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Namorada de Sotero ajuda a enviar cartas

Violador terá restituído cerca de 600 euros às vítimas a quem roubou dinheiro e objectos.
13 de Janeiro de 2011 às 00:30
Carta foi assinada à mão por Sotero e enviada pelos familiares mais próximos: namorada, irmão e mãe (na foto)
Carta foi assinada à mão por Sotero e enviada pelos familiares mais próximos: namorada, irmão e mãe (na foto) FOTO: Mariline Alves

O violador de Telheiras quis restituir o dinheiro que roubou às vítimas depois de as ter violado e abusado sexualmente e socorreu-se da namorada, que tem estado sempre do seu lado, para poder enviar a cada uma das catorze raparigas uma carta com um pedido de desculpa e que, em alguns casos, seguiu com um vale em dinheiro para compensar os danos materiais.

"A namorada e a família enviaram dois tipos de carta. Uma em que Sotero pede desculpa pelo que fez e outra em que, além disso, restitui os valores que são exigidos pelas vítimas a título de compensação pelos danos materiais provocados. Ele apenas cumpriu um dever legal, o que é que isto tem de intimidação?", questiona o advogado de Sotero, José Pereira da Silva.

Porém, do lado das vítimas, um dos advogados de defesa garante que as jovens ficaram "ofendidas e aterrorizadas", pondo em causa a sua presença em tribunal, amanhã, aquando do início do julgamento. Ao que o CM apurou junto da mesma fonte, nem todas as vítimas levantaram os vales em dinheiro, ao contrário do que diz Pereira da Silva. E de acordo com o mesmo causídico, as cartas enviadas também não foram acrescenta- das ao processo.

Segundo o defensor do violador de Telheiras, "as cartas foram enviadas em Dezembro e no início de Janeiro, porque só em 20 de Dezembro é que Sotero recebeu alguns créditos em atraso que tinha na ZON [onde trabalhava]. Depois de receber o dinheiro, quis restituir às vítimas o que lhes era devido." Pereira da Silva diz que o seu cliente "pagou ainda uma conta ao Hospital de Santa Maria devido a uma consulta prestada a uma das vítimas". O advogado defende que esta situação não configura "nada de anormal" e questiona se o cliente "não pode pedir desculpa às vítimas".

Segundo a acusação, Sotero apoderou-se de 326 euros e, ainda, de um iPod, no valor de 300 euros. Três das vítimas pedem, no total, uma indemnização no valor de 450 mil euros por danos morais.

COMPANHEIRA ANALISADA

Já depois de ter sido abordado pelos inspectores da PJ na rua, Henrique Sotero confessou à namorada que era o violador de Telheiras. Juntos há nove anos, A. S. acabou por ser um pilar de apoio a Sotero e chegou a acompanhá-lo ao psiquiatra. "Antes de ser detido, apenas a mulher sabia. Mas quando ele foi pela primeira vez ao médico, já tinha cessado a actividade criminal. E a mulher chegou depois a acompanhá-lo", refere o advogado, José Pereira da Silva. Segundo o mesmo, os peritos médico-legais que examinaram Sotero em seis sessões, no Instituto de Medicina Legal de Lisboa, optaram ainda por chamar também A. S., na última sessão, para ser alvo de uma perícia. "Se ele tivesse uma personalidade tão linear, os médicos da medicina legal não se tinham visto obrigados a prolongar a perícia por mais duas sessões, acabando por ouvir finalmente a mulher", diz.

"DIGO QUE CRIMES SÃO HEDIONDOS": José Pereira da Silva, Advogado de Henrique Sotero

Correio da Manhã – Sotero mostrou arrependimento?

Pereira da Silva – Então, mas ele quando vai pedir ajuda ao médico para o medicar, para pôr cobro à situação, isso não é expressão do arrependimento? Claro que é. Quando ele pede ajuda aos familiares, quando confessa o que fez à companheira de oito anos e à mãe, não é arrependimento?

– Diz que a família tem estado sempre do lado dele. Porquê?

– Já viu o que é uma mulher ser confrontada com a prática reiterada, da parte do marido, de violação? Quantas mulheres não poriam imediatamente termo a essa convivência conjugal? É normal e é o saudável.

– Mas porque é que isso não aconteceu?

– Porque eles percebem que na base desse comportamento criminoso há uma patologia. O que eu pretendo garantir é um julgamento justo, em que estas circunstâncias patológicas sejam tidas em conta na valoração da culpa. Não se trata de estar a negar o inegável ou a branquear o que não tem branqueamento possível. Sou o primeiro a dizer que são crimes hediondos.

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