanto, uma ligeira subida, já que em Setembro o ministro obteve apenas um 8,6. Quem não conseguiu reunir a simpatia dos inquiridos foi o ministro da Agricultura, Jaime Silva, que este mês permaneceu com a nota de 9,6.
Ainda com notas negativas estão os ministros da Segurança Social, Vieira da Silva, do Ambiente, Francisco Nunes Correia, da Defesa, Luís Amado, e do Ensino Superior, Mariano Gago, com notas entre os 9,7 e 9,9.
Já os ministros da Justiça, Alberto Costa, da Administração Interna, António Costa, e da Saúde, Correia de Campos, registaram ligeiras descidas, mantendo as suas notas entre os 10 e os 10,3.
PSD SOBE MAS CONTINUA ABAIXO DO PS
Seis meses após ter conquistado a liderança dos social-democratas, em Abril, no congresso de Pombal, Marques Mendes ainda não conseguiu colocar o PSD à frente do PS nas sondagens. No entanto, conseguiu reduzir a diferença para apenas 2,7 pontos percentuais. Nas legislativas de Fevereiro a diferença entre os dois maiores partidos foi de 16,4 pontos percentuais (PS com 45,1 por cento e o PSD com 28,7 por cento).
Com uma vitória inequívoca nas eleições autárquicas de 9 de Outubro, era expectável que o PSD pudesse ultrapassar o PS, beneficiando, além disso, de uma conjuntura desfavorável aos socialistas bem visível no grau de conflitualidade social. A par do partido, também o seu líder não se destaca no que se refere à sua actuação, face aos demais líderes partidários. A sondagem CM coloca-o a par de José Sócrates, em último lugar com 8 valores, numa escala de 0 a 20. A nota atribuída ao líder do PS deve-se, certamente, ao efeitos da sua governação.
FICHA TÉCNICA
OBJECTIVO: Eleições legislativas; líderes, ministros; Governo
UNIVERSO: Eleitores residentes em Portugal em lares com telefone fixo.
AMOSTRA: Aleatória estratificada por região, sexo, idade, actividade, instrução e voto legislativo, polietápica e representativa do universo, com 582 entrevistas telefónicas (348 a mulheres)
COMPOSIÇÃO: Proporcional pela variável estratificação
RESPOSTAS: Taxa de resposta de 66,7 por cento.
DESVIO PADRÃO MÁXIMO de 0,021
REALIZAÇÃO: 17 a 19 de Outubro de 2005, para o Correio da Manhã pela Aximage, com a direcção técnica de Jorge Sá.
REACÇÕES
"QUEBRA DE CONFIANÇA" (Azevedo Soares, PSD)
Para o deputado social-democrata, Azevedo Soares, a sondagem Correio da Manhã/Aximage revela “uma enorme quebra de confiança do Governo junto do público”. Azevedo Soares sublinhou ainda a tendência de aproximação entre os dois maiores partidos portugueses, considerando este um “bom sinal”, já que o “PS vai descendo e o PSD subindo”.
"DEFRAUDARAM AS EXPECTATIVAS" (Fernanda Mateus, PCP)
Fernanda Mateus da Comissão Política do PCP defendeu que os resultados da sondagem reflectem as “expectativas defraudadas daqueles que acreditaram na mudança” de um Governo que se revelou “contra quem trabalha e vive do seu salário, contra pensionistas e reformistas e que quer ser o único a ter acessos a bens tão essenciais como a saúde”.
"FEZ O CONTRÁRIO DO PROMETIDO" (Paulo Núncio, CDS-PP)
“Não nos surpreende que os portugueses tenham essa opinião” já que o PS “prometeu tudo a todos para ganhar as eleições e agora tem feito exactamente o contrário”, afirmou Paulo Nûncio, porta-voz do CDS-PP. Como exemplo, relembrou mesmo que “com o Orçamento de Estado para 2006, o PS quebra pela segunda vez a promessa de não aumentar os impostos”.
"DESILUSÃO COM O GOVERNO" (Francisco Louçã, BE)
“Há uma grande desilusão com as políticas do Governo” que tem apostado em “medidas muito insensatas”, afirmou o dirigente do Bloco de Esquerda, Francisco Louçã, considerando que as sondagens revelam ainda que “os portugueses ainda não esqueceram a governação do PSD e do CDS-PP”, uma vez que os sociais-democratas pouco subiram com a perda de votos do PS.
'DECISÕES DIFÍCEIS', DIZ PS
“O Governo tem sido obrigado a tomar algumas decisões difíceis que afectam a maioria dos sectores na nossa sociedade e as sondagens são indicadoras do que se está a passar”. Foi com estas palavras que o porta-voz do PS, Vitalino Canas, reagiu à sondagem Correio da Manhã/Aximage, que revela que 51,9 por cento dos inquiridos considera que o Executivo tem governado pior do que era esperado. Mesmo assim, Vitalino Canas fez questão de sublinhar que estas medidas são “necessárias para a recuperação de Portugal” e que o “PS sempre disse que nunca iria governar para as sondagens”. Como tal, garantiu que as sondagens não irão impedir o Governo de seguir o seu programa para o País.

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