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Médico faz nova vítima em clínica privada

Abusou de doente num centro de tratamento, depois de 20 crimes no hospital.
31 de Março de 2011 às 00:30
Última vítima conhecida, doente, foi abusada já em 2010
Última vítima conhecida, doente, foi abusada já em 2010 FOTO: Roberto Pujales

Depois de já ter sido expulso da Função Pública devido aos mais de 20 abusos sexuais no Hospital de Santa Marta, cometidos até 2009 (ver entrevista com mais uma vítima, que ainda não foi à PJ), o cirurgião Alcídio Rangel passou a dar consultas só no sector privado, desde Fevereiro de 2010, sem que a Ordem dos Médicos ou a Justiça o impedissem. Foi ali, no gabinete de uma clínica em Lisboa, que atacou outra doente.

O último crime conhecido, num 1º andar da rua Gonçalves Crespo, foi cometido no ano passado, depois de os organismos do Estado já terem fortes indícios de que estavam perante um predador sexual.

Os técnicos da Inspecção de Saúde concluíram, num relatório de 2008, que o médico Alcídio Rangel, hoje com 61 anos, assediava e abusava sexualmente das suas doentes – o que levou os juízes do Tribunal Central Administrativo do Sul a expulsá-lo da Função Pública. Toda esta informação passou depois disso a ser do conhecimento do Conselho Disciplinar da Ordem e do Ministério Público.

Enquanto o primeiro nada fez que impedisse o predador de exercer no sector privado – o novo bastonário pediu ontem "urgência na avaliação deste do caso", depois de o CM o ter divulgado (ver caixa) –, os procuradores da 2ª Secção do DIAP limitaram-se a constituir o cirurgião arguido (ver caixa).

O médico Alcídio Rangel, que em Santa Marta abusava das doentes que operava às varizes, instalou-se então no Centro de Tratamento e Apoio Médico, entretanto desactivado, onde mais uma doente foi vítima de abusos sexuais. Está entre as mulheres que já se queixaram à Polícia Judiciária.

O CM tentou contactar Alcídio Rangel, através da clínica Dentro Centro, onde até ontem o médico manteve gabinete, sem sucesso. 

CALOU-SE NO DIAP E FOI PARA CASA

Alcídio Rangel foi chamado por um magistrado da 2ª secção do DIAP de Lisboa, coordenada pelo procurador João Guerra, e remeteu-se ao silêncio: como arguido, é um direito que lhe assiste. O magistrado, adiantam ao CM fontes judiciais, chamou-o antes de ouvir as vítimas. Estas estão agora a ser chamadas pela PJ, conforme algumas têm contado ao CM. O Ministério Público deixou o suspeito sair com termo de identidade e residência, sem o levar a um juiz de instrução que lhe pudesse aplicar uma medida de coacção que o impedisse de exercer medicina junto de potenciais vítimas de abusos.

MULHER ABUSADA: "DEITADA NA MACA E ELE A APALPAR-ME"

 ‘Maria’, 56 anos, ainda não foi à PJ. Diz-se "desiludida com a Justiça"

Correio da Manhã – Em que circunstâncias conheceu o médico Alcídio Rangel, em 2008?

‘Maria’ – Sempre tive problemas de varizes e fui a uma série de consultas com ele, no Hospital de Santa Marta, antes de me submeter a uma cirurgia. Mas o médico começou a meter-se comigo logo na segunda consulta. Assediou-me e fez alguns comentários ordinários.

– Como é que reagiu?

– Saí de lá assustada e lembro-me de ter contado tudo a uma enfermeira, perguntando-lhe se aquilo era normal. Ela riu-se, desvalorizou o caso e disse-me que não ligasse – que o doutor Alcídio Rangel era mesmo assim, ‘um brincalhão’.

– Mas não desistiu da cirurgia às varizes que ele entretanto lhe marcou, no mesmo hospital.

– Não desisti porque precisava – estava a sofrer com dores e precisava daquela operação. Mas tomei precauções no dia da cirurgia, o meu filho foi comigo ao hospital.

– O que não evitou os abusos.

– Não evitou porque fui atacada pelo médico dentro do próprio bloco operatório, um descaramento. Com um anestesista e uma enfermeira ali ao pé. Estava sob anestesia epidural, mal me podia mexer, e ele de repente a meter-me as mãos por dentro da bata, a mexer-me nos seios e a beijar-me. Tudo sempre com umas conversas nojentas.

– Não o conseguiu afastar?

– Estava deitada em cima de uma maca, numa situação complicada, muito diminuída. Nem queria acreditar naquilo, mas acabei por empurrá-lo. O homem foi nojento.

– Não ficou a dormir no hospital?

– Felizmente não, a minha sorte foi ter sido operada em ambulatório. Saí dali a correr e nunca mais voltei. Depois da operação era preciso intervir noutras veias, mas nunca mais consegui ir àquele hospital e ver aquele médico. Foi um trauma grande, um pesadelo que guardei só para mim algum tempo.

– Já foi à Polícia Judiciária?

– Não, só queria esquecer. Até que soube hoje [ontem] pela vossa notícia que há mais cerca de 20 mulheres vítimas daquele homem – e que ele ainda exerce. Um escândalo.

– Porque é que aceitou dar esta entrevista, ter de reviver tudo?

– Achei que o meu testemunho seria mais um contributo para que ele seja punido – no mínimo afastado das doentes a quem faz mal, já que a Justiça não o prende. É importante que a opinião pública saiba disto.

– Conhece outras vítimas?

– Não, soube que existem pelo CM e senti este impulso de falar quando vi a fotografia dele. Outras mulheres, que tenham passado a noite no hospital depois de operadas, imagino o que devem ter sofrido.

ORDEM NÃO PODE SUSPENDER

O bastonário da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva, afirmou que, "face aos estatutos da Ordem, com 33 anos, e à legislação vigente, a instituição não podia tomar uma posição" sobre o caso do médico Alcídio Rangel. "A suspensão preventiva tem limites. Só quando estiver concluído o processo e a sentença transitada em julgado é que a Ordem pode tomar uma decisão final sobre o processo disciplinar que decorre, que pode passar pela expulsão", afirmou José Manuel Silva. O bastonário pediu "urgência na avaliação" deste caso.

DISCURSOS DIRECTOS

JÚLIO MACHADO VAZ, PSIQUIATRA: "TEM DE SER TRAVADO"

Correio da Manhã – Um caso deste género pode indicar um agressor com uma compulsão?

Júlio Machado Vaz – Teoricamente sim. Se os factos são estes, parece ser uma situação reiterada, alguém que repete os actos a não ser que seja apanhado.

– Deve ser tratado?

– Se tiver mesmo uma compulsão só poderá ser travado por uma acção externa.

– O facto de ser médico assume maior gravidade?

– É muito grave. As pessoas confiam como se fosse família.

MENDES SILVA, PRESIDENTE DO CONSELHO DISCIPLINAR DO SUL: "ORDEM NÃO INVESTIGA"

Correio da Manhã – Porque é que a Ordem não tomou já uma decisão sobre este médico?

Mendes Silva – A Ordem e o Conselho Disciplinar não têm meios de investigação, que é da competência do Ministério Público e da Polícia, e o novo conselho tomou posse há apenas dois meses.

– O médico continua a exercer.

– Na próxima terça-feira vamos analisar o caso.

– O cirurgião Alcídio Rangel já foi ouvido pela Ordem?

– Não posso comentar, pois o caso está sob segredo.

ESCLARECIMENTO

Ao abrigo da lei de Imprensa e na qualidade de Directora do DIAP de Lisboa, solicito a publicação do seguinte esclarecimento:

1. Nas edições dos dias 30 e 31 de Março, foram publicados dois artigos com os títulos ‘Cirurgião abusa de 20 doentes’ e ‘Médico faz nova vítima em clínica privada’, atribuindo o processo aos Magistrados da 2ª secção do DIAP de Lisboa e tecendo-se considerações infundadamente censuratórias da actuação do MP neste caso concreto, designadamente quanto ao senhor Procurador da República, dr. João Guerra.

2. Esclarece-se que o processo não é da 2ª secção do DIAP, não é da titularidade do senhor Procurador da República mencionado várias vezes a despropósito, mas sim da 5ª secção de processos.

3. Seja como for o MP tomou as medidas processuais proporcionadas e adequadas ao caso concreto, diligenciou pela salvaguarda da prova , pela protecção dos valores ofendidos e pela rápida conclusão deste inquérito.

4. Saliento que o médico em causa se encontra afastado pelo Serviço Nacional de Saúde.

5. Neste momento o processo encontra-se em investigação na Polícia Judiciária, na qual o Ministério Público delegou competências para a conclusão do inquérito.

6. Oportunamente, após a elaboração do despacho final que compete ao MP, os autos poderão ser consultados para conhecimento do trabalho do MP, aliás como tem sido habitual neste Departamento.

Maria José Morgado

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