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Menos 400 milhões na venda de roupa (ACTUALIZADA)

A onda de calor que nas últimas semanas tem assolado Portugal está a causar enormes prejuízos no comércio de vestuário. Por todo o País, as montras apresentam os novos modelos de Inverno, mas poucos os compram.
16 de Outubro de 2009 às 22:00
Clientes vestidos para o calor de Outono não sentem vontade de comprar casacos ou cachecóis
Clientes vestidos para o calor de Outono não sentem vontade de comprar casacos ou cachecóis FOTO: Pedro Catarino

Paulo Vaz, director-geral da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, fala de uma quebra na ordem dos 40%, em relação a igual período do ano passado, o que, em termos globais, representará um corte de mais de 400 milhões de euros na facturação deste mês.

“Os comerciantes com quem temos falado retratam um quadro muito negro, lembrando que as perdas que agora estão a registar já não serão recuperadas”, disse Paulo Vaz ao CM.

A factura total do comércio têxtil em Portugal é superior a vinte mil milhões de euros anuais, sendo que o vestuário representa mais de 75% desse valor.

Mais de 35% das vendas ocorrem nas épocas de saldos, pelo que as épocas das novas colecções registam sempre uma quebra nas vendas.

“Não há dados objectivos, já que se trata de um sector de apuramento muito complexo, mas rondando as perdas 40% por causa do calor, podemos falar, seguramente, num prejuízo de 400 milhões de euros  no espaço de um mês”, disse Paulo Vaz, sublinhando que “é absolutamente normal que, com 30 graus, ninguém compre casacos”.

“Só a um muito bom preço, como estes descontos a 50% que temos nos casacos, é que alguém compra numa semana de calor como esta”, desabafa um lojista do Chiado ao nosso jornal.

As lojas da rua Augusta, todas com a colecção Outono/Inverno nas montras, temem não recuperar do prejuízo de não conseguirem escoar stocks. “Estamos há algum tempo com a nova colecção. Os clientes até ficam interessados numa peça, como um cachecol, mas depois reconsideram. Só vamos começar a vender quando o tempo ficar frio.”

A gerente de uma das lojas não está contudo preocupada com as quebras que admite ter: “Não nos surpreende muito estarmos a pouco gás nesta altura do ano. Com a crise que atravessámos, o comércio do vestuário depende essencialmente do Natal. Quem não conseguir equilibrar as vendas nessa altura, aí sim, corre o sério risco de ir à falência.”

SAIBA MAIS

PREÇO TRIPLICA

O preço da roupa no retalho triplica em relação aos custos de produção. Uma camisa vendida por trinta euros sai da fábrica a dez euros.

15

mil milhões de euros é o volume de negócios anual do comércio de vestuário no País.

5,5

mil milhões de euros é o valor da factura da indústria do têxtil no sector do vestuário.

MALHAS SÓ VÃO PARA A MONTRA QUANDO VIER FRIO

Andar na rua, ao sol e com uma temperatura de 30 graus, convida a tudo menos a comprar roupa quente. Por isso, os gerentes de algumas lojas do centro de Braga resolveram colocar as colecções de Inverno nas montras, mas sem recurso às malhas. 'Uma pessoa de t-shirt olha para uma montra e vê uma camisola de lã e de gola alta nem sequer entra na loja. Por isso, optámos por peças mais leves, de maneira a que não se dê aquele choque térmico, digamos assim', disse ao CM o comerciante Francisco Torres, assegurando que 'as malhas só vão para a montra quando vier o frio'.

DISCURSO DIRECTO

'ALTERAR ESTRATÉGIA', Aniceto Gonçalves, Gerente de Loja de Vestuário

Correio da Manhã – Este calor causa prejuízos ao comércio do vestuário. Já fez as contas?

Aniceto Gonçalves – Não, ainda não fiz contas, mas posso dizer que desde que acabaram os saldos, a 15 de Setembro, as vendas caíram entre 35% a 40% em relação ao ano passado.

– Não deveria mexer-se no calendário de colocação das novas colecções?

– Bom, este tipo de situação não acontece todos os anos, embora esteja a tornar-se mais frequente. Penso que temos de reflectir. E alterar a estratégia!

– Como?

– Aprendendo com os espanhóis. Como pode ver, nas grandes cadeias, como a Zara, eles inventaram a chamada roupa de meia--estação, ou seja, aquelas peças que, não sendo de Inverno, atenuam o frio e, mesmo com sol, não repugna comprar.

– Quando chegar o frio, acredita que as perdas poderão ser compensadas?

– Esse é o grande o problema. As vendas deverão subir, mas não se consegue compensar o perdido.

FIM-DE-SEMANA COM DESCIDA DE TEMPERATURA

Não se assustem aqueles que pretendem ir para a praia este fim--de-semana e aproveitar o prolongamento do Verão. Apesar da ligeira descida da temperatura prevista pelo Instituto de Meteorologia (IM), o mercúrio dos termómetros irá manter-se acima dos 25 graus em todo o território continental.

Para amanhã as previsões apontam para céu pouco nublado ou limpo, temporariamente nublado por nuvens altas e pequena descida das temperaturas mínima e máxima. No domingo, as condições pioram um pouco, verificando-se céu pouco nublado, temporariamente muito nublado por nuvens altas. No site do Instituto de Meteorologia pode ler-se que vai haver uma 'pequena descida de temperatura no litoral Oeste'.

PORMENORES

DESEMPREGO ABRANDA

O ritmo de perda de postos de trabalho no sector do retalho abrandou ligeiramente em Agosto, na Zona Euro.

DONA DA ZARA

Na primeira metade do ano, a Inditex, dona da Zara e maior retalhista de moda do Mundo, revelou ter tido um aumento das vendas na ordem dos 9%.

BOAS EXPECTATIVAS

Apesar da imprevisibilidade da meteorologia, a Inditex espera um forte crescimento das vendas no 2.º semestre deste ano.

RIVAL SUECA

A H&M, rival da Inditex e 2.ª maior retalhista, teve um crescimento de 4% nos lucros do 1.º semestre.

PORTUGUESES RUMAM AO SUL

No Algarve, o bom tempo está a ser encarado como benéfico para o turismo pelas entidades responsáveis. Mas são esperados, essencialmente, visitantes nacionais que têm segunda habitação na região.

'Os mercados mais distantes, que normalmente utilizam hotéis e empreendimentos turísticos, planeiam férias e não estão à espera do bom tempo', explicou ao CM Elidérico Viegas, presidente da Associação de Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA). 'Ocasionalmente, algumas pessoas, a quem sobrou algum dinheiro do orçamento para o Verão, poderão vir usufruir dos preços mais atractivos, ao saberem do bom tempo', reconhece.

A mesma ideia tem Nuno Aires, presidente da Entidade Regional do Turismo do Algarve (ERTA). 'Não temos uma previsão em termos de números mas, com Lisboa a duas horas de carro, as pessoas que têm segunda casa no Algarve devem aproveitar o bom tempo para vir à região'. Por outro lado, destaca, 'com a nova ligação aérea entre o Porto e Faro é provável que mais gente do Norte de Portugal e mesmo da Galiza se desloque até ao Algarve'. Os benefícios financeiros são apontados especialmente para os restaurantes e lojas.

CASTANHAS: VENDA EM BAIXA

A venda de castanhas assadas é uma das actividades que mais sofrem com o chamado sol de Inverno. É como diz Adozinda Luís: 'Com este calor, ninguém quer as quentinhas'.

EXPORTAÇÃO: QUEBRA DE 5%

A Associação dos Têxteis de Portugal fez as contas e acredita que a desvalorização do dólar face ao euro possa resultar em quedas da ordem dos 5% a 6% nas exportações têxteis do País.

FUNDO: GARANTIA SALARIAL

Dos 10 325 requerimentos pendentes em Agosto no Fundo de Garantia Salarial da Segurança Social, cerca de 45% diziam respeito a empresas do sector têxtil.

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