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MP pede alteração das medidas de coacção

O Ministério Público (MP) solicitou à juíza Ana Peres a alteração das medidas de coacção dos arguidos do processo Casa Pia. Segundo apurou o CM, o procurador João Aibéo quer que Carlos Cruz, Manuel Abrantes, Ferreira Diniz, Gertrudes Nunes, Hugo Marçal, Jorge Ritto e Carlos Silvino estejam impedidos de contactar com qualquer vítima de pedofilia. O requerimento já está nas mãos de Ana Peres. Até ontem, a magistrada ainda não se tinha pronunciado.
6 de Setembro de 2005 às 13:00
O médico Ferreira Diniz (à esq.) está a ser julgado por 18 crimes de abuso sexual de crianças
O médico Ferreira Diniz (à esq.) está a ser julgado por 18 crimes de abuso sexual de crianças FOTO: Natália Ferraz
A intervenção do MP deveu-se a Ferreira Diniz ter estado cara a cara com um dos casapianos que o acusa de abusos sexuais. De acordo com o que soube o CM, tal encontro aconteceu em Julho, no Centro de Saúde da Graça, extensão da rua do Alecrim, em Lisboa, e teve a ver com o facto de o jovem (‘Nuno’, de 18 anos) necessitar de consultar um médico, por causa de uma forte dor de garganta.
Na altura, ‘Nuno’ estava com uma amiga que o aconselhou a ser observado por um clínico seu conhecido que exercia funções num dos locais referenciados no processo de pedofilia. Deslocaram-se à rua do Alecrim. No entanto, o clínico conhecido da amiga que o acompanhava não estava no local, por ter aderido à greve que estava em curso. Como as dores na garganta não passavam, o jovem solicitou que fosse consultado por algum dos médicos que estivesse disponível. Passado cerca de meia hora, uma funcionária encaminhou-o para um dos consultórios. E foi então que ‘Nuno’ deu de caras com Ferreira Diniz, a quem reconheceu de imediato. Apesar de ter ficado constrangido, o jovem deixou que o arguido o observasse e medicasse.
Mais tarde, na Casa Pia, contou a uma educadora o que se tinha passado, frisando que o médico não deu mostras de o ter reconhecido. A educadora achou a situação estranha e informou a provedora. Catalina Pestana também considerou o encontro “bizarro” e relatou o incidente ao Ministério Público. E o procurador João Aibéo decidiu logo pedir à juíza Ana Peres que além de não se poderem ausentar do local onde residem e das apresentações periódicas que têm de fazer às autoridades, os arguidos sejam proibidos de contactar as vítimas do processo de pedofilia, cujo julgamento está a decorrer desde o dia 25 de Novembro do ano passado, na Boa-Hora, em Monsanto e no Tribunal Militar.
'NUNO' AINDA NÃO DEPÔS NO JULGAMENTO
‘Nuno’ implica todos os arguidos e garante ter sido abusado por Carlos Silvino, Paulo Pedroso, Carlos Cruz e Ferreira Diniz. É uma das principais testemunhas do processo que vai ser sujeita à repetição das perícias de personalidadade e ainda não tem data para ser ouvido em Tribunal.
Nascido em 1986, perdeu o pai aos oito anos, com quem, segundo a acusação do Ministério Público (MP), tinha uma relação afectiva muito forte, tendo ficado entregue à mãe, uma mulher com graves problemas de saúde e pouca disponibilidade para o acompanhar, que o educava de uma forma autoritária e violenta. Em 1999, o Tribunal de Menores e Família de Lisboa considerou que estava em situação de risco e determinou a entrega do menor à Casa Pia de Lisboa. O jovem, de acordo com o MP, manifestava graves dificuldades de aprendizagem e apresentava uma “problemática depressiva”, revelando-se inseguro, fragilizado e com baixa auto-estima. Mal entrou na Casa Pia conheceu Carlos Silvino, de quem recebia rebuçados, guloseimas e dinheiro. Nesse mesmo ano, ainda segundo o MP, ‘Bibi’ começou a abusar do menor, então com 13 anos, e mais tarde passou a levá-lo para encontros sexuais com outros adultos.
‘Nuno’ é um dos jovens que acusa Carlos Cruz de abusos na casa do número 111 da Avenida das Forças Armadas, em Lisboa, local que já foi visitado pelo Tribunal.
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