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Morreu às mãos do filho que a explorava

As cenas de pancadaria eram constantes e os berros de dor de Henriqueta não raramente eram ouvidos por toda a rua. Aos 36 anos, Eugénio ficava indomável quando alcoolizado e a mãe, que o sustentava, era quem mais sofria. No dia 29 de Dezembro, debilitada pelas hepatites B e C, não resistiu às sevícias do filho, que saiu de casa e a abandonou, deixando-a sem comer, em agonia. Segundo a polícia, a morte resultou de uma violenta pancada na cabeça com objecto contundente.
5 de Janeiro de 2008 às 13:00
Foi o alegado agressor que chamou o INEM dois dias depois do ataque, quando a vítima, de 59 anos, jazia morta no apartamento onde vivia, na praça da Alegria, no Porto. Eugénio ainda tentou desviar as atenções alegando aos investigadores que a mãe escorregara nas escadas, mas a uma vizinha que esteve em sua casa quando a mãe foi transportada para o Instituto de Medicina Legal (IML) contou que esta teria bebido demasiado champanhe misturado com antidepressivos.
“Ao lado do corpo da mãe não o senti nervoso. Estava até muito pesaroso e a chorar a sua morte”, disse ao CM uma testemunha.
Na passada terça-feira, depois das investigações policiais, foi detido e, após ser ouvido pelo juiz do Tribunal de Instrução Criminal do Porto, ficou preso preventivamente.
A convivência entre mãe e filho era um exemplo da mais pura miséria humana. Ela, doente e alcoólica, prostituía-se para dar dinheiro ao filho, que logo gastava em droga. Eugénio, tal como a mãe, recebia o rendimento social de inserção e estava a fazer tratamento de metadona, mas outro vício emergia: o álcool.
A VIDA NUM INFERNO
Segundo a vizinhança, Eugénio não dava descanso à mãe e para os insultos e agressões não era preciso grande rastilho. “Se de dia dormiam, à noite não deixavam ninguém dormir”, disse ao CM uma vizinha. A situação piorou nos últimos tempos e as colegas de Henriqueta, na rua do Bonjardim, onde costumava prostituir-se, afirmam que poucos dias antes da morte apareceu com um grande golpe na cabeça e marcas na cara.
Os moradores reconhecem que Henriqueta também bebia: “Muitas vezes víamo-la, depois de receber o dinheiro do rendimento mínimo, com a saca cheia de garrafas de vinho e cerveja.”
O que sobrava para o álcool, segundo a vizinhança, faltava para a alimentação. “Ela vinha frequentemente cá a casa pedir comida e dinheiro para o tabaco. Queixava-se muito das doenças e ela, pelo aspecto, aparentava ser mais velha”, disse outra vizinha. “Sofreu muito”, acrescentou, melancolicamente.
Ao princípio, Henriqueta encobriu as agressões do filho, mas as discussões e gritos constantes não deixavam margem para dúvidas. Mais tarde, acabou por contar às amigas mais próximas o sofrimento por que passava. Mesmo quando as investidas aumentaram de intensidade, nunca teve coragem para as denunciar.
Henriqueta arrastava-se pelas ruas e nas Fontainhas não havia quem não conhecesse a sua expressão triste. “Estava tão doentinha e continuava a ir para a ‘vida’ por causa do filho. Eu tinha muita pena dela, era uma senhora com estudos e muito educada. Mas por causa do filho perdeu tudo, até a relação com a família”, revelou uma amiga da vítima. Henriqueta, segundo o CM apurou, antes de se prostituir trabalhava como funcionária pública.
MORREU DE FALTA DE ASSITÊNCIA
Henriqueta morreu por falta de assistência médica. A autópsia médico-legal não deixou dúvidas de que a agressão de que foi vítima terá sido violenta. Apresentava lesões na cabeça, mas terá sido a falta de assistência e as múltiplas hemorragias que a mataram. Apresentava igualmente sinais de subnutrição e marcas de agressões sofridas anteriormente. O que não terá ajudado a que conseguisse superar as mazelas, tão-pouco arranjado forças para pedir auxílio.
"ÁLCOOL E DROGA NÃO SÃO DESCULPA"
Para a socióloga Isabel Dias, especialista em violência na família, as agressões dos filhos aos pais não são em maior número actualmente do que no passado. “Simplesmente o fenómeno está mais visível”, disse ao nosso jornal.
Sem querer pronunciar-
-se sobre o caso em concreto, a especialista afirmou que “mesmo em situações socialmente débeis o álcool e toxicodependência não são desculpa para estes comportamentos”.
“As substâncias aditivas podem é potenciar os comportamentos violentos que já pré-existem”, acrescentou.
Isabel Dias admite que é comum nestas situações os agressores usarem a toxicodependência e a alcoolemia como factores desculpabilizantes. “Vêem nesses comportamentos um motivo para serem perdoados pela comunidade ”, diz.
Esta realidade é, segundo a socióloga, ainda muitas vezes encoberta. “Para termos uma percepção do fenómeno, temos de multiplicar por dez cada caso que vem a público.”
"GANHAVA DINHEIRO PARA ELE"
À porta da pensão onde se prostituía, na rua do Bonjardim, no Porto, três companheiras de Henriqueta, que ali era conhecida por ‘Lara’, manifestaram veementemente ao Correio da Manhã a revolta pelo destino da amiga.
“Era explorada pelo filho, que às vezes vinha até aqui para a insultar. Andava na ‘vida’ para ganhar dinheiro para ele gastar na droga e agora fez-lhe isto”, contou Elisa Sá, 47 anos.
A amiga recorda que uma Henriqueta “magrinha, baixinha, cabelo branco e muito doente” apareceu pouco depois do Natal na pensão para receber um bolo-rei de prenda. Foi a última vez que a viu.
“Na altura vinha com um grande golpe na cabeça e com o olho todo pisado. Tinha sido a última vez que ele lhe tinha batido”, recordou. Mesmo nessa altura, não foi ao hospital tratar das feridas graves. Temia não saber o que dizer quando os médicos lhe perguntassem como é que tinha feito as mazelas.
ENCOBRIA O FILHO
Henriqueta só muito a custo denunciou o filho como autor das agressões. “Ao princípio nunca dizia que era ele. Só passado muito tempo, quando já não aguentava mais a repetição das agressões, é que nos revelou. Uma vez apareceu aqui com as costelas partidas”, afirmou Elisa. A amiga confidenciou que a vítima quase “não comia”.
Outra companheira da vítima recorda-a como uma “pessoa muito educada”, mas com “um ar extremamente triste, que quase nunca falava”. “Toda a gente sabia que ela aqui andava para ganhar dinheiro para o filho”, acrescentou.
Num café no Campo 24 de Agosto, onde Eugénio costumava fazer uns biscates, o proprietário confirmou ao CM que este era “um alcoólatra inveterado”. O indivíduo de 36 anos é divorciado e tem uma filha menor. Deixou de trabalhar e, com atestado médico, recebe o rendimento social de inserção.
“Como tinha experiência na área de hotelaria fazia aqui umas horas. Mas não o deixava beber no café. Era capaz de chegar aqui e beber facilmente dez brandy. No entanto, nunca o vi a ser agressivo para ninguém”, afirmou.
TUDO ISTO É TRISTE: A Opinião de Pe. José Maia
É bem verdade o que diz o povo: “Uma desgraça nunca vem só!”
Aconteceu na cidade do Porto. Um homem divorciado com registo de frequentes desentendimentos com a sua própria mãe, a viver com esta numa casa em acentuada degradação, agrediu-a de forma violenta, a ponto de lhe provocar a morte. Escondeu-a dois dias em casa, chamou o INEM, ao qual deu como causa de morte lesões por queda!
Enquanto a PJ foi ao local para os procedimentos da praxe – e antes mesmo de qualquer conclusão de inquérito – fica-nos a sensação amarga de que são mais do que muitas as famílias desestruturadas em situação de coma afectivo que, com mais ou menos violência, se assumem como farrapos humanos na forma de gente que se sente perdida e em solidão no meio de multidões indiferentes que passam e andam sempre, sem se preocuparem com o que se passa ao seu redor.
Tudo isto existe, tudo isto é triste e…, não se fazendo nada, tudo isto continuará a ser fado. Uma fatalidade!
PGR QUER VER AUTARCAS A DENUNCIAR
O procurador-geral da República (PGR) elegeu a violência contra idosos como uma das prioridades em 2008. Pinto Monteiro disse ao CM que será pedido às juntas de freguesia que denunciem os casos de violência contra os mais velhos que conheçam, de forma a serem accionados os devidos mecanismos penais e cíveis. “Vou pedir às juntas de freguesia – através das procuradorias distritais de Lisboa, Porto, Évora e Coimbra – que, como se trata de um crime público, denunciem os crimes.” A resposta dos autarcas não se fez esperar. A Associação Nacional de Freguesias já manifestou publicamente a disponibilidade para participar.
NOTAS
349 QUEIXAS EM 2006
A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima recebeu 349 queixas de violência sobre idosos em 2006, mais 38 por cento dos casos registados em 2005
FAMILIARES AGRESSORES
Filho e marido são os agressores mais comuns. Os maus tratos psíquicos e físicos estão no topo da lista de crimes contra idosos
MUITO DEBILITADA
No Bonjardim as colegas da vítima afirmam que esta lhes revelou que era agredida pelo filho. Henriqueta estava muito doente e debilitada
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