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“Não tenho nada para falar agora”

Domingo, 15h46. A reportagem do CM está à porta do número 24 da rua Domingos São Lavadinho, em Elvas. Uma pequena vivenda branca de dois andares, com uma escada exterior e um painel solar no telhado. A célebre casa que a Acusação do processo Casa Pia refere como sendo um dos locais de encontro dos arguidos para orgias com jovens da Casa Pia. Não há sinais de vida. O telefone está em nome de José Joaquim Almeida Nunes. Ao terceiro toque, atende uma mulher: Gertrudes Nunes, acusada de 35 crimes de lenocínio.
9 de Dezembro de 2008 às 22:00
A casa de Gertrudes Nunes é de fácil acesso para quem vem de Lisboa e a rua  tem muitos lugares de estacionamento
A casa de Gertrudes Nunes é de fácil acesso para quem vem de Lisboa e a rua tem muitos lugares de estacionamento FOTO: Lusa

Quando sabe que é um jornalista do CM que quer falar com ela e que está à porta da sua casa, diz muito rapidamente que não o conhece e pergunta: "O que é que o senhor quer?" A conversa era sobre o processo Casa Pia e as expectativas de Gertrudes Nunes sobre o que lhe vai acontecer no fim do julgamento. A resposta veio rápida: "Não tenho agora nada a dizer. Neste momento não tenho nada a falar. Com licença, muito obrigado."

A uma distância de 500 metros da casa de Gertrudes Nunes, em linha recta, vive Hugo Marçal, outro dos arguidos do processo Casa Pia, acusado de 36 crimes de lenocínio e de abusos sexuais. No número 2, 1 º dtº da rua Dr. António Pires Antunes também não há sinais de vida. A varanda está coberta com dois toldos verdes, mas a roupa estendida nas traseiras mostra que o morador não foi para longe.

Às 16h25 uma chamada confirma a ausência de Hugo Marçal. Fica uma mensagem e é enviado um fax. Horas depois, às 21h10, Hugo Marçal telefona. E uma hora depois diz ao Correio da Manhã que não quer pensar no julgamento e na sentença que a juíza Ana Peres lhe vai aplicar no Tribunal de Monsanto.

ACUSAÇÃO TERMINA ALEGAÇÕES

O procurador que representa a Acusação no processo Casa Pia, João Aibéo, prossegue hoje as alegações finais no julgamento de pedofilia, depois de já ter pedido a condenação de quatro dos sete arguidos acusados de crimes sexuais.

Este será o quarto dia de alegações do Ministério Público, após uma semana e meia de interrupção, mas é previsível que Aibéo peça mais um dia e apenas termine amanhã a exposição de argumentos da Acusação.

Para o fim, o magistrado deixou o capítulo do despacho de pronúncia que diz respeito a Elvas, onde terão ocorrido a maioria dos abusos, e ainda terá de se pronunciar sobre os restantes crimes imputados a Carlos Silvino, Carlos Cruz, Manuel Abrantes e Ferreira Diniz, em relação aos quais já pediu a condenação por alguns dos crimes – ainda não se pronunciou sobre Jorge Ritto, Hugo Marçal e Gertrudes Nunes, o que deverá acontecer hoje.

Além de Elvas e do chamado processo pequeno – em que Carlos Silvino é o único acusado – João Aibéo terá de se pronunciar sobre as declarações das vítimas sobre factos alegadamente ocorridos numa casa da Ajuda e no Teatro Vasco Santana.

O procurador já fez saber que entende haver prova para condenar Cruz, Ferreira Diniz, Manuel Abrantes e Carlos Silvino e já deixou cair 440 acusações de ‘Bibi’.

MARÇAL FOI COLOCADO EM ÉVORA

Hugo Marçal, arguido do processo Casa Pia acusado de 36 crimes de lenocínio e abusos sexuais, está neste momento a trabalhar em Évora, na Direcção Regional de Educação do Alentejo, depois do o ‘CM’ ter revelado em primeira mão que estava colocado na Escola Básica 2/3 n º 2 de Elvas, frequentada por alunos até aos 15 anos. Professor efectivo há 25 anos, 15 dos quais a dar aulas, Hugo Marçal afirmou ao ‘CM’ que esteve naquela escola dois anos e meio, contra sua vontade, e que por diversas vezes pediu à Direcção Regional para o tirar da escola. Agora está a fazer pareceres jurídicos para aquela estrutura do Ministério da Educação, trabalho que anteriormente fazia para o conselho executivo da escola de Elvas. Hugo Marçal, que também é advogado e chegou a ser um dos defensores de Carlos Silvino, outro dos arguidos do processo, vai ser o penúltimo dos acusados a fazer as suas alegações no julgamento. O último será Gertrudes Nunes, sua vizinha em Elvas, acusada de 35 crimes de lenocínio .

NOTAS

ESCÂNDALO: DIVULGADO EM 2002

O escândalo de abusos sexuais na Casa Pia veioa público em 2002, com a detenção de Carlos Silvino, ex-motorista da instituição que já confessou centenas de abusos sexuais sobre menores

CRUZ: ABUSOS EM CASA DE LISBOA

O Ministério Público entende que há prova para condenar Carlos Cruz, o arguido mais mediático do processo, por dois crimes de abusos sexuais que terão ocorrido numa casa em Lisboa

'BIBI': 440 CRIMES CAÍRAM

João Aibéo já pediu a condenação de Carlos Silvino por 105 crimes, mas deixou cair 440 das 639 acusações imputadas ao ex-motorista da Casa Pia, autor confesso de abusos sexuais

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