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Médica tentou matar filha e está ao serviço

A médica que no início deste mês tentou matar a filha de dez anos e suicidar-se em simultâneo, com uma dose excessiva de soporíferos na sua casa de Telheiras, em Lisboa, continua a exercer a profissão no Hospital de Santa Maria.
28 de Dezembro de 2009 às 00:30
Mãe e filha correram risco de vida com dose excessiva de comprimidos
Mãe e filha correram risco de vida com dose excessiva de comprimidos FOTO: d.r.

Assim que teve alta, apurou o CM, a mulher de 49 anos regressou à sua actividade normal no serviço de Patologia Clínica, que tem por objectivo auxiliar médicos das diversas especialidades no diagnóstico de doenças e acompanhamento do estado de saúde dos pacientes através de análises. E continua também a ver a filha, que tem uma deficiência profunda.

A direcção do hospital não optou assim por qualquer medida de afastamento preventivo da médica. Não lhe foi imposta baixa psiquiátrica depois de ter cometido um crime premeditado (ver caixa). Esta não terá sido a primeira vez que tentou o suicídio – e a forte depressão, confirmada por pessoas próximas, deve-se em grande parte ao facto de a filha de dez anos sofrer de uma paralisia cerebral.

Contactado ontem pelo CM, José Pinto da Costa, assessor da administração do Hospital de Santa Maria, diz que esta 'não tem nada a ver com o assunto. São acontecimentos da vida privada, que tiveram lugar fora do hospital. É um caso dos tribunais e da polícia'. A administração, recorde-se, mantém a médica a trabalhar no mesmo serviço – tal como desde o início do Verão manteve a técnica de farmácia e o farmacêutico que, segundo o Ministério Público, são responsáveis, cada um, por seis crimes de ofensa à integridade física grave, correspondentes aos danos causados a seis doentes que cegaram por erro grosseiro daqueles dois funcionários.

Ao que o CM apurou, a criança vive no Alentejo com o pai, também ele médico, e já recebeu visitas da mãe desde que teve alta dos Cuidados Intensivos precisamente do Hospital de Santa Maria, onde lutou pela vida durante alguns dias. A PJ tem um inquérito em curso (ver caixa) mas para já não há uma medida de afastamento da mãe em relação à criança. Esta só pode ser imposta por decisão do Ministério Público.

INTERROGADA PELA JUDICIÁRIA

A médica do serviço de Patologia do Hospital de Santa Maria que tentou suicidar-se com a filha, de apenas dez anos, com uma dose excessiva de comprimidos, já foi ouvida pela secção de Homicídios da Polícia Judiciária de Lisboa, a quem foi distribuído o inquérito, depois de ter tido alta do hospital, apurou o CM. Para já, a mulher de 49 anos continua a trabalhar no e estará a ser assistida por uma equipa de psiquiatras. Enquanto isso, a PJ prossegue a investigação, sendo que o inquérito é dirigido pelo Departamento de Investigação e Acção Penal. O Código Penal qualifica o acto da médica como um crime de homicídio privilegiado ou qualificado. O primeiro é punido com pena de prisão até cinco anos, enquanto o segundo tem uma moldura penal que varia entre os 12 e os 25 anos.

'NUNCA ACEITOU DOENÇA DA FILHA'

'Ela nunca aceitou o facto de a filha ter uma paralisia cerebral e estar completamente dependente das outras pessoas. Isso provocava-lhe um grande desgosto', recordou na altura ao CM uma amiga da médica. Assim, no dia anterior à tentativa de suicídio, ocorrida na manhã do último dia 1, a profissional de saúde telefonou para o ex-marido a avisar de que iria pôr termo à vida. Já não era a primeira vez que tentava o suicídio. O desejo só não foi cumprido porque aquele, depois de insistentes telefonemas, temeu o pior e avisou as autoridades. Minutos antes de tentar o suicídio, a médica trancou todas as portas de sua casa, em Telheiras. Os Sapadores tiveram

de partir uma das janelas para entrar – e encontraram as duas vítimas, mãe e filha, deitadas na cama, e uma folha A4 com um pedido de desculpa pelos erros cometidos.

PORMENORES

COLEGAS PERPLEXOS

O acto da médica apanhoude surpresa todos os colegas e outros funcionários do hospital, uma vez que 'não transparecia sintomas de depressão', disseram na altura ao ‘CM’.

FILHO DE 18 ANOS

Além da filha de dez anos quesofre de paralisia cerebral, amédica tem um filho, de 18 anos, que também vive com o pai.

DESINTOXICAÇÃO

Mãe e filha foram alvo de uma desintoxicação que lhes salvou a vida, depois da ingestãode comprimidos em excesso.

ADORAVA A FILHA

'Não a julgo. Ela adorava a filhae sempre fez muita força para que se tornasse cada vez maisindependente', disse na altura ao CM uma amiga da médica.

FILHA SOZINHA

'A ideia de que a filha pudesse ficar sozinha no mundo atormentava-a', segundo a amiga.

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