Barra Cofina

Correio da Manhã

Exclusivos
4

Matou filha depois de a abraçar

João Pinto estrangulou a menina de 7 anos com o cordão do roupão. Deitou-a no sofá-cama e colocou-lhe um lençol como se ela estivesse a dormir.
21 de Janeiro de 2010 às 00:30
Maria João tinha apenas sete anos quando foi morta pelo pai. A mãe e as irmãs dizem que era uma menina muito bonita, alegre e inteligente
Maria João tinha apenas sete anos quando foi morta pelo pai. A mãe e as irmãs dizem que era uma menina muito bonita, alegre e inteligente FOTO: Rui Oliveira

 Maria João não parava de sorrir. Estava feliz por jantar com o pai e por o ter ao seu lado. Num gesto de ternura, a menina, de apenas 7 anos, abraçou-o e disse-lhe: 'Gosto tanto de ti pai, quero estar sempre ao teu lado.' João Pinto olhou demoradamente para a filha, retribuiu o carinho e pediu-lhe que se deitasse no sofá de barriga para baixo.

Maria João assim o fez e segundos depois sentiu o cordão do roupão que trazia ao pescoço, que o pai lhe tinha dito ser um cachecol do FC do Porto, ficar cada vez mais apertado. Era o pai que o puxava. A menina gritou, agitou as pernas e os braços, mas João não parou. Quatro minutos depois morreu. O pai pegou então no seu corpo, abriu o sofá-cama, deitou-a e colocou um lençol sobre ela, como se estivesse a dormir. Foi a 28 de Maio de 2009.

João foi preso e precisamente oito meses após a morte da menina, o homem irá sentar-se no banco dos réus do Tribunal de Matosinhos. Na acusação, a que o que o CM teve acesso, João confessa que estrangulou a filha, começou a esticar o cordão e acabou por sufocar a criança. O homem diz que nunca quis mal à menina. Queria suicidar-se e decidiu levá-la com ele para que não sofresse com a sua ausência.

Tal como na altura o CM avançou, o crime foi planeado ao pormenor. Naquele dia, João pediu à ex-mulher Rosa, de quem estava separado há dois anos, para jantar com Maria João. Disse-lhe que ia trabalhar para o Algarve e só voltava no dia 16. Mas não passava de uma mentira. João confessou depois que o objectivo era outro: estar com a filha antes de se suicidar.

Ao final da tarde foi buscar Maria João à escola. Levou-a até um parque de diversões, lancharam e foram para casa, em São Mamede de Infesta. Eram já 20h00 quando chamou a filha para jantar. Mas a comida nunca chegou a ser servida. João abraçou a filha e matou-a em seguida. Deitou-a no sofá, deixou um DVD da Barbie a passar na televisão e no portátil colocou a música do Tony Carreira 'Tu levaste a minha vida', que tocou repetidamente durante várias horas até o corpo da menina ser descoberto pelos bombeiros.

Às 22h50, João saiu de casa. Meia hora depois ligou ao INEM a contar que tinha matado a filha. Foi encontrado às 04h00 em Cabedelo, Gaia, com a roupa encharcada. Dizia que se queria matar, mas nunca o chegou a fazer. João está vivo e dia 28 responde em tribunal por homicídio qualificado.

MANDOU VÁRIAS MENSAGENS À EX-MULHER APÓS A MORTE

Vinte minutos antes de ligar para o INEM, João mandou uma mensagem para a ex-mulher onde dizia que a polícia já estava no apartamento. Não era verdade. Rosa acredita agora que o objectivo de João era obrigá-la a ver a filha morta.

Após sair de casa, o homem percorreu de autocarro a cidade do Porto. Pelo caminho mandou uma série de mensagens à ex-mulher. 'Não posso deixar a minha filha viver neste mundo sem pai, sem amor! Juras falsas! Ironia do destino; ainda te amo' e 'Tá a descansar eternamente com os anjos', são alguns exemplos. Durante a noite, o homem deu várias pistas falsas à PJ sobre o local onde estava.

AGIU DE FORMA CONSCIENTE

Vários exames foram pedidos de forma a provar uma suposta inimputabilidade de João. No entanto, todos apontam no mesmo sentido: quando matou a filha o homem estava consciente daquilo que fazia.

Os exames apenas dizem que na altura dos factos o arguido sofria de uma depressão com tendências suicidas. João é imputável. Não tem ideias delirantes nem alucinações. Apenas sofrimento psíquico pelo que fez.

CRONOLOGIA

17h30

João vai buscar Maria João à escola. Leva-a a um parque de diversões, lancham juntos e depois voltam para o apartamento em São Mamede de Infesta.

20h00

Depois de preparar o jantar, o homem chama pela menina. Maria João abraça o pai e pouco depois é estrangulada durante quatro minutos, com o cordão do roupão.

22h50

Após matar a filha João sai de casa. Liga à mulher a dizer que a polícia está lá, o que é mentira. Vinte minutos depois telefona ao INEM a contar o que fez.

04h00

João percorre a cidade do Porto de autocarro. Pelo caminho manda mensagens à mulher e dá pistas falsas à PJ sobre o local onde está. É encontrado em Cabedelo às 04h00.

SONHA COM A MENINA A GRITAR POR AJUDA

Rosa Ferreira, mãe de Maria João, não consegue recuperar do desgosto de ter perdido a filha. Assistente no processo, a mulher pede uma indemnização de 100 mil euros .

Bastante abalada, Rosa tem vivido em sofrimento desde então. Quando recebeu a acusação e leu a descrição dos acontecimentos, a mulher, mãe de duas jovens gémeas, ficou completamente transtornada. De noite teve um pesadelo, onde Maria João aparecia a gritar por ajuda. Rosa não acredita na versão do ex-marido. Diz que aquele nunca aceitou o divórcio e que cometeu o crime por vingança. João mandava-lhe mensagens insultuosas e ameaçadoras, onde dizia que se não quisesse perder a filha teria que a deixar viver com ele. O homem chegou a admitir que ficou abalado com o divórcio. 'Estava muito deprimido... gostava muito dela e ela arranjou outra pessoa', disse. Algum tempo antes de morrer, Maria João falou com a mãe sobre a morte. 'Se eu morrer quero que sejas muito feliz com as manas e te ponhas muito bonita, porque se tu morreres eu vou ser muito feliz com o pai e as manas', terá dito Maria João. Rosa prometeu à filha que ia cumprir o que ela lhe pediu, no entanto a dor impede-a de o fazer.

 

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)