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Menina de dois anos abusada e morta

O suspeito do abuso e homicídio de uma bebé de dois anos, em Albufeira, no Algarve, foi preso pela Polícia Judiciária de Faro. Robi, um brasileiro de 20 anos ilegalmente em Portugal, é o presumível autor do crime que está a chocar o País: a pequena Angelina – filha de imigrantes ucranianos, nascida em Albufeira – foi abusada sexualmente e sofreu graves traumatismos que lhe causaram a morte, quarta-feira, no Hospital Distrital de Faro.
16 de Setembro de 2006 às 13:00
A menina era filha de pais separados. Estava a cargo da mãe Lyubov Mulyak, de 25 anos – que vivia com o namorado, Ruben, e o irmão dele, Robi, ambos brasileiros, no anexo de uma moradia na zona da Galé, Albufeira.
Robi, sem ocupação, ficava habitualmente com a menina enquanto a mãe e Ruben iam trabalhar, num hotel da Galé. Na última quarta-feira, Angelina, como habitualmente, ficou em casa com Robi. Nesse dia, ao princípio da tarde, chamou uma ambulância – mas não esperou: correu com a menina para o Centro de Saúde de Albufeira.
A bebé apresentava graves lesões no abdómen. Robi disse que a menina sofreu uma queda num momento em que ele, distraído, jogava ‘playstation’. A desculpa não convenceu o médico que observou Angelina. A bebé foi enviada de ambulância para o Hospital Distrital de Faro – onde morreu, pelas 19h00, após uma intervenção cirúrgica.
A autópsia confirmou que a menina foi abusada e sofreu pancadas violentas no abdómen. A Polícia Judiciária, na madrugada de ontem, deteve Robi, suspeito do crime.
A antiga ama da menina, Isilda Pereira, disse ao CM que viu a menina, em finais de Maio, com “uma nódoa negra na cara”. Diz, ainda, que Angelina, desde que saiu dos seus cuidados, em Abril, era mal alimentada. Isilda garante que alertou o tio materno da menina. “Ele chorou comigo e disse-me que já tinha discutido com a irmã e não podia fazer nada” – recorda Isilda Pereira.
Há dois meses, Angelina terá dado entrada no Centro de Saúde de Albufeira para ser suturada a uma ferida na cabeça. Nessa altura, foi explicado aos médicos que se tratou de um acidente doméstico.
O pai de Angelina, Vadym Podlesnyy, não acredita em acidente. “Eles mataram-na. Ela não caiu, eles maltrataram-na”, disse ao CM, ontem, entre lágrimas, à porta da Capela de Santa Ana, em Albufeira, onde o corpo da menina foi velado. Vadym, que trabalha no Algarve numa empresa de piscinas, não via Angelina há seis meses – porque, diz, a mãe não deixava. Nem conseguiu dar à filha o urso e cão de peluche que lhe comprou para o aniversário, em Agosto.
ANEXO
A bebé vivia há 4 meses com a mãe e dois brasileiros no anexo de uma vivenda na Galé. Os senhorios nunca deram por nada de estranho.
CHOCOLATE
Angelina era vista com frequência num minimercado, acompanhada por um jovem brasileiro que lhe oferecia sempre um chocolate.
AMA
Isilda Pereira já alertara familiares. “A partir da data que este Robi começou a cuidar dela, percebi que já não era a mesma. Antes era feliz”.
DETIDOS POR CRIMES SEXUAIS
Os crimes sexuais deram origem, em 2005, a 180 detenções, o que se traduz num aumento em relação a 2004, em que a PJ deteve 172.
CRIANÇAS NO 'TOP' DOS ABUSOS
A maior parte dos detidos pela prática de crimes sexuais abusaram de crianças. Em 2005 representaram 66,1 por cento das detenções.
OUTROS DADOS
SETE MORTES
A morte, no Algarve, de uma menina de dois anos, eleva para sete o números de menores que faleceram, desde 2003, vítimas de violência infligida por familiares ou vizinhos.
COMISSÃO DESCONHECIA
A Comissão de Protecção de Crianças e Jovens de Albufeira desconhecia a situação da criança de dois anos que morreu na quarta-feira no Hospital de Faro, vítima de maus tratos. “A situação não estava sinalizada nem havia qualquer processo em nome da criança”, disse ontem Ana Vidigal, presidente daquela comissão.
INDEMNIZAÇÕES
Nos últimos quatro anos, o Estado pagou, em média, um milhão de euros em indemnizações às vítimas de crimes violentos, disse ontem, em Lisboa, o secretário de Estado da Justiça, Tiago Silveira.
MENORES
As vítimas de crimes violentos podem pedir uma indemnização ao Estado até um ano depois de atingirem a maioridade, caso o seu representante legal à altura dos factos não o tenha feito.
DIREITO DE ALIMENTOS
Em caso de morte da vítima de crime violento, as pessoas a quem a lei conceder um direito de alimentos podem solicitar uma indemnização ao Estado. As indemnizações também podem ser requeridas pelas pessoas que auxiliarem voluntariamente a vítima ou que colaborem com as autoridades na prevenção ou detenção do delinquente.
15 A 90 MIL EUROS
O limite das indemnizações do Estado vai dos 15 mil euros, para pessoas individuais, até aos 90 mil se for mais de uma vítima a apresentar queixa pelo mesmo crime violento.
100 PEDIDOS/ANO
A Comissão de Protecção às Vítimas de Crime recebe cerca de 100 pedidos de apoio por ano de vítimas de crime violento.
UNIÃO DE FACTO
Em caso de violência doméstica, as pessoas que vivem em união de facto têm os mesmos direitos das casadas, pelo que podem solicitar indemnizações ao Estado.
TRÊS CRIMES TODOS OS DIAS
A Polícia Judiciária investigou 490 queixas por abuso sexual de crianças no primeiro semestre deste ano, que deram origem a 59 detenções. Isto significa que houve, em média, quase três abusos por dia participados às autoridades.
Mesmo assim, o número de crimes está a diminuir: menos 18 por cento nos últimos três anos (ver quadro). As autoridades policiais acreditam que a situação resulta de uma maior consciencialização para o problema, aliada a uma intolerância mais vincada, surgida na última década, após o processo da Casa Pia.
“A denúncia passou a ser a regra e hoje em dia ninguém fica indiferente aos abusos sexuais”, refere um elemento da PJ, entidade responsável pela investigação destes crimes.
De acordo com a estatística da PJ, no ano passado houve 897 queixas por abuso sexual de crianças – uma diminuição em relação a 2004 e 2003, em que se registaram, respectivamente, 1038 e 1093 denúncias.
Além da diminuição do número de queixas, verifica-se também uma redução do tempo entre a prática dos crimes e as denúncias, que tem origem na família, na escola, nas unidades de saúde e nos vizinhos, em regra geral.
“Com o processo Casa Pia chegou-se a uma consciencialização extrema e as denúncias passaram a ser a regra e não a excepção”, explicou um investigador da PJ. Nesta Polícia, tem-se verificado um “esforço de especialização” da investigação, dada a fragilidade das vítimas e a dificuldade em reunir provas. Há hoje uma forma de trabalhar mais sistemática e uma estratégia clara de partilha de experiências e de monitorização de procedimentos.
Na Directoria de Lisboa da PJ, por exemplo, foram criadas equipas de prevenção de crimes sexuais, que estão de serviço 24 sobre 24 horas. A medida data de Agosto de 2004 e tem permitido uma actuação mais rápida e eficaz.
Com a sociedade em alerta para este problema, surgiram também programas de prevenção de abusos sexuais, de que é exemplo a Direcção Regional de Educação do Centro.
DENÚNCIA
O abuso sexual de crianças ganhou mais visibilidade a partir de Setembro de 2002, com a primeira denúncia de um aluno da Casa Pia. Nos meses seguintes o País conheceu o pesadelo vivido por aqueles meninos e as denúncias não tardaram em surgir. Em 2003 a PJ investigou 1093 queixas por abusos sexuais de crianças, mais do dobro que em 2002.
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