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Mar leva mais 4 pescadores

Famílias de Ribamar e da Lourinhã desesperam com o desaparecimento de embarcação ‘Fábio e João’, anteontem à noite.
20 de Fevereiro de 2010 às 00:30
Família de Ribamar perdeu cinco pessoas no naufrágio do ‘Arca de Deus’, há 17 anos. Os corpos nunca apareceram. Agora, mulher de Amândio Pinto, também da família, vê desaparecer o marido num naufrágio
Família de Ribamar perdeu cinco pessoas no naufrágio do ‘Arca de Deus’, há 17 anos. Os corpos nunca apareceram. Agora, mulher de Amândio Pinto, também da família, vê desaparecer o marido num naufrágio FOTO: Bruno Colaço

Os quatro pescadores da embarcação ‘Fábio e João’, que naufragou anteontem à noite ao largo da praia da Areia Branca, na Lourinhã, continuam desaparecidos. Os únicos vestígios encontrados, já ao final do dia de ontem, foram um painel e um recipiente utilizado para armazenar artes de pesca, mas ainda não se tinha a certeza de que pertenciam à embarcação. O comandante do Porto de Peniche, Patrocínio Tomás, anunciou que as buscas iam continuar 'durante a noite com a corveta ‘António Enes’'.

Quanto às causas do acidente, o comandante explicou que 'os sistemas de emergência previstos não foram activados', e criticou o facto de a única comunicação de alerta ter sido feita através 'de um canal de trabalho dos pescadores, em vez do canal internacional de segurança', o que impediu 'ter informação mais detalhada sobre a posição da embarcação'. Mas 'o mar estava propício à actividade', garantiu o responsável.

A cada minuto que passa decresce a possibilidade de encontrar os quatro homens com vida e aumenta a angústia das famílias, três das quais residem na vila de Ribamar, a poucos quilómetros da Lourinhã. 'Ele costumava dizer que o mar era bom para os peixes. Mas gostava mais do mar do que da terra', contou ao CM Maria da Luz Mendes, mulher de Manuel Pedro Silvério, de 48 anos. 'Eram para regressar ontem [anteontem] à noite, mas já não vierem', dizia, desesperada, a mulher, mãe de dois rapazes, um dos quais marinheiro, e de uma rapariga.

Também a dor marcava presença na casa de José Martinho Antunes, 55 anos, o único dos quatro pescadores que reside na Lourinhã e que 'já tinha metido os papéis para a reforma', segundo disse uma das filhas. Mas era no mar que ia ganhando a vida, já há 40 anos. 'Não queria fazer outra coisa', disse uma outra filha, que explicava que 'a indefinição é o pior'.

Edite Fernandes, 47 anos, é prima da mulher do mestre da embarcação, Amândio Jorge Pinto. O acidente de anteontem trouxe-lhe à memória um outro, ocorrido a 17 de Fevereiro de 1993, a 30 milhas do Cabo Carvoeiro, quando a embarcação ‘Arca de Deus’ desapareceu com uma tripulação de sete pessoas. 'Perdi o meu marido, o meu irmão de 21 anos, o meu tio, o meu primo e o meu cunhado no naufrágio de uma vez só, e os corpos nunca apareceram. Agora acontece isto, 17 anos depois', lamentava.

Maria Fonseca, 50 anos, ainda queria acreditar que o marido, Basílio, 55 anos, conseguira escapar num bote. 'Os salva-vidas têm de procurar mais longe', dizia. 'Ontem não se ouvia muito o mar, não estava revolto, não entendo como isto aconteceu'.

SAIBA MAIS

CAUSAS

A perfuração do casco, os fenómenos meteorológicos ou as falhas de navegação são as causas mais comuns dos naufrágios.A inclinação excessiva do barco também pode ser fatal. 

19

é o número depescadores mortos em naufrágiosdesde Outubro de 2004. Destes acidentes resultaram ainda oito desaparecidos e pelo menos um ferido. 

MEIOS

As buscas envolveram ontem umacorveta da Marinha, três helicópterosda Força Aérea e um salva-vidas. Participaram ainda nove elementos da Polícia Marítima e 14da Protecção Civil. 

EMBARCAÇÃO CONSTRUÍDA HÁ 12 ANOS

O ‘Fábio e João’ é uma embarcação com 9,65 metros de comprimento, construída em 1998 nos estaleiros navais Nautiber, de Vila Real de Santo António. Foi construída em fibra de vidro e tem uma cabina com balsa salva-vidas em cima. Está munida de equipamentos que possibilita a pesca polivalente – com redes ou com anzol. Está matriculada no Porto de Lagos, mas o porto de armamento é o de Peniche. São dois os sócios-proprietários – Amândio Jorge Pinto (o mestre) e Basílio José da Fonseca (também tripulante). O barco tinha redes de emalhar e servia para pescar robalo, safio e polvo, entre e outras espécies.

DISCURSO DIRECTO

'PESCADORES ERAM MUITO CUIDADOSOS', Humberto Jorge Pres. Ass. Armadores Pesca do Centro

Correio da Manhã – O que poderá ter causado este naufrágio ao largo da Lourinhã?

Humberto Jorge – O mar estava agitado, mas não era nada de anormal, e outras embarcações não foram afectadas. A tripulação é constituída por pessoas experimentadíssimas e muito cuidadosas. Pode ter sido uma onda de maior dimensão acompanhada de uma rajada de vento, num fenómeno meteorológico pontual localizado.

– O barco estava devidamente apetrechado ao nível da segurança?

– Era uma embarcação em bom estado de conservação e tinha sido feita uma vistoria em Janeiro para a obtenção do certificado de navegabilidade. Tem todos os equipamentos em dia.

– Porque é que não aparecem vestígios logo a seguir – só surgiram ontem à tarde – ao desaparecimento do barco?

– A última comunicação do mestre dizia que o barco estava a virar. Podem não ter tido tempo para lançar a balsa salva-vidas à água, que assim pode ter ido ao fundo juntamente com a embarcação, as redes e as bóias de sinalização.

SEM PISTAS DO QUE ACONTECEU

'É uma angústia muito grande. Trabalham para governar a vida e depois acontecem estas coisas', desabafa Herófilo Rato, cunhado de José Martinho, um dos tripulantes da embarcação naufragada.

O antigo pescador adiantou que o familiar também 'estava à espera da reforma, tinha metido os papéis no ano passado, depois de 40 anos de mar'. Na praia da Areia Branca, de onde podia observar as operações de busca, outro familiar, Rui Mateus, confessava que seria 'um milagre' se os pescadores aparecessem vivos. 'Não estamos à espera de boas notícias', lamentou, frisando que 'não há ninguém que se salve tanto tempo dentro de água'. Essa era também a convicção do comandante do Porto de Peniche, Patrocínio Tomás. 'À medida que o tempo passa a esperança de os encontrar vivos reduz--se', explicou.

O responsável adiantou que na altura do desaparecimento 'o mar não estaria calmo, mas não temos nenhuma pista sobre o que terá acontecido à embarcação'.

'ELE DEVE ESTAR PRESO NAS REDES DE PESCA'

O corpo de João Rui Vale, o pescador que desapareceu anteontem de madrugada na zona da Areosa, em Viana do Castelo, num naufrágio que também vitimou o seu irmão, continua por encontrar. As buscas são retomadas esta manhã, apesar da previsão de mau tempo.

Durante todo o dia de ontem os familiares e amigos do pescador acompanharam as buscas no local onde foram encontrados os destroços da embarcação ‘Patrik’ e o corpo da outra vítima, António Vale. 'Deve estar preso nas redes de pesca', disse ao CM o irmão das vítimas, Jorge Vale. Os náufragos saíram para a pesca do robalo e não tinham colocado os coletes.

DESTROÇOS: ENCONTRADOS

Alguns destroços da embarcação, encontradosa uma milha da costa, frente à praia Azul, Torres Vedras, foram transportados para o Porto de Abrigo de Peniche já ao final do dia

CAPARICA: TRÊS VITIMAS

Um barco com três pescadores naufragou a 8 de Fevereiro, na Costa de Caparica, provocando um morto e um desaparecido. O terceiro pescador salvou-se com ferimentos ligeiros

GALIZA: MORTOS NO ROSAMAR

O naufrágio do arrastão ‘Rosamar’, a 24 milhasa Norte de Burela, na costa da Galiza, matou oito dos 13 tripulantes, em Dezembro de 2008. Três das vítimas eram portugueses

 

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